Adeus negatividade! Pequenas e preciosas coisas que aprendi a amar na Alemanha

Como imigrante na Alemanha eu já tive grandes momentos de negatividade. E muitos imigrantes que conheço aqui em Munique – brasileiros, americanos, e outras nacionalidades – passam por diversos momentos negativos num país que, de acordo com as estatísticas, parece perfeito.

      

Não é fácil se adaptar a um país diferente. Mas te digo uma coisa: nós tornamos esse processo ainda mais difícil quando vemos tudo sob a ótica da negatividade. Deixa eu dividir com vocês quatro coisas que antes eu achava irritantes na Alemanha - e porque eu aprendi a gostar delas.

      

1. O horário de fechamento do comércio

Vamos combinar que logo ao chegar do Brasil em Munique esse é um dos aspectos mais irritantes. Estamos acostumados a passear no shopping no domingo e fazer compras até as 22 horas (ou até mais tarde). Mas em Munique (e na Alemanha em geral), as lojas fecham às 8 da noite. O domingo – e também os feriados – são dias de descanso. As únicas coisas que abrem são restaurantes, cinemas, enfim.

 

Antigamente, ficava irritada com isso. Estava demasiadamente acostumada a poder comprar o que quiser no horário de minha conveniência. Mas um lado meu já conhecia as desvantagens da conveniência consumista exagerada: minha mãe trabalhava em loja de shopping também aos domingos. Eu praticamente não a via durante a semana; e no fim de semana também.

 

Me lembro também como eu trabalhava até tarde nos meus primeiros anos de adulta, podendo comprar o que quisesse na hora que quisesse. Hoje em dia? Se eu não me adequar, eu fico sem comida na geladeira!

 

Parando para pensar, não é bacana sair do trabalho mais cedo para resolver o que preciso? Não é legal ter um dia na semana para fazer algo legal em família ou ficar de preguiça em casa, ao invés de fazer o supermercado da semana? Eu tenho essa impressão que, por causa dessa limitação, a gente acaba se adequando e, mesmo sem perceber, criando um melhor equilíbrio entre obrigações do dia-a-dia e tempo para curtir a família, os amigos e a si mesmo.

 

 

2. Falta de espontaneidade

Ok, até hoje tenho certos problemas com a falta de espontaneidade dos alemães, aquela obsessão que tudo tem que funcionar como um relojinho. Aquele planejamento exagerado... cruz credo! Mas existe um porquê da eficiência alemã: é por causa dessa obsessão que o país é desenvolvido do jeito que é. Os alemães exageram? Sim. Mas quem quer viver aqui sem arrancar os cabelos precisa entender que o desenvolvimento do país está diretamente vinculado à mentalidade de ordem, eficiência, cumprimento das regras, planejamento e organização.

 

Quando começamos a entender o porquê das coisas, a nossa atitude tem a capacidade de mudar. Isso não quer dizer que precisamos mudar a nossa essência, nem achar tudo o que os alemães fazem lindo e maravilhoso. Mas ao invés de amaldiçoar os alemães pela sua falta de jogo de cintura, de flexibilidade e espontaneidade, hoje em dia eu procuro dançar conforme a música.

 

As pessoas precisam de antecedência para se organizar? Tranquilo, eu marco a festinha de aniversário de meu filho pelo menos um mês antes. Combinou-se um encontro com alguém? Faço um esforço extra para chegar pontualmente. E por aí vai.

 

Por que eu aprendia gostar dessa “falta de espontaneidade”? Porque é assim que eu evito surpresas desagradáveis e sei o que esperar das regrinhas tão preciosas por aqui. É dar um pouco de previsibilidade na vida, o que pode não ser muito sexy, mas que te dá uma tranquilidade muito grande.

 

 

3. A instabilidade das quatro estações

tempo em Salvador é praticamente o mesmo o ano inteiro. Então a completa maluquice do tempo alemão me deixava louca. Gelo e chuvas intermináveis no inverno que dura uns seis meses. Tempo completamente temperamental no verão. O tempo na Alemanha é chato, muito chato mesmo.

