10 Aprendizados Em Tempos de Pandemia

Não dá para evitar de escrever sobre os tempos do Corona Vírus e como essa crise impactou – e continua impactando – o mundo e a nossa forma de viver. Seja no Brasil, seja na Alemanha onde eu vivo, foram muitas as mudanças e percepções que esse vírus trouxe para a humanidade. Através do auto-isolamento e a quarentena, muitas questões têm vindo à tona, desde a óbvia importância de investir na saúde pública até o racismo e o aumento de home office forçado.

 

Essas últimas semanas eu tenho refletido a respeito dessas coisas e como elas podem se tornar aprendizados. Certamente ainda tem muita água para rolar...

 

1.  Os dois extremos estão em alta: solidariedade vs ganância

Para cada história de solidariedade que nós vemos – desde destilarias produzindo higienizador de mãos até a ajuda alemã para tratar doentes vindo da Itália, a crise mostra que a humanidade não perdeu o senso de solidariedade. Jovens ajudam idosos com as compras no interior de São Paulo até o aplicativo Tem Açúcar, que promove gestos de gentileza no compartilhamento de mantimentos para quem precisa. Eu poderia encher esse artigo de exemplos!

 

Entretanto, também vemos o contrário acontecendo com frequência. Pessoas que acumulam produtos essenciais sem pensar no próximo até grandes empresários que não estão nem aí para a saúde de seus funcionários, o que vemos é a manifestação de egoísmo e ganância exagerada.

 

A economia vai sofrer de qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde. Como disse o Bill Gates:

 

“O efeito econômico [da pandemia] é realmente dramático”, disse Gates. “Mas recuperar a economia é mais factível do que trazer as pessoas de volta à vida. Então, vamos lidar com a dor na dimensão econômica - muita dor - para minimizar a dor na dimensão de doenças e morte. (...) Realmente não há um meio termo, e é muito difícil dizer às pessoas: 'Ei, continue indo a restaurantes, vá comprar casas novas, ignore a pilha de corpos ali no canto. Queremos que você continue gastando, porque talvez haja um político que pense que o crescimento do PIB é tudo o que importa'”, disse Gates. “É muito irresponsável alguém sugerir que podemos ter o melhor dos dois mundos.”

 

É claro, existe um impacto enorme em pequenos e médios empresários que não tem como se proteger de uma quarentena longa. Mas para isso que existe governo, para injetar investimentos na economia e ajudar empresas de pequeno porte e o trabalhador. Vamos ao próximo ponto.

 

2. O papel do Estado

É para isso que pagamos imposto. Para que o Estado possa agir em favor de quem mais precisa em momentos de crise. Afinal, quando o bicho pega, a iniciativa privada tem só um objetivo: ganhar dinheiro.

 

Aqui na Alemanha, vemos isso no pacote bilionário para proteger trabalhadores e pequenas empresas. Vemos no foco na saúde e como a infraestrutura já existente está contribuindo para uma taxa de mortalidade aquém da Itália e de outros países com altas taxas de infecção.

 

Nessa hora de crise, não é hora de ouvirmos atitudes negacionistas como “eu não assumo a responsabilidade” como disse o Trump ou comparar o vírus com uma “gripezinha”. O papel do Estado é proteger seus cidadãos em sua integridade física e econômica. Então aquela tese de “Estado mínimo” cai por terra em momentos como esse.

 

O sistema de saúde, também papel do Estado, nunca teve tanta importância como agora. Cortar orçamento da saúde é decretar a morte de milhares de pessoas.

 

Todos os países terão suas economias impactadas com esse vírus. Governos precisam focar em proteger a saúde do povo sem que as pessoas passem fome. O dinheiro existe – basta alocá-lo com sabedoria e sem politicagem.

 

3. Nossas mãos estão em todo lugar

Há algumas semanas atrás, a gente não reparava em como nossas mãos tocam em superfícies sujas, quantas vezes tocamos o rosto com as mãos cheinhas de germes e até esquecíamos de lavar as mãos. Com esse vírus, nós nos tornamos o oposto: olhamos feio para quem tosse perto de nós, usamos luvas e máscaras em transporte público. A mania asiática de usar máscara não é mais esquisito para nós, não é mesmo?

