A Dançarina de Pedra

À procura de mais um templo escondido, Guilherme imaginava-se como um daqueles arqueólogos à beira de descobrir algo inesperado. Enquanto passeava pela selva de Angkor, onde milhares de santuários cambojanos esperavam para serem revelados, ele deixava se levar pela fantasia de desenterrar algum templo perdido, um sentimento adolescente correndo solto em suas veias como um elixir da juventude. Talvez seja uma daquelas crises de meia-idade..., pensou ele em voz alta, sem constrangimento de que alguém o ouvisse, sorriso esboçado na boca.

 

Nessa comoção que o perseguia, ao invés da dar vazão a carros importados Guilherme simplesmente largou tudo, num impulso decidindo percorrer caminhos extraordinários. Anos que passara trabalhando sessenta, setenta horas por semana, sem tempo para a esposa frustrada ou amigos, sempre nervoso com o próximo prazo, obcecado em guardar dinheiro para o futuro. Lembrava-se e ria com gosto dessas recordações, como se visse um filme sobre a vida de outra pessoa, uma vida passada, outra encarnação. Quem foi aquele homem que um dia possuiu o seu corpo, pelo amor de Deus? Olhou para o céu encoberto, o que deixava a terra ainda mais quente, e soltou uma gargalhada que só os mosquitos da selva poderiam ouvir.

 

Um pequeno templo apareceu em sua frente quase como mágica,  deusas de vários braços entalhados na parede indicando os mistérios do Mahabharata, histórias hindus reveladas. Jamais saberia o nome do santuário, Guilherme sem intenção de acumular informações inúteis que só ocupavam espaço em sua cabeça. Seria Spean Thmor ou Prasat Kravan? Importava mesmo saber? Queria se desprender da coleção de nomes do que visitou ou de onde esteve, certo egoísmo em não querer compartilhar os segredos desvendados em lugares improváveis com outrém. Evitar que um dia sua esposa utilizasse de suas experiências para contar vantagem em mais um de seus jantares enfadonhos era preciso, seu estômago embrulhando-se só de pensar.

 

Não era esse o propósito de ter deixado uma vida inteira para trás; o que mais queria era sentir a energia de cada lugar. Talvez se sentisse uma vibração diferente, até poderia achar o nome para depois conseguir voltar, mas no geral não se importava de entender a arquitetura, o nome, o que aconteceu ali. O vento milenar atravessando as colunas era o seu objetivo, inalar o incenso onipresente que de alguma forma unia os cheiros da natureza, sentar-se no chão onde algum monge sábio descobriu o segredo do universo. Não, não estava ali como turista apenas; sua jornada era interior, de caráter quase espiritual, apesar de praticamente não acreditar no além ou coisas fantásticas. O que se passava dentro dele nem Guilherme entendia ao certo, apenas que seus pés estavam inquietos numa constante procura de novos caminhos.

 

Depois de meses sem conseguir dormir direito, rolando na cama sem pregar os olhos com os prazos e as preocupações corporativas, algo aconteceu. Aos trinta e cinco anos, ainda jovem e disposto, Guilherme não conseguia respirar. No meio da madrugada o ar lhe faltou, o coração batia acelerado sem motivo, as mãos tremiam, o pavor tomou conta. A ambulância do plano de saúde caríssimo foi acionada, os paramédicos sem explicação do ocorrido. Não era enfarte nem problema pulmonar, mas por precaução queriam levá-lo ao hospital. Guilherme recusou-se, afinal tinha uma reunião essencial no dia seguinte, algo que mudaria o rumo da empresa e de sua carreira, quem sabe. O ciclo de pressões inúteis continuava, dia após dia, imperdoável. Envelhecido antes da hora; até que o tempo parou.   

 

Em meio ao vaivém de lembranças, sentou-se no chão do templo sem-nome, cheiro da mata alcançando seus pulmões com facilidade. Sua boca seca ansiava por água de coco com aquele gelo de proveniência duvidosa. Olhos apertados, recordou-se de sua longa jornada até o Camboja, nenhum lugar satisfazendo seu desejo de encontrar a si mesmo. O caminho de Santiago trouxe-lhe certa paz, cada passo dado mostrando que sofrimento era parte de seu longo caminho, dias compridos, silenciosos, histórias de peregrinos que, como ele, estavam à procura, sedentos. Albergues simples enterraram a antiga necessidade de estar sempre limpo e arrumado, revelando um Guilherme muito mais relaxado, feliz até. Não precisava da bagagem de coisas fúteis, não se deixava mais irritar por problemas de primeiro mundo.

