Olho no Olho, Polvo com Repolho

Um ranço desconhecido tomou-lhe propriedade nasal antes mesmo de pisar no tal restaurante asiático, movimentando Imke as narinas freneticamente e cobrindo-as com a mão pequena ao mesmo tempo que esticava a boca num sorriso sem-graça. Ali estava ela, alemã da gema, tomada de paixão por um coreano que se dizia tão germânico quanto ela, mas que mesmo assim almejava a improvável aprovação de seu relacionamento com essa mulher branca, sardenta e avolumada para os padrões coreanos de beleza, ansiando que seus pais vissem nela a mesma beleza de espírito que o pegou de jeito. Como a tratariam era a maior preocupação de Jeong-Won, medo tinha ele de que a frieza dos pais afastasse a namorada, mal sabendo ele da resolução secreta de Imke de desbravar os corações mais tradicionais.

 

Seus pais há muito que tentavam apresentar-lhe moças pré-aprovadas em beleza e origem, desejosos que seu único filho estivesse aberto a um compromisso com alguém que desse continuação às tradições coreanas, mas tais ideias não tinham qualquer ressonância no filho rebelde. Ele resistia as pressões de forma oblíqua e valente, indisposto de confinar-se aos limites de uma cultura com a qual não se identificava mesmo sendo o exemplo físico do coreano comum, sentindo-se ocidental o suficiente para recusar-se a encontros com coreanas sorridentes e submissas. Ressentia-se a cada invasão de privacidade que lhe era absolutamente desnecessária, como se seus pais ainda tivessem que segurar sua a mão para quaisquer decisões importantes, achando-o incapaz de encontrar o amor sozinho. Queria ele achar sua alma gêmea porém à sua maneira e, de preferência, que não fosse detentora da cultura que ele lutou a vida inteira contra. Sua amada, apertando-lhe a mão em óbvio nervosismo, parecia mais fascinada com suas origens do que ele próprio, seus olhos asiáticos e generosos o estopim do amor que a acometia.

 

Entraram no restaurante por fim, o cheiro rançoso ainda mais intenso, mas sem qualquer efeito sobre ele, acostumado com os aromas que sobressaíam do kimchi, um preparado de repolho fermentado com chilli, enquanto Imke sentia os olhos lacrimejarem sob o efeito da receita tradicional. Ali estava toda a família, imigrantes de tantas décadas reunidos em um dos poucos restaurantes coreanos de Düsseldorf, faces com as mesmas feições observando-os, esperançosos de que Jeong-Won finalmente desse adeus à solteirice insistente de tantos anos. Era hora, afinal, de começar a produzir a próxima geração, cobravam-lhe sempre. Até que vira seus pais, olhares cansados a analisar cada palmo da mulher de sua vida, seus olhos puxados praticamente numa linha de tanto aprumar a vista para reconhecer os pequenos defeitos da nora de origem inconveniente.

 

Cumprimentaram-se sem delongas, a mão da futura sogra fria contra o calor da jovem ruiva, olhares fulminantes disfarçados de simpatia. Sorriram, olharam-na e, rapidamente, procuraram lugar na ponta da mesa justamente reservado a eles, os mais velhos da comissão asiática, dando-lhes a reverência que os acompanhava com a idade. A alemã, ansiosa para agradar, não guardou rancor do cumprimento sem alegria, tomando consolo nos sorrisos agradáveis à sua volta, os familiares de seu namorado curiosos em conhecê-la e, principalmente, testar o seu paladar com as iguarias mais saborosas da pátria coreana. À sua frente revelavam-se inúmeros pratos misteriosos, do bibimbap com arroz, legumes, carne e um ovo cru que cozinha ao contato com o prato quentíssimo, até macarrão oriental com legumes e óleo de soja, o japchae e, é claro, o tal do kimchi; Imke logo notou que o mau cheiro em suas narinas originava-se justamente ali, daquele amontoado de repolho vermelho que insistia em se fazer presente. Torcendo o nariz, sentou-se finalmente e, assim como todos, ficou à espera da grande performance que era a cozinha fresca ao alcance dos olhares mais exigentes.

