Os sabores de voltar para casa

Na casa de minha avó Carminda tinha sopa de caldo verde todo santo dia. Cada comemoração era feita através de lascas de bacalhau em suas diversas formas. Bolinhos de bacalhau e aletria doce, uma delícia natalina feita com pasta fininha como capellini, completavam o menu que comíamos sempre e cujos sabores marcaram minha infância. O doce de tomate que minha avó fazia então... é só fechar os olhos que eu ainda me lembro do gosto. Antes de embarcar em minhas próprias aventuras além do Brasil, mal sabia como comida é um dos pilares de identidade de imigrantes, que procuram por resquícios de sua cultura no além-mar.

 

Meu pai veio para o Brasil com cerca de cinco anos e foi no Rio de Janeiro onde ele e meus avós fizeram a sua segunda casa. Antes de aportarem no Brasil, meus avós tentaram a vida em Angola, 

 

enquanto meu pai era criado por seus avós num vilarejo nos arredores de Viseu. De lá, meu pai conta que se do dia que seus pais retornaram de Angola, já com planos de migrarem para o Brasil.

 

Salvador se tornou a terceira casa de meu pai, mas sempre parecia que seu coração estava em outro lugar. O seu coração pertencia à Portugal; a cada aniversário, Natal ou comemoração esdrúxula estávamos comendo o bacalhau, tomávamos sopa de caldo verde com muita, mas muita frequência mesmo. Azeite era consumido sem limites, mesmo quando a inflação disparava. Esses foram os pratos portugueses que ficaram na família, mesmo que a culinária portuguesa seja muito mais variada (assim como as variações de bacalhau).

 

Enquanto para mim, o país dos meus ancestrais me esperava na minha primeira viagem para a Europa, quando fui estudar um semestre na Escola Superior de Bremen, na Alemanha. Lisboa foi a minha primeira parada em terras europeias – e que parada!

 

Pois uma das minhas primas me hospedou naqueles dias ainda confusos e diferentes. Tudo que saía de sua boca me parecia um nó de rato; não entendia nadica de nada. Ela me levou em um castelo que não me lembro o nome, em diversos lugares em Lisboa que não me recordo. Mas o que me lembro perfeitamente era da gororoba que ela cozinhava (por isso não revelarei o nome da tal prima!) que de nada lembrava as delícias feitas pelas mãos tradicionais de minha avó Carminda. Ao contrário, ela me contava das conveniências de fazer purê de batata de pózinho que, segundo ela, ficava a mesma coisa que um purê feito de batatas fresquinhas. Eu entendo que seu dia era puxado e ela precisava fazer algo quick and dirty; mas logo eu percebi que ela, como portuguesa morando em Portugal, jamais poderia entender como comida é mais que uma forma de acalmar o estômago vazio.

 

Comida é família. Comida é amor. Comida é... uma forma de identidade.

 

Os 1001 sabores da imigração

Quando nos tornamos imigrantes, comida não é a primeira coisa que passa pela nossa cabeça. Primeiramente experimentamos a cozinha local, nos preocupamos em aprender a língua, a processar como as coisas funcionam nessa nova casa. O desejo pela comida da infância, da família, vem depois. Bate aquele aperto no peito quando lembramos da feijoada de domingo ou o acarajé num passeio pelo Pelourinho. Sentimos tanta falta de Guaraná Antarctica que compramos uma garrafa de um litro por cinco euros. A felicidade de achar mandioca num supermercado é superlativa, inigualável!

 

O contrário também acontece, paradoxalmente: quantas vezes estive no Brasil e senti falta dos pães da Alemanha? Dos iogurtes, do leite, da salsicha? Quando vemos nós criamos apego não só aos alimentos da infância, mas de lugares por onde passamos. Por lugares que passamos a chamar de casa, mesmo que não seja a nossa terra natal.

 

Após quase quinze anos na Alemanha, não tem como negar que meus hábitos foram se moldando ao meu novo ambiente. Além de comer muito mais batata que arroz e feijão (até porque meio quilo de feijão aqui custa uns cinco euros – então virou comida especial), eu fiquei mais alemanizada. Penso com os meus botões que finalmente meus colegas de escola teriam um motivo a mais para me apelidar de “alemoa”.

 

Mas isso não quer dizer que eu tenha esquecido daquelas comidinhas que tanto me remetem ao lugar onde nasci. Existe uma certa dualidade de amores no coração, contradições enormes, e uma fome, tanta fome, de provar coisas novas. Eu percebi que não conseguiria mais comer feijão todos os dias.

 

Mas não é sempre assim: meu cunhado e minha irmã, que moram na Austrália, comem feijão todo dia. Meus sogros, de origem coreana, gastam muito, mas muito dinheiro mesmo para manter a dieta que lhes é familiar. Comer algo que fora do tradicional é para um dia de folga, mas não é a comida de todos os dias. É dessa forma que eles se conectam à sua cultura, tão perto pelos sabores mas também tão longe...

 

Comida é o sustento de longas tradições, mas também a forma de manter identidade: não é à toa que imigrantes se apegam a sabores que remetem a família, amor, coisas e sentimentos conhecidos e bons. Mas a gente também se adapta, re-molda gostos porque provar algo distinto faz parte da experiência de viver no exterior. Então, mesmo que no dia-a-dia a gente cozinhe qualquer coisa prática para encher o bucho ou tenhamos a curiosidade de provar novos sabores, eventualmente bate o desejo de comer aquela feijoada, a moqueca, o acarajé, a coxinha de galinha com catupiry. Queremos resgatar esses sabores, mesmo que eles nem sejam 100% a mesma coisa, mesmo que a gente precise se conformar com versões criativas da comida brasileira, como feijoada com salsichas alemãs.

 

Principalmente quando percebemos que o status de imigrante passa de temporário para permanente, nós nos perguntamos: onde é casa? No Brasil, em Portugal ou na Alemanha? A verdade é que o conceito de casa desaparece, se torna algo abstrato, e de repente para mim casa se transformou em gostos do Brasil, um toque de Portugal e uma pitada de Alemanha, e isso se reflete na comida em que amamos e sentimos saudade. Nós sabemos que casa pode ser em qualquer lugar, mesmo que no fundo o amor pelo Brasil nunca saia do peito. E uma das coisas que nos aproximam da(s) nossa(s) casa(s) é sempre, e sempre será, comida.

 

A comida que une, a comida que desperta memórias, a comida que nos leva de volta à momentos inesquecíveis.

 

Comida é... uma forma de voltar para casa.

 


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