 

Mesmo com essas doces mudanças, sua busca renovava-se a cada nascer do sol. Pelo que procurava, entretanto?  Não dizem por aí que paz e felicidade vem de dentro? Sua esposa tentava entender, a cada mensagem ou ligação deixando claro que o largaria de uma vez, uma ladainha sem fim. Não queria ser injusto com ela, pois o remorso de deixá-la ainda o corroía, mas fora algo que simplesmente aconteceu, suas pernas levando-o antes mesmo de seu cérebro processar suas ações. Sua vida, seu relacionamento, tudo era como uma água lamacenta sem visibilidade. Precisava novamente nadar até a superfície, respirar. Só assim entenderia o que estava fazendo de sua vida.

 

As respostas que Guilherme tanto queria não estavam em Santiago de Compostela. Ao final de sua jornada, também ele participou da missa dos peregrinos, também ele se emocionou, também ele colecionou todos os carimbos. Fora um peregrino oficial, com certificado e tudo, porém tudo parecia muito oficial para o seu gosto. Poderia ele ser um peregrino sem aquele monte de carimbos? Não precisava dessa burocracia para uma jornada espiritual, refletiu. Não precisava colocar fotos no Facebook. Selfies, para quê? Queria se livrar dessas imposições de aparentar felicidade, de colecionar souvenirs para mostrar aos outros. Bagagem pesada, para quê? Não era dessa forma que queria proceder, e num rompante jogou certificados e carimbos no lixo, certa dó no coração ao se despedir de símbolos do que considerava de uma vida passada. Deu as costas a essa bagagem excessiva, leveza invadindo-o como um balão solto no céu.  

 

As lembranças que teimavam em vir foram substituídas por uma ideia leviana, tomando forma até chegar no Ta Prohm, templo famoso por suas grandes árvores com raízes embutidas nas paredes antigas, simbiose entre criações humanas e divinas.  Raízes graúdas fundiam-se às paredes, amontoavam-se em tetos, espalhavam-se pelo chão. Maravilhado, Guilherme tirou uma foto, querendo registrar o surreal. Impossível era capturar tal magnificência, logo percebeu. Aventurou-se por dentro do templo, que não captava a luz do lado de fora. Esculturas de Buda e oferendas adornavam alguns cantos, incenso forte deixando-o um pouco confuso. Um monge o olhava com intensidade, Guilherme de repente notando que interrompera uma oração. O homem de vestes laranjas sorriu, juntou as mãos e abaixou a cabeça levemente, Guilherme agradecido com sua atitude.

 

Intrigado com a imobilidade dos monges enquanto os turistas deixavam o santuário para retornar aos seus hotéis cinco estrelas, a tal ideia tornou-se resolução. Por que deveria ele seguir o horário de funcionamento de Angkor como todos os outros?  Seu espírito coçava-se em antecipação à possibilidade de aventura, de ser impulsivo e inconsequente. Estava farto de seguir regras, apesar de já ter quebrado tantas desde que largou tudo na tarefa de se encontrar. Talvez o ar abafado da mata mexesse com sua cabeça, necessitado ele estava de cometer alguma loucura que o revigorasse, que o fizesse sentir-se vivo. Decidiu, de supetão, passar a noite em Angkor Wat, o maior e mais sagrado templo do antigo império Khmer. Queria sentir a energia pulsante de Angkor sem aquela cambada de turistas chatos.

 

Embrenhando-se novamente entre árvores, tomou o caminho de Angkor Wat. Queria chegar logo, mas deveria tomar cuidado para não chamar a atenção de guias ou locais que poderiam expulsá-lo da área de santuários. A verdade é que Guilherme não conseguia mais se imaginar sozinho em um restaurante turístico em Siem Reap comendo salada de mamão ou à beira da piscina em seu hotel. A aventura já corria em suas veias, a antecipação deixando-o eufórico como uma criança levada.

 

O dia aos poucos cedia passagem ao manto da noite, o céu laranja, vermelho e amarelo marcando seus passos. O horizonte mostrava as cinco torres de Angkor Wat, cinzas da rocha original, amplamente ornamentadas da base até o pico. O sol se escondia atrás da mais alta torre, amplificando seus raios como se o astro abençoasse o templo. Por um momento, Guilherme parou para ver o espetáculo, seus olhos capturando cada segundo. Com o baixar do sol, o silêncio pronunciou-se, às vezes sendo interrompido por cigarras ou um breve canto de pássaros. Vazio, Angkor Wat o recebia de braços abertos.

