Nice é uma festa. De luz!

Em seu livro Paris é uma Festa (A Moveable Feast), o grande Ernest Hemingway relata as suas vivências na capital francesa dos anos 20. A obra relata a rotina de escrever na cidade inspiradora, que atraía artistas de todos os cantos do mundo, com seus cafés, a notória boemia e, é claro, a festa contínua de Paris.

 

Mas existe um lugar além de Paris que também é uma grande festa, ainda no século XXI. Esse lugar encantador chama-se Nice, uma cidade que eu não imagina ser grandes coisas. Pensava que seria apenas o quartel-general para a minha estadia na Riviera Francesa que, certamente, incluiria Cannes, Saint Tropez e Mônaco.

 

A nossa chegada na cidade, através dos seus subúrbios, apertou meu coração como se perguntasse: Nice é isso? O GPS dizia que estávamos há cinco minutos do hotel, mas víamos apenas edifícios industriais e um rio que continha um fio de água. Isso não era um bom presságio para o meu primeiro verão na legendária Riviera Francesa... Mas seguimos as direções e adentramos ruas mais agradáveis aos olhos, com prédios elegantes e suas varandas elaboradas, plantas na janela, e aquele charme que os franceses espalham como os cheiros de um perfume Chanel.

 

Henri Matisse, um dos artistas mais prestigiados do século XX, enxergou a beleza de Nice através da luz. “Quando eu percebi que toda manhã eu veria essa luz novamente, eu não podia acreditar como eu tinha sorte.” De fato, a festa de Nice começa com a luz dourada que permeia a cidade, mas de longe não é a única coisa que faz desse lugar um refúgio de artistas, intelectuais e, é claro, turistas. Nice mistura o antigo e o novo sem medo de ser feliz.

 

Impressões da cidade antiga de Nice: colorida, agitada, musical, culinária e cheirosa (veja os sabonetes de Marselha!)

 

Assim que pisamos na Vieux Nice, a parte antiga da cidade, fomos transportados para a beleza redescoberta. Os prédios coloridos e próximos uns dos outros não impediam que a luz tão venerada por Matisse deixasse de percorrer as ruas estreitas. Fontes, palácios, esculturas e casas são uma mistura de Itália e França, coisas únicas de um lugar que está há cerca de trinta quilômetros da fronteira italiana. Assim como tantos lugares fronteiriços e estratégicos, Nice passou de mão em mão durante a sua longa história, sendo parte do reino de Piemonte-Sardenha até ser re-anexada pela França em 1860.

 

Ainda hoje rastros da influência italiana estão presentes por caminhos de Nice la belle (Nice a bela). Além da notável deferência ao grande herói da independência Giuseppe Garibaldi que – surpresa, surpresa – nasceu em Nice, com uma grande estátua e uma piazza em sua homenagem, a culinária de Nice é surpreendentemente abastecida de pizza e pasta. Para quem deseja uma experiência de bistrô como Paris provavelmente ficará decepcionado. Mas mesmo que a qualidade da culinária italianada deixe a desejar, pode-se sempre optar por frutos do mar alegremente cozinhados à moda provençal. Ostras e companhia são grandes amigos durante a estadia em Nice!

 

Mas o denominador comum está mais aparente na socca, uma panqueca feita de farinha de grão-de-bico, azeite e água. A irmã gêmea dessa delícia que nós tivemos a chance de provar no norte da Itália, a farinata, é a mesmíssima coisa, só que com recheios mais italianos, como o queijo gorgonzola. Et voilà, em Nice você vai saborear que fronteiras são mais líquidas do os mapas insistem.

 

A famosa socca de Nice, dentre outras delícias.

 

Apesar da viagem no tempo de Vieux Nice, a modernidade de sua arte transparece onde quer que olhemos. Esculturas em parques, fotografias em cercas, ambientes verdes inusitados, fontes modernosas. Ao subirmos o caminho para o castelo, vemos essa convergência de casas antigas e esculturas meio doidas, e o azul brilhante do Mediterrâneo nos convidando a dar um mergulho. E a luz... que luz!

 

As pessoas parecem estar de bem com a vida. Sabe aquele estereótipo do francês arrogante que temos? Não foi a minha experiência em Nice. É claro, uma ou outra pessoa rolou os olhos quando dissemos que o nosso francês é sofrível, nem todos os garçons vão te tratar bem. Mas diferentemente de Paris, eu colecionei muito Bonjour e alguns sorrisos. E também momentos positivamente chocantes, como quando um senhor deixou que meu filho acendesse a sua vela numa igreja e, num momento impetuoso, tascou um beijo na bochecha de meu filho. No meu choque – porque isso jamais, JAMAIS aconteceria na Alemanha – eu sussurrei um merci e fiquei torcendo silenciosamente para o homem não ser portador de herpes ou alguma outra doença esquisita. Simplesmente não consegui ficar chateada com o senhor que pagou pela vela e deixou meu filho acendê-la.

 

Há muito para ver perto de Nice e, é claro, nós partimos para vilarejos remotos, para as ruas chiques de Mônaco e a orla de Cannes. Fomos à praia pedregosa de Nice, e deixamos que as pedrinhas massageassem os nossos pés dolorosamente. Passamos pelo mercado vibrante da cidade, que acontece todas as manhãs, e estocamos grandes doses de lavanda seca, ervas da Provença e sabonetes artesanais de azeite, limão e sei lá do que mais (compramos vinte sabonetes). Tomamos sorvete de lavanda que é surpreendentemente delicioso e passeamos pela longa orla da cidade, nomeada de Promenada dos Ingleses. Vemos o improvável em ruínas antiquíssimas da cidade romana de Cemenelum (hoje no museu arqueológico no distrito de Cimiez) e na catedral ortodoxa russa (o czar Alexander II e a nobreza russa adorava a Riviera Francesa), que após uma longa disputa judicial, hoje pertence à Rússia.

 

Vistas para o Mediterrâneo, esculturas modernosas, ruínas romanas, arte de primeira (museus de Chagall e Matisse) e uma catedral ortodoxa russa. Nice é uma festa!

 

Ao pé do outono, a cidade ainda demonstra euforia e está cheia de gente, com um grande evento de triathlon (o Iron Man – não confundir com o filme da Marvel protagonizado pelo Robert Downey Jr.) lotando todos os poros com atletas suados e vestindo lycra 24 horas por dia. Já é hora de partirmos de qualquer forma, sabendo que uma Munique molhada de chuva nos aguarda. Como deixar essa luz que fez Matisse e tantos outros se apaixonarem por esse lugar? Não é fácil, parte o coração precisar dizer au revoir a essa cidade que é, realmente, uma festa. Mas certamente voltaremos para novamente dizer Bonjour, Nice la belle...

 


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