 

O cozinheiro pôs-se a postos, a panela wok já fervente com óleo de sésamo exalando um aroma exótico no ar. A sala estava de repente em silêncio tal qual um santuário religioso, todos os olhares fixados na panela onde o óleo borbulhava, Imke nada entendendo o que se passava e perguntando ao namorado com os olhos como se seus pensamentos pudessem ser transmitidos pelas ondas de calor da panela, até que num segundo o mistério foi quebrado.

 

Sem piedade, o cozinheiro tomou dois polvos de um balde e os jogou ainda vivos na quentura, suas múltiplas pernas freneticamente agitando-se em protesto até murcharem sem vida. Imke, sem nunca ter provado algo tão fresco em sua monótona existência, soltou um grito de surpresa sem perceber, ressentindo o namorado por não tê-la avisado da barbaridade medieval. A mãe de Jeong-Won olhava-a sorrateira, esboçando um leve sorriso pela primeira vez como se o choque da moça lhe desse certo prazer, a reação dela sendo diversão sua para equilibrar a sensação de fracasso ao ver o seu menino de mãos dadas com a estrangeira. De imediato lembrou-se que a estrangeira era ela, somente ela, Myung-Hee.

 

A velha mulher havia perdido as esperanças de ver seu filho casado, já passado dos trinta, agora deparando-se com o pesadelo que era aceitar uma estrangeira no seio da família, símbolo ela do seu fracasso de não ter conseguido embutir a identidade coreana em seu filho. Há mais de quarenta anos que havia deixado sua terra natal após a Guerra da Coréia, vindo para a Alemanha assim como tantos outros, e com o povo que a recebera havia o entendimento invisível do que era conhecer a guerra de perto, de ter visto destruição e fome e pestilência, algo que a confortava por ser uma compreensão além de raças ou de cor da pele.

 

Mesmo assim, por muitos anos pensava que sua estadia em Düsseldorf seria temporária, uma constante fantasia de que seu país era o melhor lugar do mundo. Apesar de tudo. Mantinha a esperança de um dia retornar como filha pródiga, mas criou-se a carreira na enfermagem, integrou-se na comunidade crescente de coreanos na Renânia do Norte-Vestfália, conheceu seu marido, teve seu filho. O retorno para a Coréia parecia cada vez mais distante, acomodados estavam em uma vida relativamente confortável. Foram deixando a volta para o ano que vem, para daqui a dois anos, para quando Jeong-Won estivesse maiorzinho.

 

Até que o menino virou adolescente e, com todos os hormônios da juventude, a rebeldia de identidade tornou-se ainda mais robusta, o coração de seu filho agora batendo mais forte pela nação germânica. Nem falar mais o idioma de seus ancestrais ele queria, enchendo-a de profunda vergonha e consternação, sempre precisando explicar aos familiares e amigos o porquê de toda aquela resistência, sempre com uma desculpa na ponta da língua, sempre com um sorriso para rebater o veneno dos comentários cruéis. Desse sofrimento seu filho não sabia, como todos os homens absorto das sensibilidades femininas, apesar de seu marido também se debulhar em lágrimas escondidas a cada piada. Ainda assim, estava ele lá a pedir-lhe a bênção, mas seu coração comiserava-se, e com a cara de espanto da alemã, congelada por alguns segundos nos corpos fritos das criaturas do mar, veio uma onda repentina de angústia. Não mais lhe trazia prazer ver o choque cravado no rosto da moça, que permanecia pálida e mal tocava a comida.

 

Esforçando-se para comer os múltiplos pratos de arroz, macarrão oriental, carnes, legumes, kimchi e, é claro, o polvo fresco do mar e da panela, Imke notava o semblante de prazer do namorado, tanto tempo sem colocar os sabores de sua infância na boca. Mal se desculpou de não lhe ter avisado da performance do polvo – afinal para ele era normal, mal tinha reparado como ela poderia ter se chocado tanto – a paixão dos dois já havia derrotado a leve irritação entre eles, beijos comportados trocados de perdão.

 

Grande parte do apelo daquele homem quieto era justamente não pertencer a lugar algum, como se isso lhe desse um caráter ainda mais forte do que os outros rapazes com os quais havia se relacionado, sempre alemães, sempre pertencentes aos mesmos valores compartilhados, sempre relacionamentos que acabaram-se por tudo parecer fácil demais, simples demais, monótono demais. Um ar de mistério era conferido a Jeong-Won com suas origens exóticas e que ele com veemência as repudiava para o espanto de Imke, que se fascinava com o som da língua, o hábito de tomar chá com as refeições, os gestos inconscientes de cabeça para concordar ou cumprimentar alguém, pequenas coisas que enchiam a sala de vida e diferença.

