Quinze anos depois

2020 será um ano filosófico para mim. É esse ano que eu completo quinze anos de Alemanha, quarenta anos de vida, dez anos de casamento. É, esse ano promete uns artigos mais reflexivos... estejam preparados!

 

Em 2005 eu cheguei em Munique com duas malas de 32 quilos cada e, sem noção de nada, arrastei minha bagagem até a casa de uma moça israelense que amava o Brasil e queria porque queria abrigar uma brasileira por algumas semanas. Bem, já que essa moça falava português muitíssimo bem, foi só quando me mudei para o alojamento no Olympiapark – a moradia dos atletas da Olimpíadas de 1972 – que eu comecei a ter uma melhor noção da vida (estudantil) em Munique.

Mas esse não era o meu primeiro contato com a Alemanha. Entre 2002 e 2003, fui estudar na Hochschule Bremen (Escola Técnica), no norte do país. Foi a primeira vez que vi neve, que saí do Brasil numa aventura, que experimentei amizades internacionais. O frio foi de lascar e a receptividade dos alemães não foi essas coisas todas; na época, continuava achando os alemães tão frios quanto o inverno.

 

Mesmo assim, quando a oportunidade de um estágio surgiu em Munique, eu deixei as experiências friorentas de Bremen para trás e vim para a capital bávara. Famosa pela Oktoberfest e “pertinho” da Itália, eu me animei com uma região da Alemanha onde supostamente os alemães são menos alemães. Realmente, são os bávaros, com um dialeto próprio que eu continuo sem compreender.

 

Muitas coisas aconteceram nesses anos, como para todas as pessoas. Trabalhei, casei, pari um filho, morei em Duesseldorf por quatro anos, viajei um bocado, decidi ser escritora, e aprendi um tantinho de alemão. Me alemanizei um pouco, confesso. Absorvi certos costumes e hoje, vendo o Brasil de longe, não mais consigo entender o país onde nasci e cresci.

 

Mas virei alemã? Me sinto em casa? Quero ficar na Alemanha para sempre?

 

Tantas perguntas... e nenhuma resposta concreta.

 

Apesar do processo inevitável de alemanização e quem sabe no futuro até pegue a cidadania alemã (nunca se sabe o dia de amanhã), sempre me senti uma estrangeira por aqui. Ser alemã no papel é diferente de ser alemã no coração, e apesar das muitas coisas positivas que a Alemanha me proporcionou, não acho que tenha me tornado uma alemã honorária. Mas eu não acho isso ruim.

 

Eu não me sinto em casa na Alemanha, mas eu vivo bem e me sinto confortável. Eu gosto de viver aqui, por agora. Mas isso não quer dizer que eu precise ficar aqui para todo sempre. Um dia, ainda quero voltar para o Brasil. Sonho em ficar velhinha na Chapada Diamantinha... sonhar não custa nada.

 

Nesses quinze anos, senti muitas contradições, experimentei grandes oportunidades e tive imensos aprendizados. Nem tudo deu certo, rolaram muitas lágrimas nesse caminho, mas assim é com todo mundo, expatriados ou não. Talvez o mais sinto falta são os familiares e as amizades; depois de tanto tempo, muitos desses relacionamentos que pareciam tão enraizados foram evaporando aos pouquinhos. A vida segue para mim e para eles, e a realidade é que não mais fazemos parte da rotina uns dos outros. Mas assim é a vida, são ganhos e perdas.

 

Quando paro para pensar, vejo que minha balança está pendendo para o lado positivo. Percebo que mesmo que tenha me alemanizado, que tenha aprendido coisas novas, essas experiências culturais só me agregam. Não preciso me sentir menos brasileira por causa disso, nem me obcecar com essa coisa de pertencer a um lugar. Eu aprendo uma coisa aqui, outra acolá, e vou agregando, evoluindo, somando. Não preciso ser só brasileira, só alemã; eu sou uma mistura bem arretada de tudo isso.

 

O coração não precisa estar dividido entre duas culturas, mas unido por elas. Assim, a gente aceita não só quem um dia fomos, mas a pessoa que nos tornamos.

 

Não disse que eu ia falar de coisas filosóficas? :)