O país dos pessimistas

O sol inclemente pode mascarar o verdadeiro humor dos alemães. Nos lagos, piscinas e Biergartens os alemães se deixam bronzear, sorriem com facilidade apesar das constantes reclamações com a temperatura batendo recordes. Mas mesmo no clímax do verão, uma sombra paira sobre os alemães. Basta ir além do small talk para notar que alguns nativos estão incertos quanto ao futuro do país. É claro, estatisticamente a Alemanha está bombando, com uma economia forte e o desemprego baixíssimo, mas esses fatos nada fazem para desfazer o muxoxo de muitos. De crises políticas até o desempenho humilhante da Copa do Mundo, passando pelo mais recente drama do jogador Mesut Özil com uma foto sorridente ao lado do pseudo-ditador turco Recep Tayyip Erdoğan, discute-se na mídia problemas que no Brasil considerariam-se como meras irritações.

 

Não que a Alemanha não tenha problemas - longe disso. De fato, existem coisas para reclamar, como o aumento absurdo de aluguéis, o declínio no sistema de saúde, a falta de creches e escolas devido à falta de educadores. Existem problemas que tornaram-se críticos com o boom alemão; o que mais recebo são mensagens de pessoas que querem desesperadamente morar na Alemanha, mesmo sem nunca ter pisado os pés no país e sem falar uma palavra do idioma. Existem consequências negativas do sucesso econômico do país, obviamente. Mas é só no negativo que muitas pessoas se concentram. Não é à toa que a famosa palavra Weltschmerz (poderia ser traduzida como “dor do mundo”).  

 

Então por mais que eu tenha verdadeira admiração pelos alemães e goste muito de morar aqui, me pergunto se os alemães são pessimistas. Se é uma parte inerente da cultura que, mesmo beirando o estereótipo, tem um quê de verdade.

 

Não sou só eu com esse questionamento: a coluna da revista The Economist Cheer up, Deutschland (Anime-se, Alemanha) mencionou essa propensão ao pessimismo, à ordem beirando a neurose, pontos culturais que se mostram em obras da literatura até a obsessão por silêncio e por regras. Acrescentaria a eterna culpa do nazismo que com certeza não ajuda a levantar o astral.

 


Recentemente a Alemanha parece estar numa cruzada para desmerecer seu próprio sucesso: a derrocada da seleção alemã era uma premonição para a crise que o país passa. Dando uma mãozinha para o sensacionalismo, a revista Der Spiegel estampou após a Copa na capa a manchete “Alemanha em Crise: era uma vez um país forte”. A reportagem diagnosticou o país com uma timidez e complacência no time de futebol alemão e no país como um todo.

 

No âmbito mais pessoal, o pessimismo alemão é algo que vejo em coisas grandes e pequenas, todos os dias. Mas te dou um exemplo: há muitos anos atrás, eu e duas colegas de trabalho estávamos no aeroporto. Pegamos um táxi para chegarmos lá, pois justamente nesse dia teve uma greve do transporte público. Ambas reclamavam; achavam um absurdo tudo parar (não é esse o objetivo de uma greve?), diziam que Munique estava se deteriorando muito (muito antes da crise dos refugiados, hein), etc. Eu permaneci calada durante um bom tempo, até eventualmente dizer:

 

"Vocês sabem que uma vez lá no Brasil eu fiquei em casa quatro dias por causa de uma greve da polícia? Se a gente saísse de casa, podíamos ser assassinados. Não é um absurdo?"

 

Elas calaram a boca e eu continuei lendo minha revista de fofoca.

 

Essa mania de reclamar pode ser positivo – é o que mantém o alto padrão do que encontramos no transporte, na qualidade de vida, etc. Se os alemães se resignassem como nós brasileiros, talvez a Alemanha não fosse o país forte que é. Entretanto, mesmo que no racional todos saibam que perfeição não existe, os alemães vivem na eterna procura do perfeito, pontual, organizado, altamente planejado. Pequenas irritações podem desencadear grandes reações negativas, uma espécie de Scheisse (merda) ao cubo. Às vezes tenho a sensação que os alemães criaram uma falta de jogo de cintura para lidar com pequenos atrasos, uma wi-fi mais lenta que o normal, um restaurante que demora em servir, enfim, coisas do dia a dia que simplesmente acontecem.

 

É claro, nem todos são assim. Existem pessoas muito alto astral na Alemanha, pessoas de bem com a vida que não acham que o país é uma catástrofe iminente. Mas no geral, no geralzão mesmo (ou seja, generalizando), reclamar é praticamente um esporte nacional. Aliás muitos deles dirão que não são pessimistas, mas realistas, e que veem como as coisas realmente são. É difícil dizer, mas que há um certo tom mais sombrio na forma de ver as coisas, isso tem.

 

Morando aqui há muito tempo, é inevitável deixar-se contaminar com esse tom mais crítico. Às vezes queremos dizer que não é bem assim, que afirmar que os alemães são pessimistas é uma generalização grosseira, um clichê. Talvez. Mas eu vivo aqui há muito tempo, e os exemplos do cotidiano me dão a sensação de que tudo tem que acontecer como num reloginho, tudo programado, sem possibilidade de nada dar errado. Quem mora na Alemanha sabe que nós nos acostumamos com um padrão muito alto de vida e portanto é tão fácil se irritar por bobagem. Por bobagem mesmo! Quando percebemos, lá estamos nós reclamando dos atrasos do trem ou do calor de trinta graus. Nos pegamos nas mesmas reclamações... daí precisamos lembrar da resiliência do brasileiro, da perspectiva da realidade muito mais bagunçada e sem esse rigor todo, e recriar a a capacidade de passar por cima dessas meras irritações sem afetar o humor. Afinal, é só com otimismo que podemos vencer as barreiras do idioma, o longo inverno - e as críticas incessantes de um país de pessimistas.

 


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