Listas de países visitados: uma mania irresistível e... meio boboca

Se tem uma coisa que eu gosto de fazer na vida é viajar. Invariavelmente minhas postagens são sobre lugares incríveis que visitei ou que tenho vontade de visitar. Algumas pessoas me perguntam: quantos países você já visitou? Você tem um daqueles mapas na parede cheios de pins marcando os lugares onde você já esteve?

 

Realmente, um mapa na parede com pins mostrando lugares visitados não parece mau. De fato, há alguns anos atrás eu colocava no papel os países visitados, colocando o Vaticano no mesmo patamar que a Itália. Quando soube que iria para Mônaco há anos atrás para um evento, quase tive um treco de felicidade. Era mais um país na lista!

 

Mas perto de algumas pessoas, minha obsessão em acumular lugares era fichinha. Quantas vezes nós vemos por aí nas redes sociais:

 

Fulana já passou por todos os países do mundo

 

Sicrano rodou o mundo em menos de 80 dias

 

A história fantástica de beltrano em todos os continentes

 

Tá, mas quantas dessas histórias incluem pessoas que realmente se envolveram com a cultura local? Que não acumularam mais um país na lista porque estiveram na fronteira, com membros espalhados pelos países vizinhos? Quanta gente foi se deslocando para mini-países como Mônaco, Luxemburgo e Vaticano só para engordar a listinha? E principalmente, quantas vezes vemos aquele bando de turista chegar num monumento qualquer, tirar uma foto para o Instagram e zarpar fora?

 

Pode-se até acumular mais países na lista, mas isso é uma ilusão. É arranhar a superfície e nunca se dar ao trabalho e ao prazer de conhecer uma cultura diferente. E é mais um sintoma de uma sociedade que só quer viver de aparências e superficialidade.

 

Ainda mais nos dias de hoje, com a mania de contar vantagem no mundo virtual, vale tudo para mostrar o número de países visitados. Mas contar número de países em que se já pisou (mesmo que tenha sido uma escala num aeroporto) é tão ilusório como achar que ler um certo número de livros vai te fazer mais cult.

 

Acumular experiências 101

Apesar de muita gente ter sido contaminada com o vírus da lista de viagens, eu posso me diagnosticar como livre desse mal. Estou curada!

 

Meu objetivo hoje quando viajo não é acumular países, mas acumular experiências. De que me serve ter visitado Paris e colocado um check na França, se eu ainda não vi as plantações de lavanda na Provença ou as fortificações de Carcassone? De que adianta eu ter feito uma parada no aeroporto de Abu Dhabi e ter visto a cidade moderna do avião, se eu não tive a oportunidade de vivenciar o que a cidade pode oferecer? Ou se passei por um lugar e jamais ter trocado uma meia dúzia de palavras com os locais?

 

Outro dia uma conhecida viu uma foto minha em Estrasburgo, uma cidade que eu adoro na fronteira entre a França e a Alemanha, e disse:

 

- Você foi para Estrasburgo de novo?!?

 

Gente, eu adoro Estrasburgo. Poderia ter conhecido um lugar novo? Sim, mas eu queria ir pra Estrasburgo. Dá licença?

 

Listas de países visitados é uma das grandes balelas do mundo moderno. É uma ilusão. É história pra boi dormir.

 

Viajar é um privilégio que não pode ser desperdiçado. Isso não significa que após toda viagem você vai conhecer a cultura profundamente, que será um expert no país visitado. Não é isso. Mas é uma oportunidade de sairmos da nossa zona de conforto e vermos algo diferente. De que adianta sair do Brasil para visitar a Europa e querer comer feijão com arroz todo dia? De que adianta pagar mundos e fundos para ver outro continente e só tirar foto para Instagram?

 

Quando viajar, não pense em listinha de viagens. Deixa o Instagram pra lá, nem que seja por uns dias. Tome tempo para ver e sentir os lugares por onde você passa. Saia da sua zona de conforto e coma umas tripas francesas. Você pode até não ser matéria de revista, mas certamente terá visto e vivido muitas experiências inesquecíveis. Isso sim você pode colocar na sua lista!