Quarenta na quarentena

Eu esperava 2020 com ansiedade para completar os meus quarenta anos. Nesse ano, o começo de uma nova década, eu tinha feito mil e um planos de viagens, passeios e comemorações. Quanta expectativa! Mas todas essas festividades precisarão esperar. As viagens planajedas precisaram ser canceladas. A quarentena do corona vírus viralizou – e agora cá estamos nós, dentro de casa.

 

Tá osso, essa coisa de quarentena. Reduzimos as saídas de casa ao mínimo para o supermercado ou a farmácia, ou no máximo um passeio pelo quarteirão. Trabalhamos de casa e procuramos ao mesmo tempo coordenar a escola caseira com o nosso filho. Não é fácil para ninguém.

 

Apesar de isolados, não estamos sozinhos nessa. Mas a ficha ainda não caiu para muita gente. Os mais jovens argumentam que não ficarão em casa por causa de uma “gripe”. Me pergunto o que aconteceu com esse povo jovem, cheio de intenções ambientais louváveis, mas que não conseguem ficar em casa para proteger seus próprios pais e avós.

 

Aqui na Alemanha, com as temperaturas aquecendo após os meses de inverno, as pessoas estão inquietas para sair de casa. É compreensível. Mas precisamos ficar em casa e fazer a nossa parte. É um sacrifício? Sim, é claro! Mas lavamos as nossas mãos na pia e no quesito não contaminar pessoas de alto risco.

 

É um saco ficar dentro de casa. Me sinto numa gaiola. Mas é também um luxo! Eu posso trabalhar de casa, meu marido também. E as pessoas que não podem? Penso nos milhões de brasileiros que dependem do comércio informal, nos empregados domésticos dispensados, nas pessoas que não têm opção a não ser sair de casa para sobreviver. Existe o egoísmo de gente que não pensa nas consequências, e existe gente que não tem opção. Penso muito nisso...

 

E também penso que nunca vi o mundo girar com as notícias de última hora do corona. Tudo gira em torno de um único assunto. Quantos infectados, quantos mortos, o que Trump fez, o que Bolsonaro falou, o distanciamento social, a obsessão por papel higiênico (ainda não compreendo isso!), a teimosia de gente que “acredita” e aqueles metidos a machões que acham tudo um exagero histérico ou uma conspiração chinesa para dominação global. Sei lá... acho melhor tirar o aplicativo do Facebook do meu telefone, porque essa tsunami de notícias não colabora para a minha saúde mental. E em tempos de quarentena, precisamos de sanidade. Se a gente fica ligado 24 horas por dia em cada noticiazinha envolvendo o corona, ficaremos loucos.

 

Até porque acho que já estamos enlouquecendo um pouquinho. Pensamos duas vezes se tocamos o carrinho do supermercado ou se apertamos a mão de alguém. Fui à farmácia essa semana e tossi um pouco (por conta da minha alergia ao pólen) e as pessoas me olhavam como se eu fosse o belzebu reencarnado. As pessoas saem de casa porque não acreditam na “histeria”, mas saem correndo quando alguém dá uma tossidinha a cinco metros de distância. Loucura, loucura, loucura.

 

O que essa fase de auto-isolamento traz de aprendizados? Além da importância da higiene e da nossa necessidade humana de contato social, penso na solidariedade que nem sempre transparece em momentos de crise. Por que as pessoas têm essa fixação com papel higiênico? Por que elas precisam estocar produtos por seis meses? Vai saber.

 

Penso na importância do Estado nesse momento. Aquelas pessoas ultra-capitalistas que acreditam piamente nas maravilhas da iniciativa privada estão caladinhas, porque estamos vendo em primeira mão a importância do poder público em evitar contaminações, em tratar os doentes, em aliviar o impacto financeiro na vida das pessoas. Penso na importância do SUS, que pode estar sucateado, mas é essencial para tratar a população. O que a iniciativa privada vai fazer? Usar o corona vírus para fazer dinheiro para uns poucos. Dou um exemplo: outro dia no meu trabalho tivemos uma discussão sobre usar esse tema para uma campanha de marketing porque, afinal, o assunto está nas alturas. É tendência nas redes sociais. Graças a Deus a gerência viu como seria de mau gosto e cínico fazer algo desse tipo.

 

Também penso no racismo que disparou com os chineses e asiáticos nesse quesito. Há algumas semanas atrás, quando o vírus começou a chegar na Europa, as pessoas começaram a evitar qualquer pessoa com olhos puxados. Quando meu marido (coreano) teve uma dor de garganta, seus colegas de trabalho entraram em pânico. Ele está fazendo home office há três semanas.

 

Quando o Trump se refere ao corona vírus, ele fala do “vírus chinês”. Alguns jornalistas perguntaram se não é racista falar do vírus dessa forma (o Trump, é claro, acha que não). É verdade, o vírus surgiu na China e tem se falado muito que o vírus vem do morcego, que se tornou iguaria no país. Algumas pessoas falam que nada mais é que um vírus criado em laboratório. O que não falta são teorias e ideias que dão fundamento ao racismo contra asiáticos pelo mundo. Sugiro a leitura desse artigo excelente sobre as origens do corona vírus aqui (fonte: Abril Saúde)

 

Por que eu digo isso? Porque muita gente fala dos hábitos “nojentos” dos chineses em relação à comida, como a tal sopa de morcego. Mas pensemos: nós brasileiros comemos muita coisa “nojenta”. Aqui na Alemanha, comer coração de galinha não é comum e é considerado esquisito. Já no Brasil, é normal. Na França come-se de tudo, inclusive queijos mofadinhos. Moral da história? Toda cultura tem hábitos considerados nojentos para pessoas fora da cultura em questão.

 

E também pensemos o seguinte: existem diversos vírus que vêm de lugares diferentes. O Ebola vem da África, e há alguns anos atrás tivemos uma epidemia de zika (lembram?). Ninguém gostaria de que o zika fosse denominado de “vírus brasileiro”. Nós também acharíamos preconceituoso.

 

Isso não quer dizer que eu não compartilhe da opinião que os chineses poderiam amenizar o impacto de certas doenças que se originam lá e viralizam pelo mundo. Eles poderiam ter prevenido todo esse auê se tivessem ouvido o médico que identificou o vírus, ao invés de puni-lo. Eles poderiam ter uma atitude menos invasiva para com a natureza (e isso também vale para o impacto na matança de bichos que são usados na medicina tradicional chinesa, como o rinoceronte). Enfim, os chineses poderiam ter feito mais para evitar essa situação. Mas também os governos e cidadãos de países impactos como a Itália, Alemanha, Estados Unidos e outros poderiam ter feito mais. Até porque os efeitos em Wuhan foram divulgados pelo mundo e, mesmo assim, não levamos nada disso a sério.

 

Ou seja, vamos precisar segurar nossos impulsos sociais por mais um tempo e ficarmos em casa. Precisaremos ter paciência e compreensão com nossos familiares. Precisaremos demonstrar solidariedade com as pessoas de risco e com quem precisa de ajuda. E precisaremos cuidar da nossa saúde mental. Não entremos em pânico! Vamos cantar de nossas varandas como os italianos e sair dessa crise mais fortes e solidários.

 

E depois podemos comemorar a saúde e o amor uns pelos outros, que é mais importante. Fiquemos bem, fiquemos positivos, fiquemos juntos (se puder, fique em casa, tá?). #TamoJunto