O Anel de Salomão

Esbaforidos corriam um judeu e um católico, amigos desde a infância, fugindo desastradamente de um oficial do transporte público de Praga. Os dois mal havia chegado na última estação da longa viagem europeia e novamente se metiam em confusão, o histórico de alvoroços acumulando uma bronca de um segurança do Museu Judaico de Berlim por causa da lerdeza em abrir as mochilas para fiscalização e o incidente da tragada de haxixe que pensavam ser maconha em Amsterdam, deixando o rosto de Benjamin azul com a falta de ar que se seguiu. A cada destino um pandemônio, o caos desenrolava-se. Deveriam ser mais atenciosos, mas ambos eram distraídos para as coisas pragmáticas da vida, seus olhos e corações mais voltados para as redescobertas de passados distantes, algo que os dividia e unia, inimigos latentes de fé e amigos de alma.

 

O ovládáni, controlador das passagens de transporte, avistou os estrangeiros no veículo semivazio, já tarde da noite. Passando pela rua Maiselova e com apenas duas estações para chegarem ao hotel, Benjamin e Eduardo nem pensaram em pagar a passagem, subiram apenas no bonde e, preocupados em descer exatamente no ponto que deviam e com um tanto a mais de cerveja barata em suas cabeças, mal perceberam o gravíssimo erro que era dar o calote de meras quarenta coroas checas. Não era intenção dos dois, mas assim que avistaram a expressão sedenta do ovládáni de aplicar a multa saíram eles correndo como duas maricas.

 

A passos largos, quase sem fôlego, os amigos desceram a Maiselova, ainda perto da praça da cidade antiga e do rio Vltava, e notaram que estavam no epicentro do que buscavam. Era uma viagem que ia além de turismo, combinada de última hora. Benjamin, judeu de descendência, mas não tanto de religião, mergulhara em profundo desalento quando a vida de seu irmão mais novo foi interrompida num assalto à mão armada em plena luz do dia em Higienópolis, bairro de classe alta paulista; uma bala na cabeça sem motivo, sem misericórdia. Se antes era ele praticamente agnóstico e apenas participava de algumas tradições familiares, a tragédia o trouxera para perto de uma fé que há muito ele se distanciara. Tomou um velho anel de seu irmão, símbolo do passado e do orgulho hebraico, e desde então não mais o tirava do dedo mindinho, o único que cabia.

 

Avistando uma das seis sinagogas do bairro judeu, conhecido como Josefov, eles pararam num canto escuro, procurando por um sinal do ovládáni. Tinham despistado o jovem checo de olhos febris? Com certeza o rapaz conseguiria alcançá-los em dois tempos, juventude exalando dele, mas talvez não mais conseguia ver os vultos na escuridão da noite. Poderia ainda estar à espreita, esperando apenas para dar o bote nos caloteiros. Aliviados, pensaram os dois que poderiam calmamente retornar ao hotel com mais uma história para contar, Benjamin inconscientemente acariciando o anel até notar uma luz suave emanando do objeto. Assustados, mas curiosos, logo perceberam que a luz era emitida apenas em uma direção, e nela resolveram seguir até que ouviram a voz do controlador de passagens, nítida mesmo que não entendessem uma só palavra, notando que o rapaz se fazia acompanhar de outro homem, provavelmente um policial tão taciturno quanto.

 

Pensamentos desenrolavam para Benjamin com velocidade estrondosa. Não só o anel emitia luz, como também certo calor, sua mão sentindo uma energia que jamais havia experimentado. Lembrou-se de Levi, sempre tão compenetrado em seus estudos da Cabala, orgulho dos pais por seguir as tradições esquecidas com as gerações que não mais agradavam os manuscritos velhos e empoeirados, mas as novas tecnologias. Levi sentia a História tomar vida ao folhear as páginas gastas das escrituras, de ler a Torá, o Talmud ou a Cabala, dizia-lhe sempre, causando espanto e admiração.

 

[Não posso deixar a tradição morrer.] Não vai morrer, Levi, tantos ortodoxos que estudam as escrituras, meu irmão... você também pode aproveitar a vida de vez em quando. [É o que sei fazer de melhor, Ben.]

