A Munique Nazista - O Guia Completo

À primeira vista, Munique pode parecer uma cidade feliz, estável, sem grandes altos e baixos. Mas nós sabemos que a cidade teve momentos negros num passado que de estável nada teve, principalmente com o advento do Partido Nazista. Munique foi, sem mais nem menos, a Hauptstadt der Bewegung ou Capital do Movimento (Nazista).

 

Uma das cidades principais do movimento nazista, lugares que hoje parecem inocentes tem conexões com esse passado perturbador, desde a alegre cervejaria Hofbräuhaus até a magnífica câmara municipal antiga. Eis um guia dos lugares mais significativos da Munique Nazista para você descobrir - e ver como é importante manter a memória viva para que movimentos como o nazismo e fascismo não mais se repitam na Alemanha e no mundo. 

 

Hofbräuhaus am Platzl: a cervejaria onde tudo começou

A cervejaria mais conhecida (e turística) de Munique é um daqueles lugares em você só vê risadas, alegria e cantoria. Mas foi nesse lugar, a Hofbräuhaus am Platzl, um dos primeiros lugares de encontro de Hitler e seus partidários, onde o álcool inflamava suas opiniões equivocadas.

 

Você ainda pode visitar esta cervejaria hoje, cuja  atmosfera amigável você normalmente não associaria a um ditador. Outro salão de cerveja, o Bürgerbräukeller, foi o local de "The Beer Hall Putsch", uma tentativa inicial malsucedida de tomar o poder. Depois de deixar a cervejaria em estado de embriaguez, um grupo de simpatizantes de Hitler tentou invadir o Ministério da Defesa da Baviera.

 

Antiga Prefeitura (Altes Rathaus)

A Antiga Prefeitura de Munique é um dos edifícios mais impressionantes do centro da cidade e, infelizmente, desempenhou um papel importante na tomada de poder pelos nazistas. Este é o lugar onde Joseph Goebbels fez o discurso que inspirou a Kristallnacht em 9 de novembro de 1938. Um pogrom contra os judeus em toda a Alemanha, a Kristallnacht levou à destruição de muitos negócios de propriedade de judeus e à prisão de milhares de cidadãos judeus. A Kristallnacht, ou “a noite dos cristais”, é geralmente considerada o começo do Holocausto.

 

Prinzregentenplatz: o endereço de Hitler

De 1929 a 1945, Hitler viveu periodicamente na Prinzregentenplatz 16. Hoje, o prédio é uma delegacia, por isso não é aberto para passeios, mas a fachada é muito parecida com a que costumava ser.

 

Feldherrnhalle e Viscardigasse

Construído pelo rei Ludwig I no século XIX, o Feldherrnhalle na Odeonsplatz como tributo ao exército bávaro. O monumento imponente é inspirado no Loggia dei Lanzi de Florença.

 

Em 9 de novembro de 1923, o Feldherrnhalle foi o local onde a tentativa de golpe de Hitler foi derrotada, fazendo com que o salão se tornasse um destino icônico para os nacional-socialistas e uma ferramenta de propaganda para o partido. Quando ele assumiu o poder, Hitler tinha uma enorme placa de bronze instalada, contendo uma suástica para os "mártires do movimento" e a frase "Und ihr habt doch gesiegt!" ("E você venceu afinal de contas!").

 

Uma guarda de honra da SS observava o memorial em todos os momentos. As pessoas só podiam passar se fizessem um “Deutsche Gruß” (saudação nazista). Para evitar esse ritual, muitos moradores faziam um desvio por Viscardigasse, atrás do Feldherrnhalle, o que levou ao beco-apelidado de “Drückebergergasserl” (literalmente “Beco do Desertor”).

 

Hoje, o pequeno beco é uma passarela apenas para pedestres com uma trilha sinuosa de tijolos de pavimentação dourada comemorando os bravos alemães que se recusaram a dar a Hitler a satisfação de uma saudação.

 

Praça das Vítimas do Nacional Socialismo

Na Brienner Straße, perto da Odeonsplatz, fica a Platz für die Opfer des Nationalsozialismus (Praça das Vítimas do Nacional Socialismo).

