Aquele Abraço!

 

Minha maior saudade dos tempos pré-pandemia? O calor do abraço.

 

Nunca tanto senti falta de um abraço apertado como nesses tempos de isolamento. Antes de cumprimentarmos alguém, a gente agora passou a perguntar:

 

 

- Posso te abraçar?

 

 

Sem dúvida, nessa situação sem precedentes nós não mais podemos abraçar um ao outro espontaneamente. A gente pergunta se pode, se é permitido, e mesmo assim com aquela trepidação de que existe um risco de nos expormos ao coronavírus.

 

Diante de toda situação que esse vírus criou mundo afora, o fato de não abraçarmos ou beijarmos alguém pode parecer uma coisa fútil, desnecessária. Mas o ser humano é feito de afeto e histórias, de risadas e de toque. Como disse uma amiga querida há algumas semanas atrás quando perguntei como ela estava:

 

- Tudo bem – ela disse. – Mas a vida tá meio sem graça, né?

 

Não é só o abraço que ficou para trás nesses tempos pandêmicos. Foi-se o aperto de mão, substituído por um toque de cotovelo, vieram as máscaras que cobrem os sorrisos e embaçam os óculos, veio o ensino à distância e o trabalho através de vídeo conferência, veio o distanciamento muito mais do que dois metros. Quem diria que nós sentiríamos tanta falta de carinho, de abraço, de sorriso?

 

Nesse momento, deixamos o Carpe Diem de lado em função do futuro. Nosso lado racional diz que vai valer a pena todo esse sacrifício de isolamento, melancolia, ansiedade, monotonia... Tudo em prol de estarmos bem, saudáveis, com energia para a vida plena que nos aguarda. Também lembraremos dos momentos em família, de onde os abraços mais calorosos se encontram, e dos momentos especiais que passamos juntos.

 

Talvez o positivo dessa pandemia seja percebermos para quem nós queremos dar aquele abraço. É vermos quem é mais importante e próximo, quem a gente confia, quem a gente quer passar mais tempo junto. Aquele abraço para quem a gente ama de verdade, e não para qualquer zé mané do escritório ou para o conhecido que nunca dá as caras. A gente sabe quem se importa quando você vê uma mensagem com a simples pergunta “tudo bem?” e sabe que essa pessoa é digna do seu abraço.

 

Eu vejo agora a neve cair em mais um lockdown deprê que vai e volta há quase doze longos meses e tento, como tantas outras pessoas, me apegar no futuro. Esse novo amanhã certamente será diferente do que vivemos até agora... Algumas pessoas que se despediram da vida cedo demais e que não podemos dar um abraço de despedida. Aqueles que não são tão importantes assim vão sumir e os que realmente importam estarão mais presentes.

 

Enquanto isso, a gente vive através de mensagens de WhatsApp, inúmeras ligações no Zoom e mandamos abraços virtuais na esperança de que a gente possa cantar com Gilberto Gil:

 

Meu caminho pelo mundo

Eu mesmo traço

A Bahia já me deu

Régua e compasso

Quem sabe de mim sou eu

Aquele Abraço!

Pra você que me esqueceu

Rum!

Aquele Abraço!

Alô Rio de Janeiro

Aquele Abraço!

Todo o povo brasileiro

Aquele Abraço!

 

Quem sabe no dia 22 de maio, no dia do abraço, a gente possa celebrar dar uns apertos nos amigos e matar essa grande saudade.