Entrevistando Escritores Expatriados: Jamile do Carmo e João Araújo, Projeto Cancioneiro

Ultimamente tenho tido a oportunidade única de conhecer a obra de escritores brasileiros expatriados, pessoas que criam suas obras com grande paixão pelo Brasil. Uma dupla e tanto que tive a oportunidade de conhecer é a Jamile do Carmo, autora, artista visual e professora de Português em Erlangen, assim como o poeta e compositor João Araújo. 

 

Como os primeiros convidados para entrevistas aqui no blog, tenho grande alegria em convidar vocês para conhecer o Projeto Cancioneiro, composto por Jamile e cantado por João. Alguns eventos já estão programados na Baviera -  e tenho certeza que muitos mais estão por vir!

(Baiana da Baviera) Jamile e João, bem-vindos! Estou muito feliz em tê-los aqui no blog para o público conhecer um pouco mais do trabalho de vocês. Recentemente, vocês começaram o Projeto Cancioneiro, com poemas que abordam aspectos da cultura brasileira musicados ao estilo cancioneiro. Como surgiu essa ideia?

 

Jamile: Obrigada, Manuela! Bem, a ideia surgiu a partir de uma pesquisa que faço a respeito das raízes culturais lusófonas, não só brasileiras, e pensei ser interessante este jogo com o tempo, ou seja, resgatar este estilo musical-literário galego medieval, que é o Cancioneiro, mas pensado com um perfil contemporâneo, o que na verdade não é algo inédito, apenas a direção que damos é o diferencial. Contando com o incrível talento de João Araújo, que além de músico e compositor também é autor, bem como da editora GIRABRASIL, a coisa começou a ir adiante.

 

João: Olá Manuela, obrigado pelo seu convite. Eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a talentosa Jamile do Carmo na Frankfurter Buchmesse (Feira de Livros de Frankfurt). Foi quando tomei conhecimento do trabalho profundo e sólido que ela vem realizando em torno da educação, cultura, artes e linguística, juntamente com a editora GIRABRASIL e a Britta Mönch-Pingel. Para mim foi uma alegria quando a Jamile me colocou a proposta do projeto Cancioneiro e é uma honra fazer parte desta empreitada.

 

"Uma terra era à vista

o outro mar para atravessar

pegue-não-pague de conquista

Terra Brasilis vai começar

e foi neste mar da história

que eu não pude navegar"

(trecho de "Pedro, Pero e nós")

 

 

(Baiana da Baviera) Os poemas giram em torno de etnicidade e questões sócio-políticas, como a exclusão. A experiência de imigrante de vocês foi um fator para criar esse conteúdo?

Jamile: Na verdade já trabalho com estes temas há muito tempo, tanto em textos quanto imagens, como artista visual. O que ainda não tinha feito foi musicá-los pois, como não tenho formação musical, ficava difícil. Mas, sem dúvida que a experiência de imigração deu um input a este processo criativo, já que faz parte da busca existencial por novos espaços.

 

João: Acredito que o fato de ser imigrante influencia nas temáticas de algumas das minhas composições musicais e textos. Você passa a reparar mais no „outro“, a identificar semelhanças e diferenças, a enxergar um mundo maior e mais diverso e a conhecer melhor a si próprio. Esse conhecimento acumulado, consequentemente, encontra válvula de escape na expressão artística lítero-musical.

 

"Essa luz lusa que me “alumia“

também é nagô e é tupinambá

prisma de cores e alegorias

olha, olha, pra não se apagar

mantendo belo um horizonte

dum novo cais para se embarcar"

(trecho de "Pedro, Pero e nós")

 

(Baiana da Baviera) Vocês já moram na Alemanha há bastante tempo. Como a arte que vocês criam os trazem mais perto do Brasil? Como vocês veem isso no diáspora brasileira pelo mundo?

Jamile: Como uma odisseia. Todos trazemos em nossa “bagagem“ memórias, legados culturais e identidades, queria abri-la e trocar “os pertences“ (risos).  E assim contribuir para a construção de um Brasil lá fora, pensado crítico e construtivamente.

 

João: Também sinto que o meu olhar sobre o Brasil ficou mais aguçado no sentido crítico ao me debruçar sobre as questões político-sociais. Há assim o desejo de dar voz a esse espírito crítico e propagá-lo não só de volta para o Brasil, como também possibilitar a sua existência diária aqui no exterior.

 

(Baiana da Baviera) Como o Projeto Cancioneiro é apresentado para o público?

Jamile: Bem, em maio há duas apresentações. Uma em Düsseldorf (VHS), no dia 11.05, e outra no dia 23.05 (Club International), em Erlangen, onde João Araújo nos presenteará com suas belas músicas e composições. Depois vamos agendando e divulgando as próximas.

 

(Baiana da Baviera) Como leitores e interessados podem conhecer mais sobre o projeto?

Jamile: Estou ainda trabalhando num texto introdutório, o projeto é muito recente. Mas breve basta acessar a página da editora GIRABRASIL: www.girabrasil.de

 

 

Conheça os autores

Jamile do Carmo é autora, artista visual e professora de Português nas universidades Friedrich-Alexander (FAU-Erlangen) e OHM-Fachhochschule (Nürnberg). Formada pela UFBA, é bacharel e mestra em Artes Visuais, também pós-graduada em Metodologias do Ensino pelo Instituto Olga Mettig, tendo alguns trabalhos premiados. É membro do Instituto Internacional de Geopética e do LATinBAY (Rede de pesquisadores para a América Latina na Baviera). Junto com a editora GIRABRASIL desenvolve vários projetos interculturais. Mais informações em: www.jarte.de

 


João Araújo é compositor, escritor, produtor artístico e músico. Formou-se bacharel e mestre em Física Teórica pela UFPE e especializou-se em Literatura Brasileira pela mesma Universidade. Em Portugal, concluiu o Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas na Universidade de Évora. Alguns dos seus trabalhos foram premiados, a exemplo do Prêmio Jabuti 2011 como co-autor na Categoria Ciências Exatas e do 1° Lugar do concurso nacional de contos “Agostinho de Cultura – 2012”. Mais informações em: http://jpoeta.blogspot.com/

 



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