 

Na penumbra, Guilherme atravessou o campo aberto que dava para o lago escuro a passos rápidos, receoso de encontrar alguém que soasse algum tipo de alarme. Seu coração explodia de ansiedade, apressando-o. Ao chegar, tocava as paredes com leves esculturas de personagens lutando contra uma grande Nāga, serpente que simboliza o espírito da terra e água do povo Khmer. Com as serpentes de múltiplas cabeças dando boas-vindas, Guilherme finalmente adentrou o enorme templo.

 

O negrume tomou conta do lugar, o aspecto fantasmagórico arrancando-lhe calafrios. O silêncio da noite tornava-se espesso, mas Guilherme ainda estava entusiasmado com a aventura. Decidiu subir a mais alta torre e, com seus velhos degraus íngremes, apoiava-se com as mãos feito um gato. Suava frio, seu estômago notando a falta de nutrição. Sacolejou a cabeça para tirar necessidade tão mundana de seu corpo. Continuou subindo, incerto do que encontraria. Ao fim da escalada, endireitou-se e olhou as colunas milenares que o rodeavam. Estava tudo parado, como deveria ser. O que ele estava esperando, afinal?

 

No centro havia um espaço vazio, rodeado por um labirinto de corredores. Todo aquele espaço era seu, e Guilherme começou a correr, rindo, gargalhando de sua sorte e sua idiotice, tocando cada coluna com seus passos rápidos. Cansado, ele parou em frente a uma parede enfeitada, seus dedos sentindo cada detalhe dela, enxergando através do tato. Acariciava aquela forma, mais uma das dançarinas com seus chapéus pontudos, semi-nuas, com uma Nāga ao redor do pescoço, seus joelhos dobrados numa posição que ele jamais conseguiria imitar. Guilherme fechou os olhos enquanto sua pele sentia o toque frio da rocha entalhada entre seus dedos, um carinho quase erótico.

 

A tal dançarina aos poucos emergiu de seu habitat natural, a pedra. Guilherme retirou seus dedos da carícia, assustado com a magia que despertou, seus olhos esbugalhados refletindo confusão, surpresa plena. Retirou sua mão da pedra como se a falta de toque significasse a morte de tal magia, mas era tarde demais para reverter seja lá o que estivesse acontecendo. Sua garganta seca, seu coração acelerado como na noite do pânico, Guilherme viu a dançarina tomar vida a partir da rocha, encarando-o com reverência e malandragem.

 

Suas características agora visíveis apesar da escuridão, delírio saído de uma pintura de Dalí, como num susto Guilherme afastou-se dela. Se de certa forma estava satisfeito que algo inesperado realmente acontecesse, ao mesmo tempo arrependia-se de ter desejado um momento surreal. Esfregava os olhos, carentes de realidade. A mulher de pedra, humana e acessível, insistia em sua presença, e sem receio puxava ainda mais personagens para a longa noite. Uma a uma, dançarinas se acumulavam no grande espaço central, uma música ao longe reverberava como trilha sonora com vozes de guerreiros e monges, até que um estalado metálico fez com que todos esses seres fantásticos se calassem. A dançarina se aproximou novamente, sorrateira, convidando-o para juntar-se a ela numa língua musical, intoxicante.

 

Mulheres dançavam ao seu redor, aquela, tocada por ele, aproximando-se sem pudor. Suas unhas eram como garras, seus olhos cândidos e solitários. Sua pele chocava-se contra a dele, a química entre os dois estabelecida. Sem aviso, ela puxou o estrangeiro para fora do centro, não mais receoso de segui-la. Atravessaram os corredores surpreendentemente cheios de incenso e música, e pularam a torre. Sem medo, voaram por milésimos de segundo até atravessarem o chão frio que, secretamente, dava acesso à selva, completamente escura e perfumada, onde correram por caminhos ainda a serem desvendados pelos contemporâneos. Guilherme corria com sua dançarina, tocando-lhe a mão e sentindo a pulsação de suas veias, por um momento parte integrante daquele povo. Não mais pensava nas inutilidades de sua vida, sentia-se eterno nesse devaneio. Ou seria realidade?

 

Não queria saber, apenas desejava viver aquilo, não importando em que realidade ou dimensão paralela. No templo de Bayon, o destino que a dançarina o havia levado, dezenas de Budas olhavam em todas as direções, olhares penetrantes acompanhando o casal que desbravava o interior do santuário. Ela puxava Guilherme sem deixá-lo retomar o fôlego, como se quisesse recuperar séculos de inatividade com incessante movimento, e então ele a seguia, exausto e excitado, querendo sentir mais do que a pele da mão dessa companheira. Ela ria, extasiada, seu corpo não dando sinais de cansaço.

