A Máscara Caiu, Alemanha

A Alemanha gerenciou a primeira onda da pandemia com relativo sucesso. Já a segunda onda tem sido um desastre. Por que a máscara de um país organizado e regrado caiu por terra.

 No pico desse lockdown, nem parece que há meros meses atrás a Alemanha tinha gerenciado a pandemia de forma tão... como dizer... alemã. A Alemanha fez o que todos esperavam desse país rico, desenvolvido, organizado, detalhista. País de primeiro mundo! Aqui, no primeiro semestre, grande parte da população se uniu à meta de reduzir as infecções e mortes, a grande maioria ficou em casa mesmo que fosse cansativo, teve viagens canceladas e precisou gerenciar os estudos das crianças de casa. Mas pronto, apesar do estresse de ficar em casa, logo vimos os resultados: as infecções e as mortes diminuíram, a pandemia foi gerenciada com relativo sucesso bem em tempo de curtir o sol da primavera. Ufa!

 

Veio o verão e a normalidade começou a se embrenhar na rotina. Exceto pela utilização de máscaras e um certo distanciamento social, a vida voltou ao que era. Talvez até com mais ardor, visto que todos estavam com saudades de ir a um restaurante, de viajar e se encontrar com os amigos.

 

Setembro chegou e o povo começou a voltar das férias. As aulas começaram. Todos retornaram ao trabalho, mesmo que o medo de que o vírus retornasse. E retornou, com força dobrada.

 

Assim que o frio começou a soprar e as infecções começaram a subir, um lockdown light começou. As inconsistências eram tão profundas, a confusão tão grande que, invariavelmente, nos trouxeram para a situação crítica que vivemos agora.

 

Dou um exemplo: desde outubro, foram colocadas regras como o uso de máscaras em escolas. Até aí, tudo bem. Quando uma criança tinha o resultado positivo para o corona, a classe era mandada embora em quarentena. Mas os pais, por exemplo, não estavam de quarentena. Como no caso de meu filho, que precisou fazer o confinamento porque uma coleguinha testou positivo, mas eu poderia sair para jantar num restaurante ou voltar a trabalho do escritório. Faz sentido? Claro que não.

 

Foram muitas incoerências desse tipo com o objetivo de manter uma certa ordem sem perder popularidade. Afinal, quem quer tomar decisões difíceis e extremamente impopulares? Talvez só a Merkel, porque ela não tem mais nada a perder na política, já que não pretende concorrer a mais uma eleição. Essas políticas meeiras, todavia, apenas aceleraram a crise e fez com que a população desacreditasse nas medidas preventivas, o que gerou descontentamento, críticas e protestos.

 

Pois bem, desde outubro permanecemos nesse nem fode, nem sai de cima, com regras incoerentes e cada mais restritivas que, até agora, não adiantaram de nada. O confinamento entrou com mais força em dezembro, mas foi permitido que famílias se encontrassem para o Natal. De alguns amigos recebi fotos de famílias inteiras comemorando o feriado, como se tudo estivesse tranquilidade pura.

 

Não era permitido encontrar-se com muita gente, mas sair para esquiar tava tranquilo. As escolas estão fechadas, mas se você estiver muito estressado com seu filho em casa, até alguns dias atrás podia usar o Notbetreuung (tipo creche emergencial que estava aberta apenas para filhos de trabalhos de áreas essenciais no primeiro semestre). Home office, apesar de ter sido expandido por muitas empresas, não tem sido utilizado por muita gente. Quando saí de casa para ir ao médico, o que mais se via eram escritório com muita gente dentro e uma galera na rua. Uma agência de marketing perto da minha casa estava com o escritório cheio de gente na semana passada – e os funcionários não utilizavam máscara.

 

Não que seja culpa dos funcionários. O home office ainda é visto com muita desconfiança e empresas exigem a presença dos funcionários. Em diversos casos, empresas ignoram até sintomas dos trabalhadores, que se contaminam no escritório. Aliás, muitos conhecidos meus se contaminaram assim. Agora que empresas devem dar a opção do home office para empresas, muitas ameaçam despedir os funcionários que optarem trabalhar de casa. Foram diversos casos absurdos coletados nos últimos meses, como revelado aqui.

 

Cadê confinamento? Cadê solidariedade? Cadê coerência?

 

Com relação à vacina, a campanha de imunização se arrasta. Nem tudo é culpa do governo, pois as duas maiores empresas farmacêuticas, a Pfizer e a AstraZeneca, têm problemas de produção e atrasos na entrega de vacinas. Mas a logística made in Germany não ajuda. Por exemplo, na Alemanha foram apenas 230 mil pessoas que receberam a primeira e a segunda dose da vacina. Em Israel, com uma população nove vezes menor que a Alemanha, já aplicou as duas doses em mais de um milhão de pessoas. Veja a comparação aqui.

