A tal honestidade alemã: verdade ou mito?

Muitos que chegam na Alemanha ficam admirados com o ir e vir de pessoas nas estações de metrô ou em qualquer outro transporte público. Não há ninguém checando o tíquete antes de entrar em qualquer transporte público. Não há controle de quem entra e quem sai. O sistema funciona na base da confiança de que a pessoa, no bom senso de pagar por um serviço, certamente pagará o tíquete. Daí você nota aquela fila no centro da cidade para comprar o tíquete e pensa: quanta honestidade!

 

Não é só no transporte público onde essa demonstração de honestidade é aparente. Pode-se comprar jornal em diversas caixas geralmente postas em pontos de ônibus ou metrô: basta levar o dinheiro certinho, depositar na caixa, abrir a tampa e pegar o seu jornal. 

 

Quando a época de abóboras chega, na beleza do outono, alguns estandes espalhados pela cidade têm somente as abóboras. Não tem ninguém de tocaia para dar o flagra em malandros de plantão. Ninguém.

 

Esses exemplos e alguns outros mostram que existe uma cultura que preza a honestidade e a confiança, um sinal de que as pessoas geralmente seguirão regras sociais de boa conduta.

 

Mas não ache que essa cultura de honestidade vem do nada. Como toda “cultura”, esse comportamento é moldado e difundido como algo invisível que a maioria segue porque desde pequeno aprende-se que é assim que funciona.

 

Não é só uma questão de passar de pai (ou mãe) para filho (a). Uma das coisas que logo se aprende é que não obedecer as regras significa punição – às vezes bem severas. Se alguém é pego no metrô sem o tíquete através do controle surpresa feito por fiscais, é multado na hora. O valor depende da cidade; aqui em Munique, não ter um tíquete válido custa EUR 60, o que seria equivalente a um tíquete mensal. Se esse mesmo alguém é pego sem tíquete três vezes, ele(a) pode ser processado e até parar na cadeia. E pode ter certeza que ainda por cima as pessoas ao seu redor olharão feio para o meliante em questão.

 

No trânsito, pode-se receber uma multa ao atravessar o sinal vermelho como pedestre ou quando um ciclista pedala sua bicicleta no lado errado (já aconteceu comigo). E se não for multado, é muito provável que o cidadão seja xingado por ciclistas mau humorados (e com sua dose de razão).

 

Se você estacionar numa vaga erradamente, como vaga para deficientes físicos, ou não pagar estacionamento, é multa. Se alguém te pega fazendo algo errado, é boca no trombone ou olhares maléficos em sua direção.

 

Além do dinheiro

Não é só no quesito dinheiro que a tal honestidade acontece. Muitos brasileiros desavisados tomam a forma direta e honesta que o alemão aborda opiniões como grosseria, mas na verdade é a forma franca dos alemães dizeram a sua opinião. Na Alemanha ninguém finge gostar de você; se eles não gostam de você, isso fica logo claro. Entretanto, pessoas são inerentemente mais confortáveis com mentiras convenientes ou o fenômeno das “duas caras”, mas felizmente isso vai de encontro ao comportamento alemão.

 

Aliás, comportar-se dessa forma mais franca não seria essa a base de toda e qualquer forma de honestidade? Penso em como o provérbio (russo) "é melhor ser esbofeteado com a verdade do que beijar com uma mentira" faz muito sentido por aqui.

 

Essa maneira de falar e comportar-se de maneira direta e honesta me parece uma mistura de duas coisas: existe o aspecto cultural, é claro, algo passado de geração em geração e tido como a forma de conduta que a sociedade espera de qualquer pessoa, como a expectativa de seguir as benditas regras. Mas também existe a questão de punir (muitas vezes severamente) quando alguém faz algo fora das regras, como uma forma de manter controle e fazer com que pessoas mantenham esse comportamento. Afinal, se fosse tudo oba-oba na ingênua confiança de tudo e todos, não estaríamos aos poucos diluindo esse comportamento?

 

Honestidade se aprende - sob constante vigilância

Quando penso nisso, não posso deixar de comparar com a situação do Brasil, onde impera a forma indireta de dizer uma opinião (exceto em tempos eleitorais ou na Internet), a famosa malandragem e o “jeitinho”. Ou seja, o aspecto cultural que motiva as pessoas a serem menos francas umas com as outras, incluindo o fator dinheiro, é muito forte. E isso, a meu ver, é exacerbado pela frouxidão nas punições – ou simplesmente a falta de justiça por completo. A impunidade é tão grande, passando a mão na cabeça especialmente para os que podem pagar para se livrar de punições, que o modo recorrente para sobreviver é a lei da selva.

 

Portanto, por mais que a verdade seja por vezes dura de roer, que seja até cruel, e a malandragem com grana seja mais fácil que ser honesto, esses são valores essenciais numa sociedade. E por mais que a Alemanha tenha lá os seus problemas (quem lembra do escândalo das emissões de diesel da Volkswagen?) ou que às vezes exagere na dose com sinceridade ao cubo, não se pode negar que no geral os valores que os alemães prezam têm como consequência coesão, crescimento, respeito e confiança. E esses valores são aprendidos desde pequenos, disseminados e sempre vigiados por punições severas. Concluo que, por mais que a honestidade alemã às vezes deixe a desejar, no geral é um dos princípios da sociedade alemã. Assim tem sido minha experiência até o momento. 

 

“Uma boca limpa e uma mão honesta levarão um homem por qualquer terra”, diz o provérbio alemão. Só com honestidade mesmo que podemos seguir em frente; será uma inspiração para nós brasileiros? 

 


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