Por que amores multiculturais não são tão românticos assim

Mais uma vez passamos o fim de ano com a família do meu marido, que é coreana e vive na Alemanha há quase cinquenta anos. Nesse tempo de reflexão, lembrei-me dos comentários de conhecidos (geralmente em relacionamentos “uniculturais”) que acham o máximo que uma brasileira/portuguesa tenha se casado com um coreano/alemão. É claro, essa combinação inusitada gera curiosidade nas pessoas.

 

Talvez romantizado pela literatura e pelo cinema, que exploram certos comportamentos exóticos como algo sedutor (mas também um empecilho para o romance), muitos acham que relacionar-se com um estrangeiro tem um quê mais romântico, misterioso, e quiçá, extraordinário.

 

Não é novidade nenhuma que amores estrangeiros exercem uma certa fascinação. Muitas pessoas veem alguém com um tipo diferente, falando uma língua diferente, de um lugar distante e misterioso, e deixam-se levar pela curiosidade e o sentimento de viver algo inesquecível. Existe algo romântico nas dificuldades e barreiras no amor exótico, que seduzem ainda mais os desavisados. De repente, sonhamos com uma vida diferente, num lugar maravilhoso (que nós também fantasiamos como “perfeitos”). É fácil romantizar e fantasiar o exótico, e nos apaixonarmos ainda mais.

 

A realidade, entretanto, não faz jus ao glamour do relacionamento exótico – ou pelo menos, nem sempre. Conte com muitos desentendimentos de comunicação, gafes culturais, formas diferentes de criar as crianças. O relacionamento com os sogros – que geralmente já é difícil – pode sofrer com preconceitos raciais e culturais. Quem pegou esse caminho sabe que estar lost in translation (perdido na tradução) é mais comum do que gostaríamos...

 

Me lembro de ter conversado há muito tempo atrás com uma moça baiana que estava de mudança para a Alemanha para se casar com um homem muito mais velho que ela. Na verdade, o problema não era a diferença de idade (não estou aqui para julgar ninguém), mas pelo fato que ela estava se casando para mudar de vida. Companheiras de voo, ela me mostrava fotos do seu futuro marido e me contava que havia conhecido o homem há menos de um mês. Mas ela achava que estar na Europa mudaria tudo. Que sua vida finalmente entraria nos trilhos.

 

Pode ser que tudo tenha dado certo e eles sejam um casal apaixonado. Pode ser que, mesmo sem amá-lo, ela tenha conseguido alcançar o seu objetivo e seja feliz. Mas pode ser que não, porque tudo é uma incógnita quando se deixa uma vida para trás em função de alguém que mal se conhece. No seu rosto havia desespero: moradora da favela, ela tinha poucas chances de sair da pobreza. Era mais do que justificável que ela corresse esse risco.

 

Já vimos por aqui muitos casos de relacionamentos que não deram certo. Claro, isso acontece em qualquer lugar do mundo, mas imagine um casamento desfeito com filhos. Alguns casos extremos levaram as mães a aguentar maridos abusivos para não perder o contato com as crianças. Casos que acabam em divórcio podem ser muito complicados com relação à custódia dos filhos, ainda mais se um dos pais deseja retornar ao seu país de origem. E, nesse caso, quem é estrangeiro está em clara desvantagem.

 

Os casos acima são extremos, mas acontecem. Infelizmente muitas pessoas (geralmente mulheres) sofrem quando vão para um país diferente para acompanhar o amor de sua vida - estrangeiro ou não. O que mais vemos são pessoas que se veem reféns de relacionamentos abusivos e com pouca possibilidade de voltar para o seu país de origem (principalmente quando a custódia dos seus filhos está em jogo ou falta de dinheiro mesmo). Vemos brasileiras chegando por essas bandas com grandes esperanças de que suas vidas mudarão para sempre; mas isso nem sempre quer dizer que seja uma mudança positiva.

 

Dificuldades menos sofridas existem, mas não deixam de ser irritantes no dia a dia.

 

Conversando com uma amiga taiwanesa, cujo marido é alemão, vimos as mesmas dificuldades e desentendimentos com a pessoa amada e com os sogros. Se no começo achamos a paixão entre pessoas de lugares tão diferentes o máximo, no dia a dia essa romantização cai por terra. Além dos desafios de qualquer relação, adicione um idioma diferente, formas distintas de viver e expectativas de quem deve cuidar da casa e das crianças, visitas anuais para o país de origem, o relacionamento com os sogros, escolha do nome dos filhos, religião então...

 

Por mais que histórias de amor possam ser construídas com bases em culturas diferentes, e muitos relacionamentos multi-culti tenham dado certo, raramente amores exóticos serão contos de fadas. Para quem está embarcando nessa ou já viajou nessa aventura, uma dose de realidade nunca é demais. Todo amor vale a pena... mas todo cuidado é pouco, não é mesmo?

 


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