Ordem e progresso, um lema alemão

É inevitável. Quando cheguei na Alemanha, há quinze anos atrás, eu admirei a ordem de todas as coisas. O transporte público que chegava pontualmente, a cidade limpa, o silêncio dos domingos, as regrinhas... ah, como é diferente de tudo no Brasil! Ah, é possível ter um país cheio de ordem e progresso, realmente um lugar onde as coisas funcionam!

 

Essas foram maravilhosas primeiras impressões. E como todas as impressões, algumas delas ficaram mais fortes, outras foram sendo desmanteladas aos pouquinhos.

 

É verdade, existe uma cultura de ordem por todo país, apesar de não ser homogênea (os berlinenses que o digam).

 

As pessoas prezam a organização das coisas e veem em primeira mão os benefícios dessa ordem toda.

 

As regrinhas imperam em todos os departamentos da vida alemã, desde a separar o lixo e respeitar os dias e horários de silêncio como os domingos e feriados, até a atravessar a rua, fazer fila (apesar de existirem MUITOS espertinhos), etc.

 

É claro, existe caos, mas os alemães, desacostumados com a bagunça, logo se irritam e procuram formas de organizar tudo de novo. Existem casos que são, entretanto, difíceis de serem consertados. Tomemos o caso do Deutsche Bahn – a empresa (o monopólio, cof, cof) de trens alemães, que ultimamente têm sofrido com cancelamentos e atrasos constantes. Não importa que a qualidade em si não seja tão diferente dos trens de outros lugares do mundo! Os alemães estão acostumados com serviços que funcionam e quando algo não funciona... ave Maria, é como se estivéssemos assistindo Apocalypse Now.

 

Nos últimos tempos, sinto que a Alemanha perdeu um pouco do brilho ordeiro, o que pode ser visto de forma positiva e negativa. É claro, ninguém gosta de ter o trem cancelado, ainda mais depois de ter pago os olhos da cara por um tíquete, ninguém gosta de alguém tocando bateria às nove horas de domingo ou em ter serviços que não funcionam. Mas também acredito que essas dificuldades trazem os alemães para mais perto da realidade. Afinal, a vida não funciona como um reloginho suíço.

 

Mesmo com as dificuldades de hoje em dia, acredito que ordem é algo bem enraizado na cultura alemã, e isso pode ser visto em muitos lugares. O sistema escolar, apesar de não ser fácil de entender, tem um esquema todo por trás para dar às crianças diversos caminhos acadêmicos e profissionais desde cedo. Vá comprar um tíquete de metrô ou ônibus em qualquer cidade alemã e você verá diversas opções, como tíquete do dia, tíquete de três dias, tíquete de turista, etc.

 

Isso não quer dizer que esse sistema ordeiro será simples; por vezes, será o contrário. Porque os alemães querem tanto controlar todas as coisas que acabam criando mil e uma opções (de tíquetes de transporte, por exemplo) que acabam criando mais complexidade que simplicidade. Mas é a forma deles de antecipar necessidades distintas e poder organizar tudo – tin tin por tin tin.

 

Nem sempre para nós brazucas esse sistema será gentil. Se no começo ficamos maravilhados, teremos alguns percalços quando o nosso jeitinho brasileiro quiser atropelar as regras. Basta não concordarmos com alguma coisa para tentarmos dar uma reboladinha e encontrar um jeito alternativo para consertar os nossos problemas. Às vezes, pode funcionar. Mas nem sempre será o caso, e isso é uma fonte de frustração para aqueles que não largam o osso do jeitinho (porque o jeitinho está enraizado na gente, né?).

 

Como tudo na vida, a gente se acostuma com esse jeito ordeiro de ser (exceto em jogos de futebol e a noite de ano novo), e vai ajeitando uma coisa aqui, outra acolá, e quando vemos... nos tornamos tão ordeiros que quando retornamos para o Brasil sentimos falta do jeitinho alemão.

 

Não seria legal se pudéssemos unir o jeitinho brasileiro à ordem alemã? Aí sim teríamos um baita progresso!