A alma de Portugal em imagens

O que pensamos ao passarmos férias em Portugal: vamos subir e descer suas milhares de inclinações, comer sardinhas e bacalhau, trabalhar aquele bronze, conhecer os castelos e tomar vinhos fantásticos. Fizemos tudo isso, mas como em cada lugar, procurei ver além dos aspectos turísticos. Procurei captar imagens que são tão portuguesas como o Castelo de São Jorge, e que nos trazem a terrinha de forma mais real aos nossos olhos.

 

Nessa coletânea de fotos, você vai encontrar novas faces de Portugal. O diferente, o multicultural, o sujo, o desigual. Mas também único - e maravilhosamente especial.

 

Espero que gostem - ó pá!

1. Uma piscina em Alfama

Logo no nosso primeiro dia fomos passear no bairro tradicionalíssimo da Alfama. É lá onde nasceu o fado, e de onde a modernidade passa longe. É um bairro cheio de pequenos restaurantes, mas também residencial, onde muitas famílias mais humildes moram em edifícios centenários.

 

Enquanto ziguezagueávamos pelo labirinto do bairro, começamos a subir as muitas escadas, até nos depararmos com essa piscina improvisada entre intervalos da inclinação. A água estava limpa e circulava, pois estava conectada com diversos tubos vindos da casa mais próxima. Ao fundo, vê o mar brilhante, talvez a um, dois quilômetros de distância.

 

Não pude deixar de pensar se o nosso jeitinho brasileiro têm um quê português. Mas achei a ideia brilhante e imaginei como adultos e crianças devem se divertir em meio à escadaria com essa piscina improvisada no meio de um dos bairros mais tradicionais de Lisboa.


2. Ser alternativo em  Lisboa

Não resisti e tirei a foto dessa moça. No centro de Lisboa, vimos diversos personagens assim: cabelos coloridos, piercings, tatuagens, rastafáris. Vimos gente com roupas descoladas. Vimos pessoas assumindo estilos alternativos - sem medo de ser feliz.

 

Confesso que não esperava ver isso em Lisboa. Mas eu amei cada estilo diferente que passava pelo meu caminho. Porque talvez Portugal ainda seja um país tradicional em diversos aspectos, mas também celebra a diversidade de estilos e, porque não dizer, de cores e origens.

 


3. Uma moça Amish às margens do Tejo

Uma americana Amish*, em suas roupas tradicionais, fica minutos a fio encarando as marolas do rio Tejo, em Lisboa. Ela levanta a saia, numa tentativa inútil de não molhar o vestido, e observa a água. Eu a observo, curiosa. Tiro fotos dela, mas procuro manter seu anonimato.

 

Então vejo que ela não está sozinha. Uma outra mulher, nas mesmas vestes, está sentada na areia junto com duas crianças (que estão vestidas normalmente). Eu chego perto, e ela me dá um sorriso tímido. Até vermos que uma onda traz uma água viva para a areia, e o animal ainda está vivo. A areia está cheia de águas vivas, todas mortas, mas essa sobrevive.

 

Queremos devolver o bicho para a água, mas não podemos tocá-lo. Então ela pede para o menino pequeno usar sua pá para mover a água viva e jogá-la no mar.


Ele o faz, e nos aplaudimos. Mesmo com uma fé diferente da nossa, de uma forma distinta de viver, celebramos a vida. A moça sorri, dessa vez com orgulho. Sem timidez.

 

* A comunidade Amish nos EUA é um grupo tradicional cristão de origem germânica-suíça, cujas comunidades estão localizadas na Pensilvânia, Ohio e Indiana.

4. Poesia não basta

Nós ficamos hospedados na região de Martim Moniz em Lisboa, bem no centro. Apesar de muitas coisas belas, lá também vemos um lado menos fotografado de Lisboa. O lixo, os mendigos, as ruas esburacadas, muitos edifícios antigos em ruínas.

 

Em Lisboa existe uma coexistência forte entre o belo e o feio, o rico e o pobre. E apesar dessa cidade ter visto grandes poetas do calibre de Camões até Fernando Pessoa, nós sabemos que o graffitti "poesia não basta" num lugar de contrastes mostra que precisa-se de muito mais para diminuir desigualdades e a pobreza que, infelizmente, continuam a fazer de Portugal um dos países mais pobres da União Europeia. 

 

Encontramos a pichação diversas vezes ao redor da praça Martim Moniz, juntamente a pilhas de lixo.


5. A senhora que ama o fado

Após o nosso longo passeio pelo bairro da Alfama, paramos para jantar. Num dia quentíssimo, nos sentamos ao ar livre, de onde podíamos também ver um grupo de fado.