 

Relevando o lapso do namorado e sob o olhar insistente de seus parentes, desajeitadamente Imke tomou posse dos pauzinhos de madeira e começou sua exploração culinária devagar, receosa de que a aventura gastronômica pudesse tornar-se traiçoeira. Com exceção do polvo, seus tentáculos porosos impossíveis de digerir, seguiu as instruções de uma das tias mais velhas que colocou uma tigela de água em frente ao prato para tirar um pouco do chilli que cobria o repolho, tratando-a como uma criança desacostumada com temperos fortes.

 

Cada mastigada revelava sabores que explodiam, deliciosos na maioria, temperos que embutiam nela coragem para perguntar isso ou aquilo. Curiosidade com todas as coisas coreanas permeava seus pensamentos, da comida até as vestimentas, da música tradicional que tocava ao fundo até o orgulho patriota cego, da sogra que mudava de religião como mudava de roupa, do budismo para o adventismo. Mesmo contra a vontade familiar de continuar pertencendo à religião dos ancestrais, sabia a velha de olhos tristonhos como era ser diferente, as consequências de quem escolheu um caminho íngreme e único, pensou Imke.

 

Em seu espírito afoito, cobria sua futura família de perguntas comuns e inesperadas, eufórica em desvendar o leque de hábitos que a fascinavam, nítida sedução que logo os sogros não mais podiam ignorar. Há alguns minutos estavam eles concentrados no ato automático de mastigar sabores rotineiros, gostos de conforto, seus pensamentos longe da situação que se desenrolava, mal nutrindo a curiosidade natural que era de conhecer a nora, de interrogá-la, de descobrir seus pequenos defeitos para utilizá-los como argumentos contra ela. Ao contrário, permaneciam calados e deixavam as perguntas para os mais novos, como se perguntar qualquer coisa fosse um afronte à condição de chefes da família. Estavam escutando, mas nenhuma reação óbvia denotava de suas expressões, capazes de disfarçar falta de interesse nas conversas animadas e sorrisos trocados.

 

Imke não se deixava influenciar pela falta de interesse dos sogros. Jeong-Won respondia suas perguntas como se ele agora quisesse se passar por um expert da cultura coreana, os tios e primos percebendo como o parente que antigamente desprezava tais manifestações de suas origens agora distribuía informações em puro regozijo, ah, a ironia do destino! A sogra, ainda não dando o braço a torcer, aos poucos não mais resistia ao ataque de charme da moça falastrona, gentilmente virando a cabeça em sua direção e prestando atenção na conversa, olhos antes frios revelando certa candura. Notando que a frieza descongelava, Imke dirigiu-lhe a palavra, o receio de outrora dando lugar à leveza.

 

Nas idas e vindas da conversa, uma das tias não resistiu ao feitiço que a moça espalhava e num impulso revelou o segredo que a família havia combinado de manter entre eles. Bocarrota, disse-lhe que na próxima semana estariam todos numa parada asiática em Aachen, linda cidade na fronteira com a Holanda, não teria Imke desejo de participar, perguntou a tal tia sem remorso, incapaz de guardar qualquer segredo para si. Jeong-Won fez uma expressão de contragosto, levando sua mãe a suspirar com um daqueles gestos de repulsa explícita que ela conhecia bem, até que Imke, arregalando os olhos azuis, disse que adoraria ir, que quem sabe poderia até usar uma roupa tradicional, olhando para o namorado em súplica para não perder um evento que com certeza seria o mais interessante que ela havia visto há muito tempo.

 

Os olhares daquelas que disputavam o carinho de Jeong-Won, mal ele notando essa batalha invisível em seu favor, cruzaram-se. Um entendimento passou por elas como um raio que corta o céu, algo eletrizante que por um segundo apenas as uniu, criando uma ponte entre elas que até alguns segundos atrás seria inimaginável. Com o coração cheio de esperança pela primeira vez em anos, Myung-Hee sorriu como há muito tempo não se via e, seu coração aliviado, aceitou a ruiva com a esperança de que seria ela, a estrangeira, quem inusitadamente traria seu filho de volta para casa.

 

* Ilustração da artista coreana Me Kyeoung Lee.