 

Dizia-lhe sempre as mesmas palavras, os mesmos argumentos, acariciando o anel como um bicho de estimação. Nunca havia pensando nisso, nesse significado, mas agora estava certo de que seu irmão tinha vivido muito mais do que ele enquanto corria as ruas de Josefov, preservado apenas pelo nazismo porque Hitler quis que o bairro judeu se tornasse um museu de uma raça extinta, esse detalhe mais um pedaço de um quebra-cabeça complexo que aparecia em sua cabeça, ainda sem formar conexões apropriadas. Ao mesmo tempo seguia a direção do anel, seu coração acelerado com a perseguição e a expectativa do que encontraria.

 

Não era permitido pisar no solo sagrado do cemitério judeu, um pequeno pedaço de terra que acumulava tumbas quase sem qualquer espaço para caminhar. Benjamin e Eduardo pularam a cerca, seus pés há anos os primeiros que tocavam o chão repleto de cadáveres. A voz do ovládáni estava perto, lanternas ligadas à procura dos turistas, os dois amigos procurando refúgio atrás dos túmulos seculares. O anel brilhava mais forte agora, algum sinal queria ele dar ao seu novo proprietário, mas Benjamin se perturbava com o risco de ser pego. Eduardo, sempre ao seu lado, cochichou no seu ouvido que talvez ele tivesse a resposta para o fulgor do anel.

 

Desde crianças que Eduardo parecia ter uma antena acoplada à cabeça de tantas coisas que ele percebia com as mínimas indicações. No começo não se gostavam, afinal como um judeu poderia ser amigo de um católico, ainda mais na época que se seguiu ao pós-guerra. Cada povo com os seus, diziam seus pais naquela época, mas parece que alguma coisa na nação brasileira faz o povo tornar-se mais tolerante. Mesmo com os dilemas e preceitos da fé que os acompanhava como sinas, não havia discussão religiosa que separasse os dois meninos. Estava uma amizade feita para a vida, um comendo porco, o outro não. O católico gostava de discussões, entretanto, sempre ele tão cerebral. Conversava também com Levi e com ele tinha uma amizade superficial de mentes, mas não de almas como era o caso de Benjamin.

 

A ideia de Eduardo revelada no cemitério de mais de setecentos anos acendeu ainda mais o anel. Os dois entreolharam-se sorrindo, e em Benjamin veio a nítida revelação do próprio irmão, mensagens que ele procurava transmitir mas que não encontrava entendimento na época.

 

[O nosso ancestral de Praga nos revelará seus segredos na hora certa...] Não temos um ancestral em Praga, Levi. Do que está falando? [Sabes muito bem, irmão. Aquele que criou o Golem. Ou já não mais se lembra das antigas lendas? É tão absorto com o nosso legado!] O Golem, a criatura de argila? Do que está falando, irmão, essa criatura jamais poderia ter existido! [Será, Ben? Será?]

 

Levantou os olhos e se viu bem em frente ao túmulo de Maharal, rabino do século XV e mestre do Golem, corpo de argila das margens do Vlatva e alma de homem. Eduardo tinha razão, portanto. Suas mãos encostaram-se contra a pedra fria da lápide, reconhecendo as letras hebraicas. Lugar incomum era aquele, a temperatura que sentia em sua mão aquecendo-se. Num susto, levou as mãos à terra, que mexia, borbulhava, por mais impossível que parecesse. Eduardo agarrou o amigo, querendo protegê-lo, mas Benjamin sentiu que não havia perigo. Era o ancestral de Praga, ainda vivo em espírito, que queria arrastá-lo numa viagem de descobertas. Talvez tenha sido o episódio do bonde apenas uma forma de trazê-lo até onde ele descansava, a ameaça do ovládáni esquecida.

 

Não era para isso que tinha viajado até o velho continente, para descobrir o legado de seu irmão, mesmo ele nunca ter sido daqueles viajantes inveterados que não conseguem parar quietos em um só lugar? Sossegado era, curioso para coisas mais matemáticas e científicas, a sua casa sendo os números e não um lugar específico. Poderia morar em qualquer lugar, contanto que tivesse os números como companheiros. Arrastou-se para a Europa por insistência de Eduardo, personalidade mais inquieta que a sua, que via seu amigo de décadas mergulhado na melancolia da perda de Levi, os meses passando sem que ele conseguisse passar por cima da morte inesperada.

