Trick or Treat - Uma história de Halloween

Existem certas celebrações no mundo que, mesmo não sendo parte de minha cultura, sempre tive vontade de celebrar. O Holi indiano, por exemplo, o festival das cores que comemora a chegada da primavera, sempre esteve na minha lista. Já Halloween... vixe, nem tanto! Sempre objeto de filmes hollywoodianos e sitcoms com um episódio extra dedicado às abóboras e sustos de mentira, sempre havia achado o Halloween algo americanizado demais, comercial demais. Estava de bom tamanho ver o dia das bruxas na telinha.

 

Até planejar uma viagem para ver minha família na Inglaterra num feriado prolongado – que cairia justamente no dia do Halloween (31 de outubro) – e meus preconceitos cairem por terra!

 

 

Com um menino nas costas que por algum motivo de Deus (ou Satã) se apaixonou pela festa, fomos bater nas portas de uma vizinhança abastada em Birmingham com a primeira frase em inglês aprendida por meu filho: trick or treat?

 

Antes de ir para Birmingham, num período conturbado de viagens, fui parar em Portland, nos EUA, onde comecei a me inspirar no espírito do Halloween. Era um começo de outubro ensolarado, as cores do outono já apareciam, principalmente o laranja no mesmo tom das abóboras. Lá em Portland passei na sorveteria Salt & Straw, badaladíssma com seus sabores inusitados, e é claro que tinha algo Halloween-ish por lá, algo chamado “Our October Spooktacular Menu” (um ótimo trocadilho com spooky – ou assustador – e spetacular). Mesmo sem aquele toque de sofisticação na boca, provei alguns sabores tipo Dracula’s Blood Pudding (um mistureba de chocolate vermelho – que me pareceu estranho – coentro fresco, pimenta, canela e brandy) e Freckle & Hyde Potion (um sorbet feito com chocolate escuro e sorvete de melão amargo com coco “cobertos de cinzas”). Acabei tomando um sorvetão de chocolate mesmo.

Menu de sorvetes horripilantes na Salt & Straw, Portland, Oregon
Menu de sorvetes horripilantes na Salt & Straw, Portland, Oregon

Mas algo me intrigava. Nunca tinha participado do Halloween e nos EUA a festa é um big deal. Minha irmã já tinha me falado que na Inglaterra estavam comemorando bastante o Halloween, então logo vi que era hora de abrir a cabeça. De supetão resolvi fazer uma festinha de criança lá em casa com o tema Halloween. Aproveitei meu dia de folga em Portland e passei no Target – uma loja de departamentos – e comprei uma cacetada de coisas cor de abóbora, inclusive Oreos (aquele biscoito que nós conhecemos no Brasil como negrito) em sabor pumpkin spice. Não coube mais nada na mala.

 

Algumas semanas depois embarcamos para Birmingham e tudo estava na cor da estação: laranjão cor de abóbora, das folhas restantes nas árvores até as decorações aboborísticas em casas, supermercados, restaurantes e tudo o mais. Além das abóboras com as mais interessantes expressões (inclusive do Donald Trump, recém eleito), lá estavam teias de aranha, morcegos, caveiras, esqueletos, bruxas, o escambau. Logo ao chegarmos, um dia ou dois após o aniversário de meu pai, comemoramos ao estilo Halloween. Minha irmã fez sanduíches com olhos e brigadeiros amassadinhos com perninhas, para o delírio das crianças (e não tanto dos adultos).

 

Um dia antes da grande data fomos para o Warwick Castle, provavelmente um dos castelos mais bonitos que já vi. Ao atravessarmos o grande portão, lá está o castelo em cima de uma colina, magnânimo. Até começarmos a explorar seus cantos e jardins. Nos ziguezagues e labirintos especialmente criados com Halloween em mente, lá estavam as caveiras gigantes, fumaça para dar aquele clima de “horror”, bruxas que saíam de cantos escuros para nos assombrar, até uma sepultura que dizia num trocadilho “rest in pieces” (descanse em pedaços, ao invés de “rest in peace”, ou descanse em paz). Ah, os trocadilhos halloweenísticos...

 

Impressões das comemorações de Halloween no castelo de Warwick, Warwickshire, Inglaterra

 

Era domingo e véspera de Halloween, então logicamente havia mais que labirintos pseudo-horripilantes. Num palco atores se desdobravam em musicais que arrancavam risadas da garotada. O castelo se dizia assombrado (The Haunted Castle) e promovia o seu Baile de Esqueletos. Mas o dia estava claro e de assombrado não tinha nada... resolvemos ir embora antes dos fantasmas aparecerem, enquanto eu me pegava pensando em como era engraçado ver essa americanização toda lá na Inglaterra.

 

Numa espécie de imperialismo ao contrário que agora os ingleses se sentem vítimas (ah, como o mundo dá voltas!), o Halloween fez um bate-volta entre o velho continente e o novo mundo. Diz a lenda que o Halloween (também conhecido como Allhalloween ou All Hallows' Eve) tem origem celta e pagã, como forma de comemorar os mortos, os santos, mártires, enfim, aqueles que se foram de forma honrosa. As antigas celebrações, mais conhecidas como Samhain, foram absorvidas pela Igreja Católica – apesar de hoje ser uma festa mais secular que religiosa. Depois de séculos, a celebração atravessou o Atlântico e se hospedou nos Estados Unidos, tomando a forma que conhecemos hoje. E agora o Halloween para exportação ganhou fama mundial, espalhando-se como teia de aranha por tudo quanto é lado.

 

Na Inglaterra não podia ser diferente. Minha irmã me conta que até alguns anos atrás não era esse auê todo. Mas como não deixar de celebrar um festival que, apesar das características meio dark, têm lá a sua diversão pré-inverno? E justamente na Inglaterra, um país mais internacional do que muitos desejam (vide o Brexit), é inevitável não cair de amores (ou terrores) pelo Halloween. E daí se mistura com o Day of the Dead mexicano, cada vez mais popularizado, e pronto: temos um festival que abstrai o horror da morte em algo mais mundano, mais divertido, menos sério.

 

No dia de Halloween (finalmente!), fizemos o nosso tour num bairro abastado de Birmingham e a primeira casa que nos recebeu fora justamente de estrangeiros: uma galera japonesa entrou em êxtase com o nosso pedido de “trick or treat”. Nós seguimos em frente, sempre batendo nas portas onde estrategicamente as abóboras com caretas praticamente diziam: yes, chegue mais, temos uns docinhos para vocês. Num desses breves encontros, uma senhora com um chapéu de bruxa enorme (a tradição de chapéus inglesa tinha alguma coisa a ver com isso) disse aos meninos para não comer muito doce de uma vez só, senão os dentes caem. As crianças, com uma mistura de medo e fascinação, assentiram com a cabeça para depois nos dizerem: “vou comer só um pouquinho, ok mamãe, para os meus dentes não caírem”. Oh, God.

 

No dia seguinte, com as sacolas em forma de abóboras de plástico, as crianças se divertiam com boooos delirantes enquanto eu planejava a festinha de Halloween lá em casa com direito a doces que fazem os dentes caírem, pumpkin spice e muitas, muitas abóboras cheias de caretas. Uma nova tradição familiar começou...  para o delírio das crianças e também dos adultos.

 

Um Halloween divertido e leve para vocês, onde quer que estejam!

 


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