Paquera auf Deutsch

Era uma vez uma moça brasileira morando na Alemanha. Solteira, foi ela foi sacudir as cadeiras numa festa de aniversário, comemorada num bar latino. A noite, que é uma criança, tinha tudo para se tornar material de adulto. O espaço pequeno para dançar significava um esfrega-esfrega típico de Carnavais baianos, com corpos colados em ritmos de salsa e mambo. Flertes e paqueras rolavam, pedidos para dançar, olhares furtivos. Mas a moça, apesar de ter dançado com tantos rapazes e ter trocado olhares calientes com um alemão, não vingava na arte de ficar com ninguém. Cadê os beijos molhados carnavalescos, os amassos em algum cantinho escuro, os pedidos para o seu telefone?

 

Nadica de nada.

Depois de algumas horas suadas e no pico da madrugada, a moça decidiu que era hora se deixar a festa. Se despediu dos amigos, pegou seu casaco e se dirigia à porta até que... o rapaz que flertou com ela a noite inteira finalmente se aproximou.

 

- Você já vai embora? - perguntou o moço boa pinta.

 

- Sim, já está tarde... - olhando para o relógio marcando três da matina, a moça solitária respondeu, esperançosa de um convite para dançar, um drink, ou sei lá o quê.

 

Afinal, são muitas as opções do que um rapaz pode fazer quando está realmente interessado em alguém.

 

- Que pena – disse ele, com ar decepcionado. – Bem, tenha uma boa noite.

 

E assim o rapaz boa pinta deu um beijinho da rosto da moça, deu as costas e a deixou ir embora.

 

Realmente as coisas funcionam bem diferente por aqui, pensou a moça*.

 

*sim, eu sou a moça :)

 

*****

Muitos anos depois, lá vou eu para a festa de quarenta anos de uma amiga. Como qualquer idade redondinha no zero, o que a gente mais quer é se sentir jovem de novo. Para isso, nada melhor que cair na noite, dançar com músicas que nunca ouvimos na vida e fingir que estamos nos divertindo horrores. Assim fomos para uma boate remexer as cadeiras e tomar umas.

 

Seguimos o protocolo e fomos dançar, mas apesar de seguir as batidas das músicas, nós ficávamos a observar as pessoas. A grande maioria jovens, é claro, vestidos casualmente, dançando, se divertindo. Tudo parecia normal. Mas então notei: nossa, não tem ninguém se beijando, dando uns amassos. Depois de quinze anos a gente sabe que as paqueras e amassos são bem mais discretos na Alemanha, mas ainda assim eu me surpreendo com a falta de sex appeal na festa. Não que eu ache errado ou esquisito, não é isso. Mas é que eu, criada em Salvador na época de “É o Tchan”, noto a diferença.

 

- Nossa, não tem ninguém se pegando aqui na festa, já notou? – eu pergunto para uma das minhas amigas, casada com um alemão e filha de um alemão, mas carioca da gema.

 

- Pois é, minha filha. Aqui é outro nível. Nada daqueles beijos exagerados lá no Brasil... – ela responde com aquele olhar de como quem justifica a baixa taxa de natalidade da Alemanha.

 

Assenti com a cabeça, achando bacana que eu não precisasse me desvencilhar de algum safado ou dar um tapa numa mão boba. Mas também me lembrando de que, quando jovem e me sentindo perdidaça nessas bandas para arranjar um namorado, tudo o que eu queria era que o moço boa pinta não tivesse me dado um beijinho na bochecha e ido embora. Eu queria que ele pelo menos me convidasse para um drink, caramba!

 

*****

Mas a esperança é a última que morre! Sim, porque a Oktoberfest em Munique tem um certo jeitinho de jogar a timidez e a discrição lá nas cucuias, e mandar brasa no quesito safadeza. Bastam algumas cervejas para o alemão soltar a franga.

 

Todo ano eu e as amigas vamos para a Oktoberfest, geralmente na cara e na coragem (ou seja, sem reserva de mesa). Isso quer dizer que temos que jogar o nosso jeitinho e charminho brasileiros para conseguirmos um lugar que acomode umas dez meninas quarentonas que querem se sentir mais jovens. Gente, não é fácil, mas a gente consegue (quando a banda toca “Ai Se Eu Te Pego” do Michel Teló então, nem se fala!).

 

Foi numa dessas que conseguimos uma mesa junto com uns rapazes com cara de adolescente. Tudo o que esses meninos queriam era uma surubinha, e não importava com quem. Estavam chapados, e provavelmente não viam as nossas rugas nem as gordurinhas. Certamente queriam apenas um chamego vapt-vupt, provavelmente na Kotzhügel (colina do vômito nos arredores do festival), onde momentos nem um pouco dignos ocorrem. Um rapaz com cara de dezoito anos me encara, para então sussurrar no meu ouvido em inglês (achava ele que não falávamos alemão e não entendíamos as putarias trocadas com os camaradas):

 

- Wanna suck my dick? (tradução com palavras nem um pouco elegantes: você quer chupar o meu pau?)

 

- No, but thanks for asking (Não, eu disse, mas obrigada por perguntar) - falei com os olhos esbugalhados.

 

Outro começa a se enroscar com uma das meninas, que procura por alguma saída de um menino mais grudento que chiclete... o que não faltam são oportunidades de nos sentirmos jovens novamente, não é?

 

Quer saber? Prefiro me sentir uma velha coroca mesmo. Quando o alemão solta a franga, é melhor corrermos como o diabo corre da cruz, pelo menos na questão flerte. Acho que prefiro a timidez do rapaz boa pinta, hein?