Vale a pena usar de novo

Uma das minhas primeiras experiências na Alemanha foi passar no Flohmarkt – carinhosamente traduzido para “mercado das pulgas” – em busca de itens para decorar a minha simplória morada de estudante. Eu nem sabia o que poderia encontrar em tal mercado...

 

A verdade é que você pode encontrar tudo e mais um pouco! Por muitos motivos, visitar um Flohmarkt foi uma grande novidade – e se tornou especial por ser não só uma forma de me “livrar” do que não mais preciso, como se encontrar produtos que me são úteis sem gastar rios de dinheiro.

 

 

Nesse passeio em pleno inverno eu comprei um sapatinho de holandesa para decoração por apenas dois euros, sem muita noção da economia alternativa de produtos usados. Naquela época, no começo dos anos 2000, eu não via muita atividade de produtos usados no Brasil. Quando tínhamos roupas ou objetos que não mais queríamos, fazíamos uma doação para algum conhecido ou instituição de caridade. Eventos para vender peças usadas? Jamais!

 

Desde então a coisa mudou de figura em diversos países com o uso de tecnologia, como o eBay, diversos aplicativos que evangelizam o desapego e o Facebook, que vem melhorando o serviço com o “marketplace”. Hoje é bem mais fácil fazer uma limpa em casa e ainda por cima ganhar uma graninha: basta clicar uma foto, descrever o produto, distribuir em grupos de compra e venda, e pimba! Produto vendido.

 

Além da praticidade e a reciclagem de produtos – algo muito bem vindo num mundo consumista e altamente produtor de lixo – tem algo mais nessa cultura do Flohmarkt analógico, daquele em que nós precorremos corredores em busca de pechinchas. Em Munique existem mercadinhos imensos no qual dezenas, centenas de pessoas se aglomeram para vender o que não mais precisam. Descobrir peças raras é uma aventura, como uma caça ao tesouro. Às vezes você planeja ir ao Flohmarkt com um objetivo, como comprar roupas de bebê, e acaba saindo com uma antiguidade qualquer que pertenceu ao tataravô do vendedor.

 

Impressões de um Flohmarkt em Munique. 

 

Existem mercadinhos para todos os gostos: roupas, livros, antiguidades, música, roupas e brinquedos para bebês e crianças, sapatos, itens de cozinha. Basta ir com uns trocados no bolso e a cabeça aberta para encontrar o que se precisa – e o que você nem imaginava encontrar. Outro dia, comprei uma Polaroid por dois euros num Flohmarkt e fiquei feliz da vida com o achado. Também vendi diversos itens num Hofflohmarkt (mercado de pátio, quando as pessoas fazem o Flohmarkt no jardim ou na garagem) e tive a oportunidade de conhecer novas pessoas e novas histórias.

 

O que não faltam são opções de Flohmarkt na Alemanha – e na Europa. Quando morava em Düsseldorf, todos os anos a prefeitura organizava um mercado de livros usados às margens do rio Reno, o Büchermeile (Milhas de Livros). Em Estrasburgo, na França, passamos por um brechó de antiguidades e móveis de outros tempos. Munique também entra nessa onda com mercados para todos os gostos, inclusive com o Nachtflohmarkt que acontece durante a noite, com direito à música e comidas bacanas em food trucks.

 

Não só de mercados assim vive essa economia alternativa. Existem diversos brechós (conhecidos como “second hand” ou segunda mão) que estão sempre abertos e, para quem quer se desapegar sem precisar vender, opções de doação para projetos como o Weisser Rabe que usam a receita dos produtos vendidos para investimentos sociais.

 

Para quem pensa que comprar ou vender itens no Flohmarkt é só para quem está precisando de dinheiro, engana-se. Não é só uma questão de praticidade; é uma cultura que valoriza a reciclagem de itens e faz disso uma diversão. Gente de todo tipo participa, comprando, vendendo e se divertindo. Afinal, quando vale a pena usar de novo, por que jogar fora?

 

Mesmo em tempos digitais e a praticidade de vender produtos no mundo virtual, pelo menos na Alemanha os mercados da pulga só fazem crescer. É uma tendência bem-vinda num mundo de pessoas ocupadas, e que ainda assim tomam tempo para fazer parte de um Flohmarkt. Apenas torço que os mercados de pulga se alastrem pelo mundo para o bem do nosso bolso e da natureza.