Alegria de viver sem ser espalhafatoso

De diversas bocas já ouvi como é impossível achar “alegria de viver” nos países do norte europeu. Aqui na Alemanha, é muito comum rotular os nativos como grosseiros, tristes, rabugentos. Brasileiros que vivem por essas bandas dizem que alemães e companhia não demonstram a alegria de viver que vemos no Brasil, quando o gari canta enquanto recolhe o lixo, as manicures que conversam com você ao tirarem a sua cutícula e os sorrisos universais de brasileiros pelo país que, é claro, são pobres mas são felizes.

 

A brasilidade que nós temos tanto apreço é de fato especial, e nos faz sentir bem com aquela simpatia e alegria de viver tão característica do nosso povo. Entretanto, a tal alegria de viver que nós sentimos tanto orgulho existe em outros lugares do mundo – só que de forma mais discreta, sem ser espalhafatoso.

 

Aqui na Alemanha já tive muitas doses de ver brasileiros tão orgulhosos de sua brasilidade que fazem questão de que todas as pessoas fiquem sabendo de onde eles vêm. Já vi capoeiristas tocando berimbau no metrô, já vi gente com a camisa amarela da CBF dando risada alto na rua. Todo mundo quer mostrar essa alegria de viver ao falar e rir alto, ao chamar atenção. Os alemães, é claro, não estão nem aí. Eles estão muito satisfeitos com a maneira deles de serem alegres sem precisarem mostrar para todo mundo, muito obrigado. Afinal, quantas vezes um sorriso esconde tristezas imensuráveis no coração? Aparentar alegria de viver ao cantar durante o trabalho ou tocar o berimbau no metrô não significa que essa pessoa seja feliz.

 

Outro exemplo dessa distorção da superficialidade da “alegria de viver” foi o resultado de que são os finlandeses o povo mais feliz do mundo. Muita gente questionou o resultado; afinal, não são os finlandeses, assim como alemães, rabugentos e fechadões? Como assim, eles são mais felizes que nós brasileiros, chefes mundiais da alegria de viver?

 

Acredito que levamos as aparências muito a sério. As mídias sociais que o digam: nós mostramos sorrisos, prazeres, abraços, beijos, amores aqui e acolá, aparentamos felicidade. Mas por dentro, onde está a alegria de viver real, a felicidade? Não que todas as pessoas que postam sobre suas vidas nas redes sociais estejam tristes, mas quantas delas não o fazem apenas para aparentar o que não têm ou sentem?

 

Essa superficialidade que nós tanto queremos da “alegria de viver” e “brasilidade” não é condizente com felicidade. E quando digo felicidade, é aquele sentimento profundo de satisfação consigo mesmo, com suas realizações, com a auto-aceitação de seus defeitos e limitações. É o sentimento de estar bem, de verdade. É claro, viver em lugares mais estáveis economicamente, como a Finlândia e a Alemanha, ajuda. E muito!

 

Por isso, quando às vezes eu tenho saudades daquela brasilidade nagô, daqueles sorrisos irresistíveis lá da Bahia, e mesmo inconscientemente comparo com a realidade aqui na Alemanha, eu procuro ver que felicidade tem muitas caras, e nem todas elas estarão sorrindo ao Deus dará. Às vezes, a felicidade fica escondidinha mesmo, nem sempre é óbvia como queríamos. Gostaria que os alemães demonstrassem mais alegria, que começassem a rebolar ao som do axé? É claro. Mas a realidade é diferente, e no fundo sei que a forma deles de serem felizes e de demonstrar a tal "alegria de viver" é um tanto distinta. Mas isso não significa que não exista. Ela existe – e como existe!

 

São nas coisas mais simples que a gente vê como se pode ser feliz, sem precisar aparentar felicidade.

 


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