O Caminho de Nietzsche, uma aventura pra lá de filosófica

Perto de Nice, na Riviera Francesa, o vilarejo medieval de Eze nos espera no topo de uma montanha, com suas alamedas pedregosas e provençais. Assim são os lugares mais pitorescos, não é verdade? No cume da rocha, com vistas magistrais do Mediterrâneo, estamos cheios de expectativas.

 

Assim pegamos o ônibus cheio para Èze e lá vimos alguns metros de casas antigas, ruelas estreitíssimas, alguns restaurantes e muitas galerias de arte. No topo do topo, o exótico jardim botânico com cactus de todas as espécies possíveis e imagináveis cortando as vistas do alto. 

 

Èze é charmosa, interessante e cult, e nós perdemos o fôlego diversas vezes com as vistas de cartão postal, assim como com a subida incessante.

 

Depois de fazer a compra inusitada de um quadro com girassóis que eu já imagino na minha sala, nós avistamos uma placa: The Nietzsche Path. O Caminho de Nietzsche, em homenagem a um dos grandes filósofos alemães do século XIX. Foi nesse caminho tortuoso que, diz a lenda, Nietzsche formulou a terceira parte de sua mais festejada obra: Assim Falou Zaratustra.

 

Ao ver a placa, meus olhos pidões observam meu marido, silenciosamente dizendo: esqueça o ônibus, vamos descer a trilha! Os primeiros passos parecem ser fáceis; são apenas degraus. Mas seriam mesmo degraus na descida inteira de uma elevação considerável (em torno de 700 metros)? Meu marido questiona a minha sanidade, principalmente porque lá estamos com nosso filho também. Mas nos olhos do pequeno eu vejo a sede de aventura. Está resolvido.

 

Disse Nietzsche, “Tudo morre, tudo floresce, o ciclo de existência se renova para sempre”. Assim, nós descemos sem pressa os degraus, maravilhados com a natureza exuberante ao nosso redor, com sombra e sol, em como essa trilha provavelmente não mudou tanto assim desde a época do grande filósofo. Mas eventualmente chegamos em partes mais traiçoeiras. Carregamos uma pintura, algumas mochilas e, de repente, uma criança mau humorada que perdeu a vontade de desbravar o desconhecido no meio do caminho.

 

Me pergunto de onde veio a inspiração de Nietzsche enquanto tento não cair nas pedras ligeiramente escorregadias, com o sol tinindo na minha cabeça. Aparentemente, durante a sua estadia em Eze, Nietzsche fazia esse mesmo caminho todos os dias; mas o filósofo era considerado meio esquisito, excêntrico. Um pouco maluco aos olhos da sociedade, mas talvez um dos homens mais lúcidos de seu tempo.

 

“Todos os verdadeiros grandiosos pensamentos são criados ao andar”, também disse Nietzsche, e portanto eu vou andando na busca por inspiração. Mas alguns momentos dramáticos e uma leve queda deixa meu filho à beira das lágrimas, e o arrependimento bate no coração de mãe. O que eu estava pensando ao resolver descer essa trilha? Não sou Nietzsche, e nem pretendo ser. Sou alguém simples queria apenas se deslumbrar com algo diferente. Com uma aventura!

 

Impressões de Èze, do jardim exótico e do começo do caminho de Nietzsche

 

- Mamãe, eu quero voltar – diz o rapazinho cansado.

 

- Mas voltar é subir, meu amor. É muito pior. Já estamos no meio do caminho. Te prometo dois sorvetes hoje se a gente conseguir terminar essa aventura. Combinado?

 

A filosofia tão sofisticada de Nietzsche se depara com a realidade e se desmancha com a promessa de dois sorvetes. É uma aventura, esse caminho filosófico!

 

Assim eu vejo a energia renovada e descemos, um pouco atrapalhados e cansados, os joelhos não mais tão jovens doendo, a fome apertando. Mas estamos chegando, vemos o trem lá embaixo, o mar azul está cada vez mais perto, as ruas se aproximam. Meu marido me observa divertido:

 

- Seu rosto está vermelho que nem um tomate – ele diz, tão romântico.

 

Está fazendo 30 graus, mas parece que o termômetro atingiu 50. Nós suamos em bicas, respiramos fundo, paramos para descansar, esquecemos de tirar fotos. Queremos apenas chegar, vibrando a cada passo, com meu filho gritando:

 

- Vou ganhar dois sorvetes hoje! Vou ganhar dois sorvetes hoje!

 

Ao chegarmos, suspiramos de alívio. Estamos cansados, estamos inteiros. Estamos vivos! Talvez não tenha sido uma decisão tão sábia descer a trilha, mas como valeu a pena. Cada dor nas juntas e a exaustão nos trouxeram uma lembrança inesquecível, disso eu tenho certeza. Ao pé do tão famoso caminho eu finalmente me lembro de tirar uma foto. Faço pose de Rocky, toda suada, acabada, mas com um sorriso no rosto. Conseguimos!

 

Uns minutos após a grande caminhada, meu filho lambe seu primeiro sorvete do dia satisfeito, e então diz:

 

- Que aventura, mamãe!

 

Uma aventura mesmo, que me fez pensar nos riscos, nas loucuras da vida para que a existência valha a pena. Talvez tenha sido a maior inspiração da nossa grande aventura, e um grande aprendizado. São as filosofias da vida.

 


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