Alho nº 5

Choques culturais culinários: eu adoro alho, os alemães o odeiam. Tem como evitar o cheiro do melhor perfume da cozinha?

 Nunca minha cozinha presenciou tanta atividade como nessa pandemia. Para passar o tempo, eu aderi ao clichê de fazer o pão de cada dia, comecei a caprichar nos bolos que antes eram comprados em convenientes caixinhas (aqueles mesmo em que você só adiciona ovos e manteiga e coloca no forno) e também uns jantares mais incrementados. O consumo de ingredientes para tanta atividade gastronômica dobrou – cebolas, tomates, ervas e, é claro, o sagrado alho.

 

Pois bem, todo dia vem meu marido bisoiar o que teremos para o jantar, seguindo o cheirinho de alho até a cozinha. O aroma se espalha pelo apartamento com rapidez, visto que durante o inverno não dá para ficar com as janelas abertas.

 

- Hoje teremos alho com o quê? – meu marido pergunta quase todos os dias.

 

Como eu passo umas horinhas na cozinha, o cheiro de alho se impregna em todos os poros. Meu marido coloca o nariz no meu cangote feito um aspirador de pó.

 

- Adoro cheirinho de alho... – ele diz.

 

Eca, eu penso. Eu, cheirando a alho?

 

– É como Chanel nº 5... – completa o marido.

 

Me sinto aliviada com o comentário. Imagina se eu tivesse me casado com uma alemão? Provavelmente já teríamos assinado o divórcio.

 

Explico: o alemão tem pavor de alho. Principalmente as pessoas mais velhas, acostumadas ao duo porco e batata, fogem do alho como o diabo foge da cruz. Foram diversas situações – algumas divertidas, outras constrangedoras – que me mostraram que a condimentação de pratos salgados à base fazem pouquíssimo sucesso em terras teutônicas.

 

Demonstro: Há anos atrás, numa festa de empresa, cada pessoa deveria levar um pronto. Eu nem me lembro o que levei, mas me recordo muito bem da colega que trouxe o tzaziki, um aperitivo grego feito com iogurte gordo, pepino ralado, azeite de oliva, sal e, é claro, o temido Knoblauch. Meu chefinho, que sempre foi um cara meio metido a “cidadão global”, prontamente colocou essa mistura dos deuses num pedaço de pão. Ao colocar o tzaziki na boca, ele fez questão de tossir como se tivesse engasgado e depois soltar aquela pérola:

 

- Mein Gott, quanto alho!

 

A moça enrusbeceu e depois sussurrou: ué, mas a receita leva alho!

 

Você pode pensar que esse é um caso isolado, mas eu garanto que não é.

 

Evidencio: existem pílulas de alho vendidas na farmácia que garantem ao usuário benefícios como a melhoria da imunidade e redução da pressão arterial. Basta tomar um comprimido para usufruir dos inegáveis benefícios do alho sem, obviamente, o gosto e o cheiro que tanto incomoda o pessoal daqui. Alho nº 5 certamente não é apreciado pelas narinas locais.

 

Meu marido, que é coreano porém nasceu e cresceu na Alemanha, corrobora as evidências. Os coreanos são mega-utilizadores de alho. Aliás, a iguaria é consumida crua como entradinha, como um prato de batata-frita. Na grande maioria dos pratos, a comida será abençoada de sabores – e cheiros – fortes, o que os pobres narizes ocidentais não aguentam. Desde criança, ele ouvia dos amigos, vizinhos e tantos outros como a comida que ele tanto gostava fedia a alho (e chilli).

 

Tudo bem, isso já tem tempo. Hoje em dia os alemães comem curry indiano e enchilladas mexicanas, comidas tão apimentadas quanto. Felizmente, muitos germânicos, principalmente os mais jovens, começaram a expandir o paladar com a cozinha internacional (repita comigo: amém!).

 

Provavelmente mais algumas décadas serão necessárias para o alemão se acostumar com os alhos, chillis e currys da vida. Não precisam apreciar o perfumado Alho nº 5 na pele.... Só como um temperinho aqui e acolá já está de bom tamanho. Talvez depois dessa pandemia, pequenos milagres sejam possíveis.