Os Grandes Descobrimentos

Vir para Portugal nas férias ia além da promessa de longos dias na praia a comer sardinhas. Se por fora eu viria apenas para passear, relaxar, desintoxicar até, algo dentro de mim borbulhava. Já tinha tempo que fantasiava um lugar que me fosse mais familiar que a Alemanha, um lugar para chamar de meu, onde eu pudesse falar minha língua, comer comidas de infância, deixar meu coração se levar pelo parecido das coisas: das paisagens, da arquitetura, dos jeitos.

 

E tanta coisa em Lisboa, em Portugal como um todo, me fez sentir em casa, uma casa que não é o Brasil, obviamente, mas que estava de bom tamanho para alguém que, apesar de caminhar a estrada da saudade de vez em quando, não quer retornar ao Brasil tão cedo.

 

Portugal, eu já sabia, é para nós uma interseção de mundos, um lugar com tanta coisa parecida com o Brasil mas do outro lado do oceano, o começo da Europa (ou o término do velho continente, de acordo com outra perspectiva). Não é à toa que tantos brasileiros, tantos mesmo, estão se “refugiando” na terrinha.

 

Mas eu já moro na Europa, bem no coração desse continente fascinante, e não estou a fugir de um país em crise ou violento. Moro num lugar tranquilo, tenho uma vida sem grandes altos e baixos. Meu lado racional me diz que está de bom tamanho, que estou num lugar onde posso caminhar à noite, onde existe segurança e estabilidade em diversos sentidos. O lado emocional, entretanto, teima em bagunçar essa análise cerebral. Às vezes, principalmente em momentos de irritação, existe um lado meu que pede algo novo mas também familiar, um lugar que eu possa, finalmente, chamar de casa.

 

E por mais que a cabeça diga como a Alemanha é um lugar bom e que o corpo esteja presente, é o coração que sonha com essa familiaridade perdida. Esse sentimento contraditório paira como um fantasma. Às vezes dá as caras, às vezes desaparece sem deixar vestígios, mas está sempre me assombrando.

 

Então eu sonhava acordada com Lisboa, que talvez eu pudesse deixar a Alemanha para trás qualquer dia desses em busca dessa familiaridade. Até porque, sendo filha de português e cidadã da terrinha, uma parte de mim está invariavelmente nesse lugar. O sangue português corre nas veias, com uma boa dose de azeite. E como sabemos, como tem poder o sangue, a língua, as comidas de outrora, o ar cheio de maresia...

 

Fui para Portugal com o coração descompassado. Lá me senti em casa de certa forma, falei minha língua com o deleite de quem não precisa se concentrar para achar as palavras, comi os sabores que minha avó cozinhava. Que maravilha foi esse reencontro de raízes mesmo que a meio mundo do Brasil, perto apesar de longe. Um equilíbrio de mundos; me parecia buscar isso por tanto tempo e que finalmente havia encontrado.

 

Meu amor por Portugal ficou mais sólido com o passar dos dias, mas isso não quer dizer que via seu lado menos belo. Casas abandonadas, muitos idosos mendigando, pessoas dormindo na rua. As pessoas com quem conversei me contavam suas dificuldades, dos baixos salários, da juventude sem emprego. Mas também vi esperança, como a cabeleleira gaúcha que me contou como está feliz em Portimão após deixar o estresse e a violência de Porto Alegre para trás.

 

Com o passar dos dias, pensando com os meus botões no Algarve, eu ponderava. Percebi que poderia fazer de Portugal a minha casa, mas que casa eu já tinha. O lugar onde está o racional das coisas, a Alemanha, me dá o que na terrinha eu teria que começar de novo: as pessoas que importam e que fazem diferença na minha vida. Talvez, eu pensei, exceto pelo sol e sal, a Alemanha já me dá uma casa, pelo menos por ora.

 

Por mais que existam amigos e familiares no Brasil de quem sinto falta, eu sei que a distância e a separação de tantos anos esfriou relacionamentos. Eu não faço mais parte da rotina dessas pessoas, e vice-versa, e por mais que exista amor, amizade, até admiração, foi-se o contato, talvez a afinidade, pois eu e eles nos distanciamos além dos quilômetros. Seria maravilhoso me reconectar com essas pessoas, mas sem a expectativa de voltar, a cada ano que se passa o distanciamento aumenta. É inevitável.

 

Percebo que, mesmo apaixonada com o oceano à minha frente, sinto falta de pessoas hoje fazem parte do meu cotidiano, que entendem esse coração dividido porque o mesmo ocorre com elas e nós entendemos a experiência de não pertencimento.

 

Em Lisboa, que talvez um dia eu construa uma casa, eu redescobri aquela verdade que é óbvia e escondida ao mesmo tempo, porque me recusava a ver. Porque percebi que posso fazer de qualquer lugar a minha casa, contanto que lá estejam pessoas que importam na minha vida. Nem tudo será de acordo com as minhas expectativas - e nem precisa ser para sempre.

 

Além disso, vejo que nem sempre eu tentei fazer da Alemanha a minha casa. É como se eu sempre achasse que meu tempo na Alemanha seria temporário, porque afinal no ano que vem eu poderia estar em outro lugar, então para que se dedicar ao idioma? Para que ter o trabalho árduo de me adaptar a uma cultura tão distinta da minha? Por que gastar tempo tentando formar amizades duradouras, principalmente com os "frios" alemães? A verdade é que o temporário pode se tornar permanente, mesmo que não seja para sempre. E então me pergunto se fiquei marcando tempo com o coração em outro lugar, procurando defeitos para o lugar onde estou agora, fazendo planos mirabolantes para ir embora? Quantas eu genuinamente tentei que a Alemanha fosse minha casa, não só na minha cabeça mas no meu coração?

 

Casa se constrói, casa é onde escolho estar e casa pode mudar de lugar; eis o meu grande, pessoal descobrimento. E eu opto que minha casa seja na Alemanha por ora. Talvez só assim, com essa aceitação, eu possa fazer desse lugar a minha tão sonhada casa.

 

Então minha amada Lisboa, quem sabe um dia...

 


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