 

Entre a Odeonsplatz e a Königsplatz, dois pontos de idolatração nazista, havia o Palácio Wittelsbach (destruído durante a Segunda Guerra Mundial), onde a Gestapo tinha sua sede no Terceiro Reich e também operava uma prisão de tortura. Em 1946, as autoridades resolveram renomear o lugar no "lugar das vítimas do socialismo nacional", que inicialmente fora fonte de grande descontentamento entre os moradores de Munique e até resultou na destruição da placa de rua. Em 1985 o memorial às vítimas da violência nazista foi revelado, apresentando uma chama eterna em uma gaiola, e reconstruído em 2014.

 

Haus der Kunst

Créditos da foto: Turbopass

 

A "Casa da Arte Alemã" foi o primeiro projeto monumental da Alemanha nazista. Foi projetado pelo arquiteto Paul Ludwig Troost, que não viveu para ver sua cerimônia de inauguração em 1937. Na cerimônia de pedra fundamental em 1933, Hitler anunciou que Munique era a "Capital da Arte Alemã". Este edifício foi projetado para realizar o trabalho dos artistas ideologicamente aprovados do Partido Nacional-Socialista. Ainda em uso como local de arte, foi recentemente remodelado e recebe exposições temporárias de artistas contemporâneos. Nos dias de hoje, o museu tem uma programação progressiva. A entrada não é barata, mas se você estiver em Munique na primeira quinta-feira do mês, a entrada é gratuita a partir das 18h.

 

Königsplatz: os edifícios do Partido Nazista

A praça conhecida como Königsplatz, ou "Praça do Rei" foi um dos palcos de grandes eventos públicos da era nazista. Ao redor da praça também estavam edifícios do Partido Nazista, como o Führerbau (edifício do Führer) que ainda está de pé e demonstra a arquitetura da época com a mesma fachada dos tempos nazistas. Esse foi o prédio onde Hitler tinha seus escritórios, assim como onde ele assinou o acordo de paz com Neville Chamberlin, que supostamente garantiu a "paz em nosso tempo" em 1938. Hoje, o prédio abriga a Universidade de Música e Artes Cênicas de Munique.

 

Há também dois "Templos da Honra" (Ehrentempel) que foram construídos para abrigar os sarcófagos dos dezesseis nazistas mortos durante o Putsch de 1923. Estes foram destruídos pelo avanço dos exércitos americanos, embora hoje você encontre uma placa no site. São espaços abandonados – de propósito.

 

A Braunes Haus (Casa Marrom), mais um dos edifícios do partido, era um dos pontos prominentes da política. Destruída em 1945, em seu lugar foi erigido o NS-Dokumentationzentrum, um museum que se concentra na história e nas consequências do regime nazista e no papel de Munique como Hauptstadt der Bewegung.

 

NS-Dokumentationzentrum (Centro de Documentação do Nacional Socialismo)

Rodeado por edifícios neoclássicos ornamentados e construído sobre as ruínas do Braunes Haus (Casa Marrom), o moderno e clínico NS-Dokumentationzentrum é um lembrete de um passado que muitas vezes Munique tenta varrer para debaixo do tapete. Mais do que uma coleção de documentos nazistas, este é um museu sobre a história do anti-semitismo e do racismo e as muitas formas diferentes que ele pode assumir. É uma exposição perturbadora, dolorosa e relevante no tema: das fotos em tamanho natural de homens enforcados e mulheres assassinadas à sua afirmação inabalável de que o povo de Munique sabia exatamente o que estava acontecendo e era cúmplice, é um lugar instigante e às vezes é difícil continuar lendo.

 

Este não é apenas um museu do passado, como o pavilhão de exposições especiais mostrando a continuação do sentimento anti-semita e de direita na Alemanha moderna. É um apelo a Munique e além, para reconhecer o passado como um meio de impedir que tais atrocidades indizíveis aconteçam novamente. Vale a pena uma visita.

