Sem Pressa

Apresso o passo e peço para o menino fazer o mesmo. Faço automaticamente, pois rapidez sempre foi uma qualidade minha, e talvez por isso tenha me adaptado tão bem por essas bandas germânicas. Aqui é o ritmo acelerado, lugar de gente apressada, impaciente. Eficiente.

 

Meu filho reclama que já está andando rápido. Mas ele tem o ritmo típico de criança; às vezes arrebenta numa corrida digna de uma maratona, para de repente frear o ritmo para admirar o canto de um passarinho. Seus olhos registram tudo novo nesse mundão de Deus; são as borboletas que bicam uma flor, um pato no rio, uma bicicleta diferente que atravessa a rua. Tudo é novidade, e tudo é interessante de olhar. E por que então ter pressa?

 

 Esqueci como andar devagar, sem pressa. A vida corre rápido, e a vida adulta é uma corrida contra o relógio. A sensação de que estou sempre atrasada, correndo, estressada. Até no supermercado as compras culminam no caixa que registra cada produto numa velocidade vertiginosa, enquanto você tenta desesperadamente empacotar tudo antes do próximo cliente. Assim é a vida aqui com a qual me acostumei. Mas também a vida em que eu mal reparo nos arredores por onde passo, pois o passo é acelerado. A cabeça pensa na próxima tarefa, no horário a ser cumprido. As flores do meu caminho ficam para o amanhã, que se transforma na semana que vem, que invariavelmente torna-se nunca.

 

Tem uma hora em que paro para pensar: qual o motivo da pressa? É verdade, sempre há muito a fazer, sempre existe uma tarefa, algo na lista para resolver. Mas tem dias que dá vontade de jogar tudo para o alto e andar devagar... e não fazer nada. Mas como é difícil ficar sem fazer nada – nada mesmo! – quando se está acostumado a sempre fazer alguma coisa.

 

A pressa é realmente inimiga da perfeição; eventualmente preciso de uma pausa para voltar a ser eu.

 

Num dia qualquer eu decido não lavar roupa, não fazer jantar. Decido deixar minha casa uma bagunça. Decido que quero passear sem agonia, sem horário, porque eu preciso ser criança de novo e admirar as flores que cresceram na minha varanda.

 

Porque pressa pode até te fazer produzir mais, mas não quer dizer que você vai aproveitar mais a vida. Porque a vida também precisa de tempo para ouvir os sons, saborear um sorvete, jogar pedrinhas no rio. Viver significa se permitir uma pausa, mesmo que as atribulações do dia a dia martelem, insistentes, por atenção. É incrível que precisemos de disciplina para não termos pressa.

 

Sei que amanhã tenho mais um dia repleto de responsabilidades e horários. Sei que a pressa será meu companheiro de todos os dias, e que às vezes vou precisar fazer um esforço tremendo para me lembrar que a pressa que realmente vale a pena é para brincar com meu filho, respirar o perfume da primavera, viajar em família, dar risadas com meus amigos, criar memórias e acumular experiências.

 

Talvez não seja a forma mais prática de viver, nem possível a todo momento. Mas a vida é curta e no turbilhão de tarefas da vida moderna, nós nos esquecemos disso.

 

Me lembro da famosa frase de José Saramago - “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo” – e penso como gostaria de achar esse equilíbrio. E acredito que a grande questão é ser apressada com as coisas que realmente importam. O problema de tantos ansiosos como eu é dar demasiada importância ao mundano. Sim, é preciso manter a casa limpa e arrumada, mas se um dia estiver bagunçada e empoeirada, que diferença vai fazer para mim daqui a cinco anos?

 

Assim eu deixo o dia da faxina de lado e levo meu menino para nadar no rio.

 


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