É incrível também pensar em como muita gente não acreditava que o simples hábito de lavar as mãos pode literalmente salvar vidas. O contágio veloz através do toque vai mudar a forma como lidamos com a higiene. Será que não vamos mais apertar as mãos em cumprimento? Veremos como a humanidade vai internalizar esse aprendizado importante – e quem sabe passa a ser mais limpinho consigo e também com a natureza.

 

4. O medo nos torna racistas

É inegável que muitos de nós sentiram (e quem sabe ainda sentem?) certo ranço dos chineses. A forma como a China lidou com o vírus, principalmente no começo, foi um desastre. A questão de como o vírus veio a infectar tanta gente pode ainda não estar 100% explicado, mas a nossa percepção é que a China se tornou não só o centro de manufatura de iPhones, mas de vírus mortais também. E nós temos a tendência de nos tornarmos racistas nesse processo por conta do medo e da indignação que sentimos. Precisamos culpar alguém.

 

Não tiro a culpa do governo chinês de forma alguma. Também acredito que certos hábitos dos mercados chineses poderiam ser mais regularizados e banir certos produtos potencialmente perigosos. Existem muitas coisas que o governo chinês precisa fazer para limpar essa sujeira para proteger seus próprios cidadãos. Além disso, as teorias de conspiração de que a China produziu o vírus não têm embasamento científico.

 

Então, por mais que seja mais confortável culpar os chineses e odiá-los, pensemos que existem vários vírus no mundo, inclusive a epidemia de Zika que assolou o Brasil entre 2015-2016. Nós não gostaríamos de sofrer preconceito por causa disso, não é mesmo?

 

Portanto, precisamos que o governo chinês aja para evitar problemas desse tipo no futuro? Sim.

Precisamos odiar todos os chineses? Não. 

 

5. A arte salva

Como sobreviver as longas semanas de isolamento? A saúde mental precisa de arte. Seja através de um bom livro ou uma série na Netflix, ou música para assustar a inquietude de dias caseiros, é na arte que nos refugiamos. Na Itália, quem estava em quarentena se contentou com cantorias entre vizinhos. A arte salva e a arte une.

 

Para mim isso significa que esse período de quarentena a gente vai valorizar mais a arte em suas diversas formas. Para quem antes achava que cultura não vale de nada, tente passar semanas dentro de casa sem livros, música, filmes. É o que mantém a nossa sanidade!

 

Infelizmente, muitos artistas nesse período não têm como mostrar a sua arte para o público. Para o futuro próximo, lembre-se dos livros, das músicas e dos filmes que te ajudaram a passar o tempo nessa pandemia - e valorize a arte.

 

6. As profissões essenciais - e pouco valorizadas

É nesse momento que vemos as profissões ditas essenciais para termos acesso a alimentos e saúde. São os enfermeiros, médicos, caminhoneiros, caixas de supermercado, farmacêuticos e tantas outras profissões essenciais que fazem o mínimo continuar funcionando. E essas profissões permanecem invariavelmente desvalorizadas, com salários baixíssimos.

 

As profissões essenciais são aquelas que não dá para fazer home office. Que as pessoas precisam se deslocar para o trabalho e serem expostas ao vírus muito mais do que os privilegiados que podem ficar em casa. Para essas pessoas, o #FicaEmCasa ou #StayAtHome não existe.

 

Se aqui em Munique os enfermeiros estão se debandando para outros lugares porque o salário não é suficiente para viver, imagine em outros tantos lugares pelo mundo. Valorizar essas profissões virou, mais do que nunca, uma questão de sobrevivência.

 

7. Home office não é um bicho de sete cabeças

Por mais que muitas profissões não tenham a possibilidade de fazer home office, muitas profissões têm essa viabilidade. Ainda assim, o mundo corporativo continua torcendo o nariz para essa prática flexível. Mas agora não tem jeito. O home office se tornou a única possibilidade para muitos trabalhadores de manterem seus empregos – e a economia continuar girando.