 

Homenagens à resistência dos irmãos Scholl

O nazismo teve resistência de diversos movimentos, sendo o mais notável o movimento Rosa Branca (Weisse Rose), formado por um grupo de estudantes da Universidade Ludwig Maximilian (LMU) em Munique e liderado pelos irmãos Hans e Sophie Scholl.  O grupo praticava atividades não-violentas, como distribuir panfletos que denunciavam a opressão do regime nazista, assim como a perseguição e o assassinato em massa dos judeus.

 

Em 18 de fevereiro de 1943, membros da Rosa Branca, incluindo os irmãos Scholl, distribuíram panfletos no átrio principal da universidade e foram presos pela Gestapo. Quatro dias depois, após serem condenados por traição, foram decapitados. Seus últimos folhetos foram contrabandeados para as tropas aliadas, levando ao reconhecimento póstumo das atividades do grupo no pós-guerra.

 

Há uma série de memoriais para a Rosa Branca espalhados por Munique. A mais poderosa lembrança está no pavimento em frente ao prédio da universidade, onde os membros fundadores foram originalmente presos, com réplicas de bronze de folhetos da Rosa Branca. Diz-se que Sophie Scholl soltou os panfletos ao avistar a Gestapo. Assim como a praça "Geschwister-Scholl-Platz" (Praça dos Irmãos Scholl) na área da universidade recorda esse momento histórico, um busto de Sophie Scholl se encontra dentro do átrio da faculdade de direito.

 

Perto de Munique

Nos arredores de Munique também existem diversos locais históricos para visitar, como o campo de concentração de Dachau e a cidade de Nuremberg.

 

O campo de concentração de Dachau

Das muitas cidades e aldeias pitorescas que se encontram nos arredores de Munique, uma das mais bonitas é a antiga cidade medieval de Dachau. Um pouco fora do centro da cidade pode hoje ser encontrado um testemunho duradouro do mal que nasceu nesse encanto rústico. Aqui, um importante memorial internacional fica no terreno do antigo campo de concentração. Excursões da área estão disponíveis, incluindo os edifícios originais sobreviventes. A menos de uma hora de trem de Munique, esta é uma viagem de um dia angustiante; mas talvez o mais relevante para entender a extensão da maldade sistemática do partido nazista.

 

Reichsparteitagsgelände em Nuremberg

Depois que Hitler declarou Nuremberg como a "Cidade dos Comícios do Partido Nazista" em 1933, os nazistas começaram as construções monumentais para as reuniões de massa do partido em onze quilômetros quadrados na parte sudeste da cidade. Ainda hoje, os restos de enormes estruturas – o Reichsparteitagsgelände testemunham a megalomania do regime nacional-socialista, com remanescentes gigantescos desse complexo arquitetônico. Este é o maior conjunto sobrevivente de construções do estado nazista.

 

A estrutura é estarrecedora, que hoje parece abandonada, mas que persiste como lembrete da máquina nazista. O Centro de Documentação do Centro de Reuniões do Partido Nazista (Dokumentationszentrum Reichsparteitagsgelände) está localizado na Sala de Congressos, que nunca foi concluída, mas destinava-se a ter uma audiência de 50.000 pessoas. É um “passeio” que vale a pena para não deixar a História morrer.

 

Por que visitar

A Alemanha de hoje é muito diferente da Alemanha de Hitler. Entretanto, vemos o retorno de movimentos neonazistas, violência contra os judeus e até a negação do holocausto. E tudo isso é demasiadamente preocupante, principalmente no país onde se desenvolveu uma máquina maldosa, racista e violenta para enaltecer "os arianos". Independentemente das convicções políticas de cada um, das ideologias em que se acredita, conhecer tais lugares nos dá a oportunidade de conhecer mais da história que se passou por aqui, sem as dissimulações dos nossos próprios políticos.

 

Apesar de certos lugares serem incômodos, o governo alemão os deixa de pé justamente para que a memória do Terceiro Reich não seja apagada e nós possamos sempre nos lembrar que a história pode sempre se repetir - e como podemos impedir que movimentos similares se fortaleçam.

 


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