 

Atravessaram uma parede, ruídos milenares na passagem pediam atenção, natureza envolvendo-os ao pé de uma cachoeira. Mergulharam nas águas rasas, até que um túnel submerso levou-os a um templo pequeno que Guilherme reconheceu de imediato. Fora esse o templo onde se sentou à espera das sabedorias do universo na mesma tarde, onde passou horas sentindo o vento atravessar as colunas trabalhadas. E era agora lá, nesse mistério que o envolvia, que o ciclo encerrava-se. Não queria ele que acabasse, poderia continuar correndo com sua dançarina de pedra eternamente.

 

Até que o tempo parou, e nessa interseção das leis da física reparou no seu rosto moreno e largo, olhos negros e levemente puxados, típica beleza cambojana. Seu poder sobrenatural elevava cada sentido seu, o relógio do universo, que não mais contava segundos, dando-lhe a oportunidade de guardar cada detalhe do rosto dela em sua memória. Num singelo toque de lábios, um redemoinho de folhas os envolveu, rapidez e urgência separando o casal que jamais deveria ter se encontrado, até que...

 

Escuridão. Negrume absoluto, vazio.

 

Breu incorporava-se a cada átomo seu, talvez o preço a pagar pelo devaneio que mais parecia um borrão. Abriu os olhos pesados, sentiu o calor do sol no rosto, a sombra aos poucos dissipando-se. Confusão reinava, onde estava? Quem eram aquelas pessoas ao seu redor?

 

Aos poucos os vultos tomavam forma. Guilherme estava em Angkor Wat, seu corpo estatelado no chão duro, o sol alto no céu. Sua cabeça doía enquanto um guia falava uma língua que não entendia. Ou entendia, afinal? Não tinha ideia. Como havia parado no chão era um mistério completo. Tinha de fato caído, ou apenas adormecera sem que nada das coisas extraordinárias tivessem acontecido? Seu coração despedaçava-se, percebendo que estava de volta num mundo incoerente, mas sem incoerências mágicas.

 

Levantou-se com a ajuda de um guia, os curiosos se dispersando. Ainda tonto, subiu as escadas traiçoeiras, percebendo que não sentia dor, apenas... decepção intensa, perguntas que borbulhavam, cabeça desconexa. Engatinhando sobre os degraus, chegou ao ápice da mais alta torre, onde esteve na noite passada. Lá estava sua mochila, intacta. Passeou devagar pelos corredores, procurando sinais de que o devaneio fosse verdade. Se antes procurava respostas para sua crise de meia-idade, essa era uma completa nova exploração, e muito mais interessante. Como poderia reconstruir o quebra-cabeça do que vivera na noite passada?

 

A coluna que acariciou estava ali, palpitação no peito forte como um batuque a cada passo, cada suspiro. Procurando encontrá-la, tocou a coluna da mesma forma que na noite anterior, pousando sua mão delicadamente no mesmo lugar, seus olhos cerrados, concentrados. Desaparecera, toda aquela energia que atravessara a pedra até suas veias. Ainda apertando os olhos, procurava desesperadamente por qualquer sinal dela, mais uma entre as milhares de dançarinas entalhadas na rocha fria.

 

Abriu os olhos, dessa vez úmidos, até que... algo estava diferente. Onde estava ela? Percebeu que a coluna que antes servia-lhe de casa estava reta, sem qualquer escultura. Lisa. Olhando para trás, notou que um guia pergunta-se onde estavam as figuras de um painel, de repente desaparecidas mas sem qualquer sinal de roubo. Mistério, magia... onde estavam os personagens que habitaram seus desatinos?

 

Não está mais aqui, a dançarina, sussurrou Guilherme, seu coração a galope, sorriso esboçado. Engoliu em seco, olhando ao redor na expectativa de encontrá-la, procurando-a em cada rosto de mulher a passos cada vez mais largos e impacientes, sabendo que ela estava ali, à espera. Todo seu corpo pulsava em expectativa, até ouvir a melodiosa música que se aproximava, a mesma da noite cheia de mistérios, e ao se virar para o centro da torre lá estava a dançarina de pedra, beleza traduzida em traços humanos, ao seu alcance. Ao tocar as mãos delicadas, deixou-se levar por mais um redemoinho de enigmas, alegre de que sua busca pelo extraordinário apenas começava.