 

Para empresas, isso significa investir em home office e criar práticas para tal. É uma questão de confiança? Com certeza. Mas não adianta ficar controlando que horas o funcionário entra e que horas ele sai – é a produtividade a coisa mais importante.

 

Num mundo cada vez mais conectado, o home office vai crescer e quem sabe, expandir para profissões que até agora têm sido feitas de forma essencialmente pessoal, como a medicina virtual.

 

8. A quarentena pode ser produtiva - ou não

É verdade que Isaac Newton escreveu a Teoria da Gravidade durante a quarentena da peste bubônica. Shakespeare escreveu Rei Lear numa situação parecida. Somos bombardeados com aquela pressão de que precisamos fazer alguma coisa. Afinal, estamos em casa e não estamos fazendo “nada”.

 

Podemos tentar fazer algo diferente que está pendente há muito tempo, desde projetos menos ambiciosos como arrumar aquele armário bagunçado ou adiantar o livro que não sai do lugar (euzinha). Mas o importante é não se sentir pressionado: de nada adianta se afundar em quinhentos projetos e se sentir ainda mais inquieto. Até porque muitos de nós estão em casa mas continuam trabalhando, e ainda por cima precisam ensinar o beabá aos pimpolhos.

 

Também existe o sentimento negativo diante dessas mudanças, uma forma de pesar. Como disse o especialista David Kessler numa estrevista para o Harvard Business Review:

 

“Sim, e estamos sentindo uma série de dores diferentes. Sentimos que o mundo mudou, e ele mudou. Sabemos que isso é temporário, e percebemos que as coisas serão diferentes. Assim como ir para o aeroporto se tornou para sempre diferente depois do 11 de setembro, as coisas vão mudar e esse é o ponto em que elas mudaram. A perda da normalidade; o medo do impacto econômico; a perda de conexão. Isso está nos atingindo e estamos sofrendo. Coletivamente. Não estamos acostumados a esse tipo de sofrimento coletivo no ar.”

 

Portanto, pegue leve. O importante agora é cuidar da saúde e da família.

 

9. Valorizar o que temos

Há algumas semanas atrás não imaginávamos que o restaurante da esquina estaria fechado por conta de uma pandemia. Nem que a polícia não te deixaria sentar no gramado do parque ou que seríamos forçados a ficar em casa. Não nos sentiríamos limitados a tomar ar fresco uma vez por dia. Não valorizávamos a liberdade de ir e vir, o contato social que perdemos ou a rotina agitada que reclamávamos com frequência. Não demos valor a essas coisas como se elas fossem a lei natural das coisas. Achamos que quarentena era coisa do tempo de Isaac Newton e Shakespeare. Que nada!

 

Esse baque no nosso estilo de vida trouxe incertezas, tristezas e como dito acima, uma espécie de pesar. Mas isso vai servir para nós valorizarmos as nossas relações com amigos e familiares, a saúde e a higiene que nem sempre colocamos como prioridade. Vamos olhar para trás e refletir nos aprendizados da humanidade e quem sabe, valorizarmos o que sempre esteve na nossa cara.

 

10. Não entrar em pânico

Todos esses aprendizados chegam ao principal: a nossa saúde - física e mental. Precisamos nos proteger assim como as pessoas de risco, precisamos evitar que o vírus circule com intensidade, mas precisamos cuidar para não entrar em pânico. A quarentena tem um efeito psicológico também e pode ter um efeito mais intenso em pessoas com casos de depressão, por exemplo.

 

Por isso, evitar o pânico é necessário. Em lugares onde ainda é permitido, uma caminhada ao dia já ajuda a combater o pânico e a depressão (com distanciamento social, please). Para aqueles que realmente ficam em casa 100% do tempo, é o ideal fazer alguma atividade física mesmo que dentro de casa, conversar com familiares e amigos ao telefone para combater a solidão e reduzir a leitura incessante sobre novos casos e mortes do Covid-19. A arte, como dita acima, ajuda a aliviar a tensão.


Vamos superar essa fase mais fortes e esses meses de quarentena servirão de muita reflexão do que é importante!