Não é fake news: educação sexual é fundamental para crianças e jovens

Num belo dia de sol no ano passado, observando as crianças jogando futebol, uma senhora viu que eu falava português e logo se apresentou. Batemos o maior papo, pois a brasileira desejava dividir um pouco de suas tragédias. Me contou do assassinato de seu filho, da forma como sua nora maltratava seus netos.

 

A mãe das crianças engravidou da primeira filha aos doze anos, do segundo com quatorze, e aos vinte e um estava grávida do terceiro. Sua neta, que alegremente sorria ao observar o irmão jogando bola, já havia dito que queria ter o primeiro bebê aos doze anos, “assim como a mamãe”. Ao ouvir isso, essa senhora de olhar triste resolveu trazer as crianças para Munique.

 

Essa conversa ficou na minha cabeça, apesar das tragédias brasileiras hoje em dia terem se tornado tão triviais. Logo me lembrei do comentário da mãe de uma amiga minha de longa data, professora da rede pública, que sempre ouvia os adolescentes darem de ombros com o uso da camisinha com o pensamento de que “não se come bala com embalagem”. Apesar de ter ouvido isso décadas atrás, essa frase compartilhada quando eu mesma ainda era adolescente ficou como símbolo da ignorância, falta de informação – e também banalização das consequências do sexo desprotegido, uma resistência besta contra proteger a si mesmo.

 

Semanas após a conversa sobre o destino dessa avó e seus netos, estava eu de férias em Portugal, ouvindo rádio, me deliciando com músicas no meu idioma. Um funk começa a tocar, uma batida bem alegre e gostosa de dançar. Confesso, não estava prestando atenção na letra da música no início, até ouvir de repente ouvir:

 

É um Marocain e uma Brasileira

Se mexer com o meu marido vai levar peixeira

Ele 'tá aqui comigo, aqui no RDV

Não vem brincar comigo porque eu sou a Brasileira

 

Tomei um susto. Fiquei prestando atenção na música, para depois vir mais um funk cheio de obscenidades. Arregalei os olhos e mudei a estação de rádio – fiquei com receio de meu filho ouvir essas barbaridades e sair cantando por aí, achando que é a coisa mais normal do mundo.

 

Polêmicas que já estamos carecas de saber

E então vieram as eleições presidenciais do ano passado e, como todos nós estamos carecas de saber, a polarização política floresceu e tornou-se erva daninha. Apesar dos problemas estruturais do Brasil – pobreza, desigualdade, falta de educação e saúde, corrupção – um dos assuntos que mais tomaram as manchetes foi o famigerado – e fake “kit gay”. Na verdade, o kit gay se referia ao projeto Escola sem Homofobia voltado para educadores, colocado em prática pelo então ministro da educação Fernando Haddad. De repente, aulas de sexualidade na escola tornaram-se tabu, porque “erotizam” as crianças, tirando sua inocência para sempre.

 

A educação sexual nada mais é que conscientizar crianças e jovens para o seu próprio corpo, educar com relação ao sexo seguro, como prevenir doenças e a gravidez precoce. É aprender sobre as diversas orientações sexuais e o que constitui abuso. E é, também, abordar a importância do respeito e da tolerância. Enfim, aula sobre sexualidade não é suruba, nem convite ao homossexualismo, muito menos um antro de perdição.

 

Muitos pais preocupados com esse tema polêmico acreditam que educação sexual é sobre “sexualizar”, “erotizar” e “tirar a inocência”. Entretanto, pensemos primeiramente se é a educação sexual que erotiza a criança, ou se são músicas e comportamentos que transmitem essa erotização precoce, como alguns funks da vida. Por exemplo, me lembro de ouvir “É o Tchan”, vi muitas moças rebolando e casais se esfregando em shows (ou em qualquer cantinho escuro) sem pudor algum. Me pegava cantando músicas obscenas, achando que eram o máximo. Achando normal. Sexo estava em todo lugar, literalmente.

