Carga excessiva

O mundo ultraconectado de hoje diminui distâncias e facilita nossas vidas tremendamente. Também nos traz notícias, opiniões e fatos (e fake news) que correm pelo mundo com velocidade estrondosa. Hoje nós sabemos sobre o impeachment do Trump, as mensagens ecológicas da Greta, as maluquices do ditador norte-coreano Kim Jong-un, as tragédias dos milhões de refugiados, as queimadas na Amazônia e na Austrália.

 

Está tudo aí, tudo em tempo real, e por mais que passemos cada vez mais tempo no celular à procura das últimas notícias do mundo e dos amigos, nunca é tempo suficiente para estarmos a par de tudo.

 

 

Existe uma sobrecarga enorme que paira sobre todos nós nesse sentido. É muita coisa acontecendo, tanta mesmo, que temos a sensação de que os últimos anos têm sido piores, mais violentos e com mais tragédias. Qualquer notícia sobre um desaparecimento, assassinato, desastres naturais e tantas outras coisas se tornam um circo por uns cinco minutos, para depois esquecermos de tudo isso em função da próxima notícia.

 

Coisas muito relevantes aconteceram em 2019 (assim como em todos os anos). Dou como exemplo as queimadas da Amazônia, que causaram horror e disparates no Brasil e no mundo. Fui uma dessas pessoas, assim como milhões. Mas onde está o nosso choque com essa situação nesse começo de 2020? Todo o sentimento de frustração, raiva, choque, etc., se dissolveu com os próximos meses de notícias igualmente aterrorizantes. Nas redes sociais, muitos diziam “Pray for Amazonia” (rezem pela Amazônia), mas nós nos esquecemos dela. Continuamos a comer carne sem restrições, mesmo que seja essa uma das maiores causas do desmatamento da floresta.

 

Esse é apenas um caso de como vamos enterrando a nossa indignação até criarmos uma casca dura para todas as tragédias do mundo. Sentimos pena do refugiados que morreram no Mediterrâneo, das crianças migrantes que são colocadas em gaiolas nos Estados Unidos, das vítimas do terrorismo. Sentimos pena de quem é baleado na favela das nossas grandes cidades, da pobreza crescente, das crianças abandonadas. Mas a nossa carapaça está ficando dura demais para nos importarmos o suficiente para tomarmos uma atitude. Rezamos nas redes sociais com emojis de mãozinhas juntas e achamos que está de bom tamanho.

 

Paramos de nos indignar de verdade. Vemos tanta merda acontecendo pelo mundo, tanta tragédia que não temos como evitar, que nós nos contentamos a mandar uma oração do nosso sofá para as vítimas.

 

Pessoalmente, esse excesso de notícias é uma sobrecarga difícil de aguentar. Tem dias que eu não aguento mais saber a última estupidez do Trump e do seu equivalente brasileiro, e prefiro ver o que está acontecendo com Meghan e Harry. Tem dias que não dá mais para processar as podridões reveladas pela mídia, que vomita notícia atrás de notícia, porque afinal é notícia ruim que vende jornal.

 

Tem dias que eu preciso ser seletiva no que eu deixo entrar, porque senão vem uma letargia, uma impotência diante de tantas notícias negativas que correm o mundo... ver todo esse peso me faz sentir de mãos atadas.

 

E não é só isso: quantas vezes a gente se "indigna" com coisas irrelevantes, nos ofendendo por qualquer coisinha que aparece no Facebook? O que importa de Meghan e Harry deixaram a família real para trás ou o vestido horroroso da Jennifer Lopez no Globo de Ouro? 

 

Quem consegue lidar com toda essa carga excessiva de notícias? Quem consegue ainda se indignar com coisas que realmente importam a ponto de tomar uma atitude, de mudar um estilo de vida, de fazer a diferença?

 

Ação precisa de indignação. E não dá para nos indignarmos quando tragédia passa a ser uma notícia banal, como todas as outras.

 

Quando eu vejo histórias inspiradoras correndo o mundo de pessoas que tentam fazer a diferença, vejo que elas são focadas em um tema, que colocam suas forças em algo concreto para fazer a diferença. Quanto mais a gente se distrai com o circo da mídia dia após dia, fica difícil a cabeça focar em alguma coisa.

 

Nessa nova década que começa, eu sei que não posso botar o mundo de cabeça para baixo. Sei que meus recursos são limitados. Sei que não conseguirei me importar com todas as tragédias que ocorrem no mundo. Mas também sei que, se eu me livro da sobrecarga que esse mundo ultraconectado oferece de mão beijada, se eu consigo me focar em temas que realmente posso tomar uma atitude, posso fazer a diferença - mesmo que seja um pouquinho só.

 

Meu desejo para 2020? Não deixar minha casca endurecer ainda mais. Não me distrair com qualquer bobagem. Me indignar de verdade a ponto de fazer alguma coisa. O que não é dá é ficar de mãos atadas.