 

A cada dia que se passa, as pessoas começam a ficar mais nervosas, ansiosas, porque a tal luz no fim do túnel com a vacina está cada vez mais longe. Quando eu fiz uma simulação de quando receberíamos a vacina, eu receni dois resultados: o primeiro, de acordo com o plano inicial do governo, me deu a expectativa de ser vacinada em junho desse ano. Entretanto, de acordo com a velocidade do momento, a previsão era para maio de 2024. Isso mesmo, em 2024!

 

Nessa última semana, o governo alemão estendeu o confinamento para meados de fevereiro diante dos números que ainda não fizeram grande diferença. Os hospitais estão cheios, mas as pessoas continuam a burlar regras que, em certas ocasiões, continuam incoerentes. Especialistas dizem que ainda existem muitas exceções, como a questão de pessoas que podem fazer home office, mas são impedidas de fazê-lo por seus empregadores. Ou seja, até que ponto vamos insistir nesse lockdown marromeno que tranca uma parte da população em casa, como as crianças que não podem ir à escola, mas deixa que gente vá trabalhar num escritório como se tudo estivesse às mil maravilhas? Será que eu a exigência do uso das  máscaras FFP vai adiantar alguma coisa, ou será mais uma desculpa para que o povo continue circulando?

 

É claro, existem casos piores que os da Alemanha. Vejamos Estados Unidos, o Reino Unido, e é claro, o Brasil. Muitas infecções e mortes, e o vírus rolando solto porque é uma “gripezinha” e se tomar vacina vai virar “jacaré” (pois eu estou doida para virar jacaré o mais rápido possível). Mas a expectativa de que a Alemanha lide com o vírus de forma coerente é grande, porque a cultura alemã preza por organização, planejamento e respeito às regras. Infelizmente, estamos vendo inúmeros exemplos de que a malandragem está mais forte do que nunca por aqui, com pessoas comemorando não só o Natal (que no final das contas, pode não ter sido sábio, mas foi permitido), mas gente indo a aniversários, fazendo festas, burlando regras porque se acham especiais ou acreditem ser a exceção à regra.

 

Outro dia, um cliente meu de São Paulo me perguntou como estavam as coisas na Alemanha, dizendo que certamente estava todo mundo seguindo todas as regras, porque os alemães são assim, né, bem regradinhos. Não é bem assim, infelizmente. Para mim, a máscara do alemão organizado e regrado caiu por terra. Aliás, com quantas pessoas, alemães ou não, me surpreendi desde que essa pandemia assolou o mundo? Quanta gente que prega liberdade sem responsabilidade? Quanta gente que acha que as regras são para os outros, mas que eles, a exceção à regra, são especiais? Não é só no Brasil que está cheio de gente assim...

 

Mas também, diante de tantas regras incoerentes e insensatas, de tantas contradições e realmente exceções pregadas, é claro que as pessoas vão achar brechas, porque o que não falta é gente que realmente não consegue mais lidar com esse confinamento interminável. Seria preferível um lockdown mais severo para diminuir severamente o número de casos? Eu acredito que sim. Mas também acho que isso deveria ter sido feito lá em dezembro para cortar o mal pela raiz ou pelo menos controlar melhor. Mas agora? Estamos em confinamento desde meados de dezembro e ficaremos em casa até pelo menos meados de fevereiro. Pelo menos... Já ouvi especulações de que essa loucura vai continuar até a Páscoa. Ou quem sabe além, diante das mutações e dessa vacinação lenta.

 

Enquanto isso, a gente vai aos poucos perdendo a cabeça nessa prisão caseira, sem uma luz no fim do túnel. Pelo menos, eu penso, a Merkel foi sincera. Esse inverno vai ser duro. Está sendo muito duro. Isso não podemos negar: fomos avisados. Aliás, as notícias nos bombardeiam que o mundo está caindo, mas eventualmente, deixamos de ouvir. Não aguentamos mais. Nos acostumamos com o medo porque viver desse jeito, no isolamento sem esperança de que essa situação seja controlada, está muito difícil. E se está difícil para mim, que tenho casa e emprego, que tenho um filho só, imagina para quem perdeu o seu sustento ou alguém querido para esse vírus maldito.

 

A gente vai levando, porque não tem jeito. Mas para sairmos dessa situação, precisamos de menos atalhos e mais decisões difíceis. Não serão decisões populares. Mas se existe um aprendizado é que ninguém controla uma pandemia com meias medidas. E se nem a Alemanha, com sua riqueza e uma liderança forte, tem a capacidade de evitar os atalhos que nos colocaram nessa cilada, é desesperançoso pensar que talvez 2021 seja ainda pior que o ano anterior.