 

Grandes paradoxos: erotismo na rua, conservadorismo em casa

Ao mesmo tempo, cresci numa família que tinha horror a conversar sobre sexo. Não houve orientação quando fiquei menstruada, quando tive meu primeiro namorado e portanto a chance de transar pela primeira vez. Meus pais nunca conversaram sobre sexo comigo ou me orientaram de qualquer forma, assim como evitavam conversar sobre “aquele primo diferente” (ou seja, homossexual). Não tive nenhuma educação sexual na escola. As informações que eu conseguia encontrar estavam nas páginas da revista Capricho ou nas conversas com as amigas mais experientes.

 

Eu imagino que, mesmo após vinte anos da minha adolescência, o quadro seja muito parecido para muitas crianças e jovens no Brasil. Fora de casa, absorvemos uma cultura hiper-sexualizada que banaliza o sexo no funk, arrocha e outros estilos musicais, nos programas de televisão e na mídia em geral. Ao entrarmos em casa, nos confrontamos com o conservadorismo da nossa sociedade, com os tabus arraigados e noções intolerantes, como o homossexualismo.

 

Ou seja, um(a) jovem é bombardeado(a) de erotismo na nossa cultura e em meios de comunicação – mas lhe é negado informação e educação a respeito do sexo. Essa combinação não pode dar certo.

 

Enquanto isso, na Alemanha...

Aqui na Alemanha a educação sexual é levada muito à sério (veja coluna da Deutsche Welle): a partir do ensino primário, os alunos começam a ter aulas sobre educação sexual, obrigatórias no país. Já no jardim de infância de meu filho, os educadores comunicaram a decisão de discutir certos aspectos da educação sexual: informações sobre o corpo, diferenças biológicas entre meninos e meninas, o que é permitido e o que não é. Ou seja, desmistificar sexualidade, porque sejamos sinceros: não adianta tapar o sol com a peneira. Crianças e jovens precisam se informar para que o começo da vida sexual seja feita de forma saudável e respeitosa.

 

Muitos que criticam o sistema se apegam à obrigação que as crianças têm de comparecer às aulas (não só de educação sexual; toda criança tem obrigação de frequentar a escola na Alemanha) e, é claro, com preocupações parecidas com os brasileiros mais conservadores. Mas fato é: o sistema alemão, apesar de não ser perfeito e um tanto controlador, tem suas qualidades e parece surtir efeitos.

 

No estudo sobre gravidez entre adolescentes na Alemanha em 2016 pela agência de estatísticas da União Europeia, a Eurostat, apenas 2,3% de todas as crianças nascidas na Alemanha em 2014 tinham uma mãe com menos de 20 anos, em comparação com 3,3% em 2004. Estatísticas mais recentes corroboram que a taxa de gravidez entre adolescentes na Alemanha permanece baixo, que apresenta a taxa de 0,035% de gravidez de jovens até dezoito anos em comparação com o total de gestações.

 

Pode-se até argumentar que a taxa de natalidade da Alemanha é em geral baixa (1,57 crianças/mulher em 2017) e que os dados não seriam comparáveis com o Brasil. Entretanto, gestações na adolescência são raramente (para não dizer nunca) planejadas, sendo geralmente a consequência de quem teve sexo desprotegido - ou de abuso sexual.

 

É claro, os louros das baixas estatísticas não podem ser dadas somente à educação sexual. A forma menos sexualizada e, pode-se dizer, obscena que os jovens vivem na Alemanha tem lá a sua contribuição. As manifestações culturais na música, arte e literatura têm um conteúdo de menos intensidade sexual, diferentemente do Brasil. A cultura com relação às mulheres é menos agressiva/machista que no Brasil, assim como a variedade de orientações sexuais não causa mais escândalo. Ser gay é normal, mulher usando saia curtinha é normal, nudez é normal. Quando há educação e políticas de tolerância em vigor, o respeito passa a ser natural e cotidiano.

 

E nem tudo são flores: apesar dos pesares, a tendência de contágio de doenças sexualmente transmissíveis aumentou nos últimos anos, principalmente porque em muitas partes da população não há conhecimento suficiente sobre as doenças sexualmente transmissíveis existentes (veja aqui). Nada é perfeito.