 

O amigo o convenceu quando fez um roteiro que o levaria para perto do irmão, uma espécie de itinerário judaico da Europa, onde dividiram momentos tristes em Auschwitz e na Casa de Anne Frank em Amsterdam, lembretes de vidas interrompidas. Depois de visitarem Auschwitz, Benjamin sentou-se numa bancada e chorou como uma criança, a dor ainda crua da perda do irmão e de tantos ancestrais seus. Eduardo o abraçou, temporariamente arrependido de ter aberto a ferida, mas depois notou que o colapso do amigo o tornou mais forte. A peregrinação pela glória e derrocada dos judeus na Europa era, de fato, chegar perto de Levi e da jornada que ele tinha como objetivo de vida; Praga, a última estação.

 

[Se um dia for a Praga, lembre-se de ir ao cemitério judaico e visitar o túmulo de Maharal.] Não gosto de turismo mórbido, Levi. Para que visitar o túmulo de alguém? Não é melhor que os deixemos descansar em paz? [Paz só vem quando finalizamos o que temos pendente na Terra. Não se esqueça do que te disse, um dia precisará.] 

 

A magia do anel os absorveu para dentro e fora do cemitério, num piscar de olhos estavam em frente à Sinagoga Velha-Nova, sua estrutura ainda irreverentemente de pé como se tivesse sido construído apenas na década passada. Ambos mal acreditavam no que acabara de acontecer, entreolhando-se em estupefação e maravilha, mas não perdendo tempo naquele breu que também trazia uma grossa neblina.

 

[Todo o universo conspira a nosso favor quando é esse o nosso destino.] Se fosse assim, nossos ancestrais não teriam sido levados para matadouros, não teriam perecido da forma mais desumana possível, Levi. [Tudo tem um sentido, irmão, e nossas vidas não podem ser mensuradas apenas por nós mesmos. Somos parte do universo, nosso destino entrelaçado a ele.]

 

Bateram na porta de madeira antiga, resistindo ao tempo como suas tradições, o coração de Benjamin apertado ao esperar por uma resposta que logo veio. Apareceu um homem, encorpado como ele, seus olhos inexpressivos e boca muda nada revelando. Olhando para Eduardo desconfiado, sabia de alguma forma que seu amigo não pertencia ao seu povo, até que num olhar de desafio deixou Benjamin claro que sem o amigo não prosseguiria. Em seu cerne compreendia que não era ele um homem comum; era o Golem como Levi havia previsto, criado para obedecer sem pestanejar, mudo de fala e de vontade. Não precisava de confirmações em palavras, um olhar bastou para entender.

 

Cheirava de épocas antigas o Golem, há muito tempo adormecido no porão da sinagoga. De tempos em tempos acordava, uma energia divina levantando-o para dar cabo de mais uma missão. Dessa vez estava lá para abrir a porta e deixar um dos seus entrar, o outro sendo uma inconveniência não planejada. De lá desceu as escadas que o grande público não conseguia ver. O anel brilhava com mais intensidade agora, iluminando os passos dos três. Benjamin tocava as pedras que o envolviam no estreito corredor, se perguntando se Levi havia visto o que ele estava agora presenciando. O Golem parou de repente, virando-se até ele, e sem falar nada deixou claro que sim. Levi estivera nesse lugar, pois ali era a sua casa, o Golem transmitindo as palavras por pensamento.

 

Benjamin tomou mais uma passagem secreta, caminhando com pressa, metros e metros passando-se entre pedras milenares, correndo então, impaciente para logo desvendar que mistérios o aguardavam nos confins daquele lugar. Parou de súbito, raios de sol inundando aquele espaço, encontrando-se num campo de onde se via uma caverna. Num transe, tudo o que mais queria era entender.

 

[Entre, Ben. Essa é a caverna de Beit Meir, lá estão os segredos do universo.] Mas essa caverna fica nos arredores de Jerusalém, Levi. Não é possível! [É o anel, irmão, aceite sua magia. Será você capaz de finalmente acreditar em algo invisível, em sentir que existe mais entre o céu e a terra? Acredite apenas, abra seu coração, sua mente. Sua alma.]

 

Ali entrou, e nas paredes viu os códigos e números que se fizeram presentes na juventude, sequências matemáticas que supostamente desvendariam os ensinamentos sobre o homem, o universo, a criação, a verdade. Sentiu-se à vontade diante da matemática que abraçava cada ensinamento, fechou os olhos e percebeu que paz retornava ao seu peito, iluminação plena ao seu alcance, algo que jamais imaginou existir. Sorriu de um profundo contentamento de ser testemunha do impossível, certo de que era esse o segredo que Levi tanto queria dividir com ele.

 

[Seja bem-vindo, Ben.]

 

* Ilustração da publicação DK EyeWitness Travel