A diferença está na escolha

Há algumas semanas atrás uma adolescente de quinze anos veio estagiar na empresa em que trabalho em Munique. Um programa da escola, ela foi estagiar por uma semana apenas para ter uma noção de como o ambiente empresarial funciona. Após a experiência, a moça voltaria para os seus estudos, e quem sabe arranjaria um bico durante o verão para uma graninha extra.

 

Essa é a realidade mais pertinente dos jovens alemães quando o tema é trabalho. Para mim não foi surpresa alguma que os jovens dediquem-se prioritariamente aos estudos, com um mero gostinho de um emprego. Existem casos similares de jovens que, na impaciência para ser independente – até certo ponto – trabalham.

 

Mas não é algo que possam fazer livremente; em teoria, assim como no Brasil, na Alemanha o trabalho infantil é proibido, com algumas exceções, como o trabalho artístico (para TV, por exemplo) ou ajuda dos negócios da família. Mas ainda assim existem diversas regras; por exemplo, uma criança com menos de 6 anos podem trabalhar em apresentações artísticas até duas horas por dia*. A prioridade é, como deve ser, os estudos. São raros os casos por aqui em que crianças ou jovens precisam trabalhar para sobreviver ou ajudar no sustento de casa – mesmo que na Alemanha haja um crescimento no nível da pobreza.

 

A realidade de uma nação majoritariamente rica como a Alemanha é distinta do Brasil, onde crianças trabalham para sobreviver. Na opinião infeliz do nosso atual presidente de que “o trabalho dignifica o homem e a mulher, não interessa a idade” e que "não foi prejudicado em nada" por ter colhido milho aos "nove, dez anos de idade" em uma fazenda de São Paulo, abre uma ferida que nunca cicatrizou no Brasil.

 

Pode ser que o trabalho dignifica o homem ou a mulher, e que muitos jovens brasileiros ou de qualquer nacionalidade possam ganhar certas doses de independência e experiência relativamente cedo. A diferença, entretanto, está na escolha. As crianças ou adolescentes que trabalham no meio artístico, por exemplo, são em sua maioria impulsionadas por seus talentos – e suas próprias decisões, com o aval da família. Uma criança que passa o dia descascando mandioca não tem escolha sobre esse destino; ela o faz para sobreviver.

 

Cinquenta tons de diferença

É preciso diferenciar a questão do trabalho infantil com mais clareza. Após as declarações de Jair Bolsonaro, algumas pessoas compartilharam suas experiências de “trabalho infantil”. A grande maioria relata casos dos típicos empreendedorismos da tenra idade: levar brigadeiros para vender na escola, ajudar na loja da família, fazer bicos. Mas esses são exemplos de pessoas que não precisavam trabalhar para colocar comida da mesa. Existe um elemento de escolha em trabalhar como forma de aprendizado sem que prejudique os estudos ou a vivência da infância, e trabalhar porque se precisa.

 

O trabalho infantil é uma das questões sociais mais arraigadas no Brasil, que leva 2,7 milhões de jovens entre 5 e 17 anos de idade trabalham no país, sendo 79 mil crianças de 5 a 9 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  A lei estabelece a idade mínima de 16 anos para o ingresso no mercado de trabalho e 14 para trabalhar na condição de aprendiz.

 

A pobreza é o principal fator para tantas crianças trabalharem para ajudar no orçamento familiar e, como a pobreza sempre existiu e continua crescendo no nosso país, essa é uma realidade que se tornou normal, principalmente em regiões como o Norte e Nordeste. Ver crianças trabalhando hoje em dia não é chocante; virou banal.

 

No final das contas, a questão é: trabalha-se como escolha ou como sobrevivência? A criança em questão tem acesso a direitos básicos, como escola e alimento? Bom senso é preciso numa discussão como essas! Existem muitos tons de trabalho infantil, e simplesmente não podemos comparar uma criança que vende limonada na rua como diversão de outra que faz colheitas em grandes plantações.

 

Na verdade, eu nem gosto de admitir que o trabalho “dignifica o homem”. É algo que me lembra muito do slogan dos campos de concentração nos campos nazistas – “Arbeit macht frei” (trabalho liberta). Não digo isso para comparar o Bolsonaro a Hitler (não, não é a minha intenção). Mas falar que trabalho dignifica ou liberta é algo ambíguo e que já foi usado como algo positivo para justificar o injustificável. Afinal, trabalho escravo ou infantil não dignifica nem liberta ninguém; apenas beneficia o patrão.

 

O trabalho é importante, com certeza. Se um jovem escolher trabalhar porque deseja acumular experiências e entender o valor do dinheiro - vá em frente! Mas não comparemos essa escolha com o trabalho infantil que nega a infância de tantas crianças com trabalhos pesados em função da sobrevivência.

 

Independentemente do partido e de quem votamos, que possamos escolher a clareza de pensamento e o bom senso, para o bem do nosso país.  
 


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