5 ilusões da vida na Europa

Há muitos anos atrás, virgem de ares europeus, eu fantasiava minha ida para Bremen, na Alemanha. Como seria morar no velho continente, conhecer lugares centenários, quiçá milenares, experimentar o frio pela primeira vez, falar numa nova língua, conhecer pessoas diferentes... com apenas uma ida para a Disney como viagem internacional, eu me deixava influenciar por filmes, livros e histórias de viajantes mais experientes do que eu, e nesse processo criava minhas ilusões do que seria viver na Europa.

 

Assim que pisei em solo estrangeiro, as fantasias na minha cabeça foram se desmantelando, conhecendo a verdadeira realidade que, raramente, tem algo a ver com o que a mídia nos apresenta.

 

 

Que ilusões são mais comuns quando pensamos na Europa? Conheça algumas fantasias eu tive – e que muitos ainda têm.

Ilusão 1: Ganha em euro? Virou o Tio Patinhas!

Essa é certamente a mais popular das ilusões. Não, meus queridos leitores, viver na Europa (ou nos States) não quer dizer que nossos bolsos estejam cheios da bufunfa. Além de pagarmos muitos impostos por aqui, lembre-se que nossas despesas são na mesma moeda. Pagamos o aluguel, a creche do filhote, o supermercado em... euros! Então não é porque o real está fraco no mercado internacional que de repente nós estamos fazendo a festa por aqui, e podemos levar milhões de presentes para familiares e amigos ao chegarmos no Brasil.

 

Ilusão 2: Os europeus são grosseiros

A forma como muitos europeus se expressam é geralmente mais direta que os brasileiros, mas isso não quer dizer que seja grosseria. É claro, tudo fica à margem de interpretação e situação. Existem europeus grosseiros? É claro, pois existe gente rude em qualquer lugar do mundo.

 

O que vemos muitas vezes aqui são clássicos exemplos de choque cultural. Enquanto muitos de nós brasileiros temos a tendência de dar voltas para expressar uma ideia, os europeus – como os alemães, por exemplo - são mais diretos.

 

Nós temos a tendência de interpretarmos essa comunicação direta como grosseria; mas será que é grosseria mesmo? Quando estamos no exterior, às vezes é preciso se descarregar das nossas expectativas brasileiras e procurar enxergar a cultura do país onde estamos.

 

Ilusão 3: Viver na Europa é puro glamour

Eu cresci com empregada em casa, que limpava, cozinhava, arrumava, passava roupa, etc. Nunca tive tanto bem-bom na vida como na casa de meus pais, onde eu não precisava me preocupar se minhas roupas estariam limpas, meu quarto arrumado, a comida posta na mesa. Além de empregada doméstica, lá ia eu todo sábado fazer as unhas na manicure, o carro na garagem estaria automaticamente limpo sem nenhuma preocupação, dentre outros luxos. 

 

Ainda no Brasil, eu não parava para pensar que na Europa essa mordomia de ter empregada doméstica, manicure, lavador de carros, frentista, carpinteiro, babá, enfim todas essas pessoas que dão duro para que você não precise fazer muita coisa. Mas os que se acostumaram a esse sistema, como eu, meus pais, e muitas outras pessoas, não veem que na Europa isso é uma mordomia que a grande maioria não pode pagar. Aliás, são coisas de gente muito rica - e olhe lá. Mas talvez porque as pessoas achem que quem vive na Europa é rico, nadando em grana, então que podemos pagar pelas mesmas mordomias que temos acesso no Brasil.

 

Há algum tempo atrás, quando eu estava enormemente grávida, minha mãe veio me dar uma ajuda extra em casa. Quando ela chegou, logo me recriminou que eu não limpava a casa todos os dias, que eu não passava as camisas do meu marido (ai, coitado!), dentre outras coisas. É claro, eu não contava com empregada doméstica, nem mesmo uma diarista. Trabalhando e super grávida, eu não limpava minha casa todos os dias. Mas na realidade de minha mãe, que tinha casa limpinha e arrumada todos os dias – por uma empregada, é claro – não ver a minha casa limpa todos os dias era algo inimaginável.

 

Morando aqui há muitos anos, já tive diaristas, mas ultimamente tenho feito a minha faxina, as minhas unhas, a comida de todos os dias, lavo roupa, cuido de criança, enfim. Eu e meu marido fazemos tudo. Não há muita mordomia aqui – pelo menos não do jeito que o pessoal de classe média no Brasil conhece. Aqui o lema é “faça você mesmo”, o que eu aprendi a gostar. Afinal, é botando a mão na massa que damos mais valor ao nosso tempo, às nossas coisas, ao nosso dinheiro e, principalmente, ao valoroso trabalho de pessoas como empregadas domésticas, babás, etc.

 

O verdadeiro luxo de viver na Europa para mim não é ter quem limpe o meu banheiro, mas está na qualidade de vida. Isso sim é luxo!

 

Ilusão 4: Frio é elegantérrimo

 Ai gente, mas não é mesmo! Quantos de nós vimos filmes com a neve caindo e as pessoas passeando com seus casacos maravilhosos, chapéus, gorros e cachecóis chiquérrimos? Me lembro de ver um dos filmes de Sex and the City, e uma cena ficou na minha cabeça: as quatro amigas passeando por Nova Iorque numa nevasca com saltos altíssimos. Essa não é a realidade dos meros mortais, que buscam meios mais confortáveis – e inteligentes – para sobreviver o frio e a neve.

 

A verdade verdadeira é que muita gente não lava os casacos durante o inverno inteirinho, espalhando odores desagradáveis em locais públicos. Vale lembrar que, para combater o frio, usamos meiões por baixo das calças, que eu garanto, não são nem um pouco sexy. Sapatos são geralmente sem salto, com sola bem grossa, para evitar patinações no gelo indesejadas. Saltos altos numa nevasca? Nem pensar!

 

É claro, é possível manter a elegância durante todo inverno, mas prepare o bolso: roupas, sapatos e acessórios de inverno são de arrombar qualquer orçamento.

 

Ilusão 5: Reveillon na Europa é o máximo

 Faz-me rir: reveillon na Europa não é nada demais. É frio, com poucas opções, geralmente caríssimas, e fogos de artifício tímidos. Quando lembro na minha juventude que eu estaria disposta a trocar meus pulos nas ondas com a chegada da meia-noite por um aperto na multidão num lugar congelante, eu tenho arrepios. Aliás, aqui em Munique os fogos de artifício são manuseados por qualquer zé mané trêbado, cuja falta de cuidado pode te queimar no processo (uma vez, grávida, quase fui atingida por um foguetinho perdido).

 

Há muitos anos atrás, passando o Reveillon em Londres, pagamos uma nota num restaurante marromeno e depois fomos assistir aos fogos às margens do Rio Tâmisa. A multidão era tanta que mal vimos qualquer coisa.

 

Meu conselho: se quiser vir para a Europa no inverno, venha para ver o Natal, que é mágico por essas bandas, e retorne para o calorzinho brasileiro no Reveillon. Melhor combinação não há!

 


Gostou do artigo? Siga a Baiana da Baviera