Um mundo de sotaques

Nossos sotaques são como uma uma janela para nossas origens. Na grande maioria das vezes, nem pensamos em nossos sotaques, na forma como falamos. Ao mesmo tempo, existem sotaques que temos uma certa fascinação, como o inglês britânico, ou aqueles que achamos engraçado ou até ridículo. Quantas vezes meu sotaque de baiana foi alvo de chacota? Ou quantas vezes eu mesma fiz graça de outros sotaques, como o carioca?

 

Existiram momentos, principalmente aqueles em que eu estava em contato com pessoas de outros estados brasileiros, em que eu teria preferido anular meu sotaque. Talvez para não mais ouvir certos sussurros como “lá vem a baianada”. Uma amiga minha de Salvador, por exemplo, à primeira oportunidade de morar em São Paulo resolveu não mais falar com sotaque baiano e

 

expressões do baianês – e sua forma de falar virou um mistureba esquisito que ninguém conseguia distinguir a sua origem. Mas talvez foi a sua forma de se integrar, de fazer parte daquela nova comunidade.

 

 

Ao sairmos do lugar onde nascemos e crescemos, onde o nosso sotaque surgiu, notamos como a nossa forma de falar tem a capacidade de mudar. E às vezes queremos realmente mudar, às vezes mudamos sem perceber, às vezes o sotaque até se intensifica, como uma forma de nos apegarmos ao que nos é conhecido e bom.

 

Quando vim para a Alemanha, aos poucos meu sotaque de baiana foi sumindo. Não conscientemente, mas talvez porque eu não mais tinha aquele contato baiano tão intenso como antes. Talvez porque, no aprendizado de outra língua, intencionalmente eu procurava apagar meu sotaque – não mais só baiano, mas latino, português. E isso eu fazia porque eu queria falar direito, eu queria me integrar e não mais falar aquele alemão macarrônico. Porque toda vez que eu abria a boca para falar Deutsch eu me deparava com aquele olhar de alguém que não conseguia entender minhas palavras (ou será que fingia não entender?), mesmo que a construção gramatical e até a pronúncia estivessem corretas.

 

Assim, eu continuava tentando eliminar os traços do meu sotaque, mesmo que muitos dissessem como meu sotaque é uma graça. Eu queria ser compreendida, ponto. Eu não queria que fizessem piada com meu sotaque, mesmo que as pessoas que geralmente faziam tais brincadeiras tivessem um sotaque bizarro quando falavam em inglês. E eu via como um sotaque forte pode fazer com que pessoas realmente não te entendam: basta ouvir meus sogros falando alemão com sotaque coreano e eu preciso me concentrar muito, mas muito mesmo, para entendê-los.

 

Esse relacionamento com sotaques tem o seus altos e baixos. Hoje eu adoro o meu sotaque baiano, apesar de estar mais suave, e do baianês que eu carrego desde criança. Mas eu sei dos riscos de sotaques pesados, principalmente quando estamos aprendendo uma língua completamente diferente. E se existe um certo preconceito quando falava com sotaque baiano ao falar português, falar alemão com um sotaque indefinido pode se tornar sinônimo não só de piadinhas, mas de uma lacuna na comunicação.

 

Até eu perceber que eu posso falar a língua muito bem, me comunicar e me integrar, sem me perder nesse processo. O fato de morar na Alemanha permanentemente não significa que eu deva falar alemão sem sotaque. Aliás, se a língua é para todos, o sotaque, principalmente quando aprendemos uma nova língua, é só nosso. Cada sotaque é único, ao mesmo tempo que diz muito sobre quem somos, sobre a história do lugar onde viemos, sobre nossa identidade.

 

Mas o sotaque continua a ter um má reputação em certas ocasiões. Por exemplo, basta o tema biliguismo para crianças entrar em cena: muitos pais e mães falam com orgulho de como seus filhos falam o português sem sotaque. Que bom, eu penso, mas não deixo de perguntar: qual o problema de ter um pouco de sotaque?

 

Afinal, uma criança aprendendo o português como língua de herança, fora do Brasil, não é compreensível que haja sotaque?

 

No fim das contas, ter um sotaque, leve ou pesado, é algo pessoal. De certa forma, faz parte de quem nós somos, da nossa identidade. É lógico que ao longo da vida, durante uma longa estadia num lugar diferente, seja no Brasil, seja no exterior, nós mudamos, e nosso sotaque também. Pode-se minimizar seu sotaque para permitir que você se comunique claramente com outras pessoas em um idioma estrangeiro.

 

Apenas a questão da vergonha que algumas pessoas têm ao falarem com sotaque, isso é algo que não precisa. Então por mais que seja importante focar na integração em um estado brasileiro ou até de um país diferente, de aprender uma nova língua, falar com sotaque não é ruim, nem algo vergonhoso. Falar com nossos sotaques regionais é parte da linda diversidade do Brasil. Falar com sotaque num idioma estrangeiro é normal, e contanto que a pessoa não carregue no sotaque não necessariamente vai prejudicar a comunicação. Então por que essa mania de querer eliminar sotaques, como se estivéssemos fazendo uma limpeza linguística? Ou pior, como se houvesse um jeito certo e um jeito errado? Como se o mundo não fosse essa multiculturalidade maravilhosa?

 

Então por mais que seja a decisão de cada um de usar o seu sotaque ou eliminá-lo por completo, no meu caso eu decido pelo sotaque baiano, daquele jeito bem melodioso, que eu transmito para o alemão e o inglês sem medo de ser feliz. E se alguém não me entender, a gente vai ajeitando aqui, aprendendo acolá, mas sem que o sotaque vá completamente embora. Afinal, o sotaque é parte de mim, e eu não preciso mudar quem sou porque não moro mais na Bahia ou no Brasil. Sigo em frente com axé e oxente, sem vergonha e com muito orgulho.

 


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