Conjugando o verbo quarentar

Já tem tempo que sofro por antecipação com a chegada dos meus quarenta anos. Por um lado, sinto imensa gratidão de ter chegado na maturidade inteirona. Por outro, quando se alcança uma idade que termina em zero – seja lá qual for – há uma tendência de questionar se as decisões do passado foram acertadas, sentir arrependimento com relação à certas coisas e, é claro, o medo de envelhecer.

 

Quando a gente é mais jovem, subestimamos a tal “crise de meia idade”. A gente sofre quando completa 25, 30 ou 35 anos, mas ainda estamos vivenciando juventude em diversos sentidos. Mas os quarenta anos me parecem ter um peso diferente, assim como tornar-se cinquentão. Chegamos à maturidade.

 

As rugas aparecem, os filhos crescem, a menopausa começa a dar as caras... são muitas mudanças. E a forma mais explícita é quando vemos divórcios em série, gente comprando carrões, namorando gente vinte anos mais nova, excesso de botox, etc. Quantos casos vemos na mídia e nas nossas relações próximas que essa crise da meia-idade está vivinha da silva?

 

Outro dia, num jantar de aniversário de uma amiga, a conversa da vez foi os relacionamentos amorosos. Poucas estão felizes, algumas se separaram, uma arranjou um amante. Mas não é suspeito que, no pico dos quarenta, tanta gente queira resgatar a paixão que ficou para trás, o sentimento de aventura, o friozinho na barriga de começar de novo? Por outro lado, uma colega de trabalho, já passada dos quarenta, tenta desesperadamente engravidar, porque sabe que as chances de carregar um bebê estão se esvaindo dia após dia. Homens começam a anexar suas emoções em eletrônicos, carros, objetos caros. A lista é longa.

 

No meu caso, me pergunto se esse afã de ser escritora tem a ver com a necessidade de fazer algo novo e diferente. Será? Não sei, mas é possível.

 

Quarentar, cinquentar, sessentar... envelhecer não é fácil. O paradoxo de chegar à maturidade é que a gente se rebela contra “ser maduro” (no sentido da sociedade, eu interpreto como a capacidade de sossegar o facho), como se passássemos por uma segunda adolescência. Muitos querem reencontrar fagulhas de juventude, levantar a poeira (viva Ivete) e deixar um vida empoeirada para trás. Pessoas que já conquistaram muitas coisas, desde casamentos, filhos, casa própria, etc., sentem uma coceira para começar de novo.

 

“A crise de meia-idade é um clichê — até que você a tenha”, disse a jornalista americana chamada Sue Shellenbarger. Quando somos jovens, rolamos os olhos para os mais velhos, achando que essa crise não acontecerá conosco. Achamos tudo uma bobagem sem tamanho. Mas esse processo é inevitável – e pode ser saudável também.

 

O jeito é agarrar o meu quarentar con gusto. Certamente, mudanças virão, sejam físicas, sejam emocionais. Não estou preparada para isso; acho que ninguém está.

 

O quarentar pode descortinar a maturidade ou pode nos levar por caminhos considerados “imaturos” para a idade. É um tanto paradoxal, essa crise da meia idade. Cada caminho é diferente, e muita gente precisa passar por um terremoto para tomar as rédeas de suas próprias. Eu vejo certa insatisfação em certos aspectos da minha vida em que eu possa levantar a poeira, assim como há coisas que eu desejo manter. Mas não é fácil. Tem dias que você não sabe se seus desejos e anseios são reais, ou se estão diretamente vinculados a essa necessidade intrínseca de fazer algo diferente.

 

Nem tudo precisa começar do zero, mas desafios novos são bem-vindos e eu diria até que são necessários. Quando a gente se enraiza demais, se acomoda, é mais difícil tentar algo novo. Se reinventar é preciso!

 

O bom dos quarenta é esse equilíbrio entre a juventude e a maturidade. Me agrada ver que coisas que me deixavam chateada ou irritada no passado não me incomodam mais, que passei a valorizar momentos, que comecei uma carreira nova. Se impulsionada ou não pela minha crise de meia-idade, que interessa?

 

A insatisfação que sinto em alguns departamentos de minha vida podem se transformar em adubo para coisas positivas. Agradeço as bênçãos e rezo no caminho dos novos desafios – e sopro as velinhas dos meus quarenta anos.

 

PS - não sou eu na foto, mas bem que poderia ser :)