 

O jeito foi aprender a lidar com isso. Não é necessariamente algo que eu gosto, mas algo que eu aceitei dentro de mim.

 

Lidar com o inverno loooooongo foi o primeiro passo. Eu ainda não sou fã do inverno, mas comecei a gostar de coisas que pertencem à estação. Por exemplo, curtir e muito os mercados de Natal, a manufatura de biscoitos natalinos, os prazeres de uma refeição pesadíssima (e engordativa), chocolate quente, longos banhos de banheira, ler um bom livro toda enroladinha numa coberta, ir ao cinema e teatro com mais frequência... enfim.

 

Além do inverno, a instabilidade das estações também requer muita paciência. Eu checo a previsão do tempo TODOS OS DIAS (pensem numa pessoa obcecada com o tempo!), mas principalmente eu – assim como os alemães – aproveitam o máximo do sol e do calor enquanto dá. Bastou o sol sair que eu estou fora de casa. E assim que a chuva cai, eu procuro programas que não são feitos ao ar livre. E tudo bem.

 

 

4. A forma direta e super-honesta de se expressar

Um dos maiores clichés alemães é a forma direta de se expressar. Em alguns casos, a honestidade é tanta, mas tanta mesmo, que essa característica acaba sendo confundida com grosseria. Mas será que é grosseria mesmo?

 

Já passei por alguns apertos por causa dessa característica, e também me irritei muito com isso. Mesmo com o passar dos anos, cá estava eu reclamando de como os alemães são rudes. Mas aos poucos, sem nem perceber, eu fui me acostumando com isso. Talvez eu tenha começado a apreciar essa "grosseria" quando ia para o Brasil e as pessoas ficavam cheias de dedos comigo, criticando a minha forma de viver com um monte de floreios e com um sorriso no rosto. Eu fui aos poucos percebendo que gostava mais da franqueza direta. Não que uma opinião honesta às vezes não me machuque, não é isso. Existem momentos de discurso direto que me chocam, principalmente porque o tom de voz dos alemães é mais sério. Mas eu me acostumei com o jeito direto de ser dos alemães – e passei a gostar. Isso porque quando alguém diz que gostou do meu trabalho, é porque essa pessoa gostou do meu trabalho. Quando um amigo discorda de mim, é porque ele, como meu amigo, não vai passar a mão na minha cabeça. É melhor falar a verdade, sem floreios, sem ambiguidades.

 

Às vezes eu acho que os alemães exageram na dose, que às vezes poderiam ter um pouquinho mais de tato. Existem situações que beiram a “grosseria”, mas é a minha percepção, não a deles. Mas no geral, no geralzão mesmo, eu aprendi a gostar dessa mania de falar direta e honestamente. Eu prefiro pensar que ao invés de grosseiros, os alemães têm uma quê de verdadeiro e autêntico; e isso eu acho incrível.

 

Para concluir...

... sempre que vamos para um lugar diferente nós temos a tendência a ver aspectos negativos. Mas coisas que consideramos ruins podem se tornar coisas boas. Às vezes é só dar tempo ao tempo. Às vezes é parar de ver as atitudes de uma pessoa de uma cultura diferente sob a sua ótica. Coloque-se no lugar dessa pessoa e tente ver a atitude dele sob esse olhar. Os alemães não se comportarão como brasileiros; eu precisei aceitar isso para conseguir ir em frente.

 

E para que a gente consiga transformar coisas que consideramos desvantagens  em vantagens, o essencial é deixar o negativismo de lado. Atitude positiva faz a diferença... e como!


Gostou do artigo? Siga a Baiana da Baviera!


Já conhece a obra Ventos Nômades?

 

Viaje pelo mundo com dez contos que cruzam continentes, exploram o choque de culturas e novos horizontes além das fronteiras tupiniquins.

 

Você largará tudo em busca do sentido da vida com Guilherme até chegar ao mais antigo templo do sudeste asiático. Com uma americana à beira da morte, receberá um sopro de vida na ilha grega de Creta. E se embrenhará junto com dois amigos nos segredos judaicos de Praga.

 

Ventos Nômades é um convite a viajar pelo mundo!