 

Diversas pessoas, clientes do restaurante ou não, paravam para escutar as músicas melancólicas. A senhora da foto também, da sua varanda.

 

Lá ela ficava, de pé, por minutos a fio. Notava-se sua fragilidade, mas ela persistia. Imagino que ela já deve ter visto os mesmo cantores, as mesmas canções, diversas vezes, pois seu apartmento é em frente ao restaurante. Mas ela ali fica, compenetrada no fado, nas palavras tristes, que talvez digam algo ao seu coração. 

 

Quando a música dá uma pausa, ela retorna ao apartamento. Mas assim que o guitarrista novamente dedilha uma nota, ela retorna. E fica até a canção terminar.


6. Conversas na praça

É noite na cidade medieval de Évora. O sol está abaixando aos poucos, e a praça principal começa a esvaziar. Esse trio de senhores conversa animadamente sobre algo que não entendo de imediato. Mas estão lá, rindo, discutindo, falando sabe lá do quê.

 

Em diversos momentos vi senhores e senhoras conversando em banquinhos de praça, às vezes até na porta de casa, com uma cadeira na rua e a porta aberta. Algumas se contentavam em ver a vida passar pela janela, como na cidade de Tavira, no Algarve. Uma senhora observava o movimento de sua janela.


Nós nos aproximamos, pois ela tinha um gato que meu filho queria ver de perto. Ela abriu um sorriso com a atenção inesperada, falou do gato e nos desejou um bom passeio.

7. O senegalês ganhando a vida na praia

Nós brasileiros estamos acostumados com pessoas vendendo todo tipo de coisa nas praias. No Algarve, vimos diversas pessoas vendendo óculos escuros, comida e toalhas de praia. Uma dessas pessoas é o senegalês da foto, que veio para Portugal de barco como refugiado. Ele sorriu quando quis comprar uma toalha de praia por parcos EUR 10 e falou em um português tímido.

 

Ele é um dos muitos africanos que se despedem de seu país em busca de uma vida melhor. Arriscam tudo. E assim chegam em Portugal e procuram sobreviver de alguma forma - e de forma honesta. 


Com o fim do verão, entretanto, me pergunto: como eles vão sobreviver em Portugal? Não sei, mas procuro comprar alguma coisa dessas pessoas sempre que posso.

8. As ruas fora da rota turística

Pode não ser parte do Portugal de cartão postal, pode até não ser bonito. Mas a vida real sempre acaba aparecendo nas arestas do turismo. Vimos uma infinidade de ruelas assim, ao pé de um lugar turístico.

 

Nelas vimos a simplicidade das roupas a secar no varal, plantas na entrada, bicicletas estacionadas e, de vez em quando, alguém na janela a ver a vizinhança ou a varrer a rua.


9. Criatividade à portuguesa

Portugal pode ser um lugar bastante tradicional, mas isso não quer dizer que não haja espaço para criatividade. E isso vimos em diversas ocasiões: da foca equilibrando uma típica janela arredondada em Faro até a decoração até uma espécie de água viva sobrevoando uma das praças da capital algarviana. Descobri um ateliê no segundo andar do mercado de Ferragudo, uma vila de pescadores, e uma janela que formava um computador em Portimão. E nesse auê de arte pública, nota-se um mural tomando toda uma casa, com o rosto de Cristiano Ronaldo bem ao centro. O grande jogador, é claro, não podia faltar.

 

 


10. Bolas de Berlim

Olha a bolinha... Olha a bola de Berlim!

 

Assim cantarola o vendedor das famigeradas bolas de Berlim, a versão portuguesa do Berliner, uma espécie de donut com recheio cremoso. Os portugueses têm um grande talento para a manufatura de doces, como os legendários pastéis de Belém, queijadas e travesseiros (um doce típico de Sintra).

 

Então além dos muitos imigrantes que vendem seus artigos na praia, as bolas de Berlim são uma surpreendente pedida para os veranistas.


11. Peixes e gaivotas

Nunca vi tantas gaivotas na minha vida. Talvez seja porque estávamos na vila de pescadores de Ferragudo, no Algarve. Lá, as aves se concentravam especialmente ao fim do dia, quando os pescadores tiravam os peixes de suas redes para o consumo nos restaurantes locais. As gaivotas pacientemente esperavam que os pescadores dessem mole com a pesca, e ficavam à espreita.

 

E assim os dias passavam lentamente, na doce rotina da vida simples. E como as gaivotas, eu esperava por uma migalha apenas dessa vida, para um dia partir, em busca de novas aventuras.



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