 

Brasil: campeão em gravidez precoce, DST e abuso sexual

É verdade, o Brasil é muito diferente da Alemanha e nem todos os dados e tendências serão comparáveis. Mas não precisamos cruzar o Atlântico para fazer comparações: infelizmente, o Brasil amarga o primeiro lugar no número de gestações na adolescência na América Latina, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. São 68,4 bebês nascidos de mães adolescentes a cada mil meninas entre 15 e 19 anos – o triplo da taxa de natalidade na adolescência na Alemanha. E isso sem considerar as garotas grávidas antes dos quinze anos, como a história da senhora brasileira no início desse artigo.

 

Infelizmente, o buraco é ainda mais fundo. O número de transmissões de doenças sexualmente transmissíveis – as DSTs – está subindo. Apesar da falta de estatísticas a nível nacional, dados da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo acusam que as ocorrências de sífilis por transmissão sexual cresceram 603% em seis anos (entre 2007 e 2013). Estatísticas mais recentes revelam que algumas DSTs estão em alta entre jovens brasileiros, pois muitos têm relações de forma desprotegida. No caso do HIV, o número de novos casos anuais subiu quase 140% entre 2007 e 2017 na população em geral. Entre jovens de 15 a 19 anos do sexo masculino, o aumento chegou a 590%. No mesmo período, o número de novos casos de sífilis aumentou em 133% entre mulheres grávidas, segundo dados do Ministério da Saúde.

 

Além disso, abuso sexual de crianças continua sendo um problema para o Brasil e para o mundo, apesar das proteções legais que temos na lei, o que garantiu ao Brasil a 11ª posição no relatório Out of the Shadows Index 2019 (Índice Fora das Sombras). Apoiado pelas fundações World Childhood Foundation e Oak Foundation, esse relatório mostra o ranking de países no combate a abuso sexual infantil e exploração. As leis brasileiras, em teoria, não fazem feio.

 

Apesar da boa posição do Brasil, nós vemos as notícias que correm a mídia sobre crianças abusadas e da ignorância de muita gente do que constitui abuso, desde o esfrega-esfrega no metrô, obscenidades gritadas na rua, flagrantes de genitais em plena luz do dia, violência doméstica até estupro e feminicídio. Nós mulheres sabemos que, além das estatísticas e das leis no papel, o quadro é negro quando o assunto é abuso sexual.

 

Educação sexual em casa e na escola

Nesse contexto, prontamente deixamos que crianças naveguem essa jornada de descoberta no escuro, com medo de responder suas perguntas sobre o seu próprio corpo e a importância de respeitar o corpo do coleguinha. Dou sempre o exemplo de que meu filho, de apenas cinco anos, pergunta de onde vêm os bebês, por que o pênis às vezes fica duro, se ele pode mostrar seus genitais para os amigos. Aliás, ele mesmo diz que fulano do jardim de infância estava mostrando o pênis para todo mundo. As crianças são naturalmente curiosas e tendem a simplesmente fazerem o que dá na telha; é importante educar, orientar sobre o que é certo e o que é errado, ao invés de fazer desse tema um monstro de sete cabeças.

 

Não existem razões para que crianças deixem de ter educação sexual; até o Papa Francisco já se posicionou a favor. Então, por que tanta resistência? Independentemente da escolha religiosa, de estilo de vida ou orientação sexual, é a saúde e segurança dos nossos filhos que está em jogo. Vale a pena colocar isso em risco em função de política, de candidato A ou B? O ideal seria despolitizar o tema, sem colocá-lo em amarras rosas ou azuis. Sem política, talvez a discussão torne-se mais racional e menos ideológica.

 

Para concluir, assim como muitos eu acredito que o papel na educação sexual deve ser em grande parte feito pelos pais; porém, acredito que o papel da escola em orientar a criança é fundamental. São os professores, afinal, que estão em contato com as crianças durante grande parte do dia, que veem como as crianças se comportam e se há alguma situação constrangedora que precisa ser esclarecida. Imagine que algo aconteça na escola, mas que o professor não tenha o poder de interceder ou educar a criança sobre o assunto em questão. Os pais e a escola podem trabalhar juntos; são forças complementares. Aulas de educação sexual não exorenam os pais de cumprir o seu papel. Quanto mais educação e orientação a respeito, melhor. O futuro dos nossos filhos agradece.

 


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