Reconquistando a língua portuguesa ao morar no exterior

Ainda me lembro do dia em que comecei a escrever o meu primeiro livro. Com algumas horas dedicadas ao ócio pela primeira vez após a maternidade, meu cérebro pedia alguma atividade que o tirasse do marasmo intelectual. Mal eu poderia imaginar como era difícil escrever na minha língua nativa, logo eu, que sempre tive tanta facilidade para escrever. Minutos passavam em frente ao computador tentando me lembrar de alguma palavra, que teimava em aparecer em alemão ou em inglês.

 

Mas em português? Que nada, minha língua nativa tinha desaparecido, resolveu não mais dar as caras!

 

 

 

 

Que parto foi recomeçar a longa jornada de escrever em português. Eu me pegava pensando na ortografia das palavras (viagem é com g ou com j?), frases inteiras apareciam em outra língua, ou então em duas línguas diferentes. Não só o escrever estava difícil, logo percebi. Também a língua falada me escapava, eu misturava os idiomas sem perceber. Muitos brasileiros que vivem na Alemanha – ou em outros lugares do mundo – vão entender o idioma híbrido que passamos a falar, num mistureba que deixaria qualquer professor de português irritadíssimo. Da minha boca saem heresias como: “ainda não marquei o Termin” (reunião ou consulta) e “Agora vou pra casa, alles klar?” (tudo bem?).

 

Também notei que meu sotaque estava aos poucos desaparecendo, dando lugar à uma forma de falar mais neutra, pontuada de gírias cariocas, mineiras e lisboetas, fruto das influências das amigas expatriadas como eu. Ao falar com meus pais, eu precisava de tempo para me lembrar das palavras, e pedia desesperadamente por um Google Tradutor acoplado ao meu cérebro.

 

Não que eu estivesse perdendo o idioma completamente, mas dinâmico à minha condição de imigrante, lá estava o meu português perdendo o ritmo baiano e inconscientemente fazendo uma suruba linguística com inglês e alemão, línguas essas que eu falo com muito mais frequência do que o português hoje em dia.

 

Lendo mais sobre o assunto, me deparo com um artigo interessante na BBC sobre a possibilidade de perder a língua nativa (leia aqui – em inglês). Aprendo que, apesar do tempo fora do país ser um dos fatores para o idioma se deteriorar, provavelmente o grande motivo para perder completamente o domínio da língua nativa são traumas emocionais, coisas que fazem pessoas esconder o idioma nativo em algum lugar de si para não relembrarem de momentos terríveis. Muitos judeus alemães no pós-Guerra, principalmente aqueles que saíram da Alemanha apenas após a Noite dos Cristais*, perderam o domínio do alemão por terem sofrido imensos traumas.

 

Fato é: ao aprender um novo idioma, dois “sistemas” linguísticos competirão entre si, dizem especialistas em linguística. Por isso, em caso com crianças é normal que os pequenos percam o domínio de uma língua ainda na infância, principalmente se a criança muda para outro país. Para adultos é menos comum que haja a perda completa do idioma, a não ser em casos extremos.

 

Com crianças bilíngues, há muito tempo que o sistema OPOL (one-parent-one-language; pode ser explicado como a mãe/pai consistentemente falando o seu idioma nativo) predomina no uso e ensino da língua no exterior. Nesse contexto, procuro prestar mais atenção em como me comunico no português com meu filho, evitando ao máximo misturar as duas línguas. Entretanto, tenho lá os meus dias mais cansados, impacientes, em que solto uma frase meio alemã, meio portuguesa. E por mais que tente manter o idioma “limpo”, confesso que nem sempre é possível. Aliás, recentemente notei que a rigidez do OPOL, em que os pais devem corrigir seus filhos quando cometem erros com frequência, dá lugar a uma nova flexibilidade. É normal crianças bilíngues misturarem idiomas, assim como terem sotaque ao falar português. O importante é comunicar-se, e às vezes a criança soltará uma palavra que é difícil mesmo de ser literalmente traduzida para outro idioma, mas que expressa exatamente o que deseja dizer. Essas situações são favoráveis, dando a oportunidade da criança de aprender sobre o equivalente em sua segunda língua.

 

O que fazer então para evitar que o português dê adeus ao nosso cotidiano? É claro, relacionar-se com pessoas que falam a mesma língua pode ajudar, apesar de influenciar ainda mais o mistureba linguístico que nós passamos a achar normal. É preciso também não exagerar na dose; morando no exterior e só se relacionar com brasileiros (ou portugueses) provavelmente não vai ajudar na integração em um novo país ou no aprendizado do idioma local. O que me ajudou muito para conseguir voltar a falar e escrever de forma mais fluente (ou seja, sem ficar pensando ou dando voltas para lembrar uma palavra), foi ler livros em português.

 

A importância dos livros em português vai além de reforçar palavras no cotidiano. Principalmente ler histórias que se passam no Brasil trazem de volta as cores, sabores, vistas do nosso país, nos trazem lembranças, reforçam a identidade. Para adultos e crianças, ler em português nos leva de volta para casa, e automaticamente resgatam a chave para a nossa cultura através do idioma.

 

Mas nós sabemos que mesmo em tempos de globalização não é fácil encontrar livros em português por essas bandas. Felizmente, em centros urbanos como Munique é possível achar livros em português em bibliotecas internacionais (com um acervo considerável, devo dizer), além da possibilidade de ler livros digitais. Com um Kindle (ou aparelho similar), logo me acostumei com a praticidade de levar minha biblioteca digital para todos os cantos. Para os pequenos, diversos serviços pipocam pelo mundo para suprir a demanda por livros infantis em português, como o Livros for Kids e Minibilíngue, assim como projetos de contação de histórias como o Mala de Herança.

 

Tem certos dias que ainda tenho dificuldades com o meu próprio idioma e as palavras me falham; e tudo bem. Às vezes precisamos aceitar que nem tudo será perfeito, e que no processo de aprender duas novas línguas, eu talvez tenha esquecido um tantinho do português. Colocando tudo na balança, com certeza ganhei mais do que perdi nesse menage à trois linguístico.

 

 

* A Noite de Cristal foi um pogrom contra os judeus pela Alemanha Nazista na noite de 9–10 de Novembro de 1938. As autoridades alemãs olharam para o acontecimento sem intervir. O nome Kristallnacht deve-se aos milhões de pedaços de vidro partidos que encheram as ruas depois das janelas das lojas, edifícios e sinagogas judaicas terem sido partidas. 


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