A síndrome do salvador da pátria e suas devastadoras consequências

Durante o período de eleições de 2018 eu raramente tocava no assunto da política. Qualquer discussão – mesmo no nível racional – provavelmente não faria ninguém dar o braço a torcer. Tudo me parecia insano demais, intolerante demais.

 

Mas algo martelava na minha cabeça. Silenciosamente, eu me perguntava: por que tantas pessoas veem o Lula como uma espécie de santo, como se seus erros não fossem passíveis de crítica? Como um deputado medíocre como Bolsonaro tornou-se de repente o “mito”, o único que poderia mudar o Brasil? Eu me perguntava porque tantas pessoas depositavam suas esperanças na mudança do nosso país nas mãos desses homens. 

 

Nessa incógnita, eu me deparei com a síndrome do salvador da pátria. Repentinamente, tudo fazia sentido.

 

Não que haja uma definição precisa para esse mal, mas eu poderia delinear minha interpretação da tal síndrome: muitos de nós brasileiros (in)conscientemente nos abstemos de melhorarmos a sociedade com nossas próprias mãos. A grande maioria se sente mais confortável em terceirizar esse esforço nas mãos de alguém com poder. Nós deixamos o trabalho sujo para outra pessoa fazer, seja porque achamos que nosso esforço não mudará coisa alguma, seja porque não temos vontade, seja porque não vemos esse trabalho como nosso papel.

 

Para que isso dê certo, nada melhor que acreditarmos num santo ou num mito, que nos dá respostas pré-fabricadas para quaisquer temas. Se esses salvadores da pátria falam exatamente o que queremos ouvir, paramos de ouvir todas argumentações que contradizem o que nos é conveniente. E quando elevamos esses tais salvadores, santos e mitos em um pedestal, não admitimos críticas a quem promete arrumar as nossas vidas. Nos apegamos às suas promessas como uma criança em expectativa para seus presentes de Natal.

 

Existem diversos problemas que derivam dessa "síndrome".

 

Primeiramente, mesmo com toda informação disponível através da Internet, muitas pessoas se abstém de pesquisar com afinco. Muitas caem nas mentiras do fake news – uns porque acreditam piamente ser verdade, outros porque não se importam o que é mentira ou verdade, contanto que siga a sua opinião. E quando apenas filtramos o que queremos ouvir, é fácil nos tornarmos fanáticos que brigam com a família para defender o tal salvador da pátria que nunca nem ouviu falar dos nossos nomes.

 

É incrível como muitos de nós têm fortes opiniões sobre tudo e todos – contra ou a favor do aborto, dos homossexuais, do feminismo, etc. – mas estamos aprisionados no dualismo da direita “fascista” e da esquerda “comunista” para que nossos valores não se tornem divergentes da cartilha ditada do nosso salvador da pátria predileto. Não adianta mostrar dados, estatísticas, nem utilizar-se de quaisquer argumentos racionais. Tudo que causa discordância é fake news, pronto e acabou.

 

Segundo, deixamos de analisar os nossos próprios atos e de agir. Achamos que não é o nosso papel. Acreditamos que nós já pagamos nossos impostos com sangue e suor, e por isso lavamos as mãos e nada fazemos. Ajudar uma pessoa necessitada? Não é meu papel. Melhorar a educação e diminuir o analfabetismo funcional? Não é o meu papel. Denunciar casos de abuso sexual? Não é o meu papel. Reciclar lixo? Não é o meu papel.

 

Então de quem é esse papel?

 

Não estou aqui para criticar quem votou em A nem B; cada um com suas escolhas. Todos nós temos as nossas esperanças de um país melhor. Mas um presidente – nem mesmo um ditador – pode mudar um país para melhor sozinho. Temos que fazer algo, cumprir a nossa parte. Pode ser como voluntário numa comunidade carente,  pode ser dentro de casa, ensinando os filhos a respeitar mulheres e a cuidar do meio-ambiente, pode ser no simples ato de tomar as rédeas para mudarmos a realidade. Não é preciso que viremos todos ativistas, mas o papel de transformar o Brasil começa com cada um de nós.

 

E é, também, ver os nossos governantes como homens comuns que não são salvadores da pátria – e que portanto, são passíveis de crítica e do comprometimento em melhorar o nosso país. Precisamos que essas pessoas não só sejam elogiadas por seus acertos, mas que também respondam por seus erros. É preciso que sejamos críticos, mesmo que o alvo seja o candidato para quem demos o voto.

 

Mas para isso, precisamos abrir nossos olhos e aceitar que salvadores da pátria – infelizmente – não existem.

 

* Imagem feita pelo chargista Sinovaldo.

 


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