A beleza da imperfeição

Quem deseja um corpo sarado – e perfeito? Quem quer ser a mãe perfeita, que amamenta, fica em casa com as crianças e está sempre com um sorriso no rosto? Ou o pai perfeito, que brinca com o filho no chão, dá banho e ainda ajuda nos deveres escolares quando volta do trabalho? Quem deseja ser o mega profissional que dá conta da carreira e da família? Quem logo se aborrece quando não é brindado com um serviço perfeito num restaurante ou loja? Quem adora reclamar quando o choro de uma criança atrapalhou o seu descanso? Quem quer conversar com pessoas com opiniões distintas das suas?

 

Nós buscamos a perfeição constantemente. Mas quando algo é imperfeito, simplesmente por não convir com os nossos altos padrões de qualidade, a reação da grande maioria é de repulsa, aborrecimento, preconceito ou julgamentos rápidos.

 

Nessa eterna – e fadada – busca pela perfeição, nós esquecemos que é a imperfeição e o diferente que estão por aí. Nós acabamos criando uma barreira com o que consideramos “imperfeito”: uma cultura ou religião distinta, uma pessoa acima do peso considerado ideal, uma criança com síndrome de down, alguém com uma afiliação política diferente da nossa. E, com essa barreira, geralmente vem a falta de empatia, impedindo-nos de enxergar o mundo a partir da ótica do outro.

 

Eu conversei com a Carla Scheidegger, uma das fundadoras da organização social Carlotas que trabalha com empatia em escolas e empresas, para entender melhor por que a empatia é tão importante nesse mundo lindamente imperfeito.

 

O diferente não é banal

Quando falamos que pessoas são diferentes umas das outras é como se disséssemos algo banal, que todos entenderiam sem pestanejar. Entretanto, por mais que em teoria nós saibamos dessa verdade, nem sempre somos capazes de respeitar diferentes culturas, opiniões e formas de pensar na vida prática. Parece que chegamos ao pico dos talibãs de opiniões sem qualquer tolerância para quem pense diferente. Em tempos em que podemos livremente expressar nossas opiniões através de mídias sociais, empatia quase parece uma palavra fora de moda, uma atitude do passado.

 

Por mais que grandes progressos tenham acontecido no combate ao racismo (apesar de ainda existir), na tolerância com relações homoafetivas, mulheres no trabalho, dentre outros tipos de discriminação, ainda hoje nós temos grande dificuldade em entendermos o outro, muitas vezes em temas controversos (como o aborto) e da política (quem é a favor ou contra Lula) até coisas do cotidiano (como a amamentação). Nós desenvolvemos opinião para tudo e as defendemos com unhas e dentes. Quantas vezes nós damos o braço a torcer no pedestal onde colocamos nossas opiniões? Quase nunca.

 

Mal notamos como nossas opiniões nos cegam, nos impedindo de ver o mundo através da ótica do outro.

 

Nesse mundo cada vez mais polarizado, nós até entendemos o conceito de empatia, mas temos grande dificuldade em aplicá-lo no dia-a-dia. Nos irritamos quando alguém discorda das nossas ideias, logo partindo para a defensiva. Julgamos pessoas constantemente, mesmo sem conhecê-las (viva o Facebook...). Estamos, mesmo sem perceber, nutrindo um sistema cada vez mais tóxico que inibe discussões sinceras, ampilifica o bullying e a polarização de ideias.

 

Ao conversar com a Carla Scheidegger, essas atitudes não-empáticas que eu nem havia percebido fazer, como um comentário mais forte aqui ou acolá nas mídias sociais, logo me vieram em mente. No geral, a maioria das pessoas procura ser empática no nível consciente, mas metem os pés pelas mãos com atitudes impulsivas que acabam sendo julgadoras ou malvadas mesmo. Isso acontece quando pessoas discordam de algo e não querem dar o braço a torcer; de uma discordância para xingamentos é um pulo, bullying ou ainda pior. Por isso, quando a Carla me disse que “empatia não é concordar; é entender ”, isso abriu a minha cabeça.

 

Compreendi que empatia é sentar e conversar. É tirar o radicalismo de opiniões. É entender que somos todos imperfeitos e aceitar que assim é.

 

Mas como é difícil, não é mesmo?

 

Por isso, devo dizer que fiquei encantada com a abordagem da organização Carlotas, cujos projetos em escolas e empresas focam no reconhecimento da “imperfeição” não só nos outros como em nós mesmos para lidar com a diversidade de culturas, religiões, opiniões, etc. E desse conhecimento, desenvolver a empatia e a tolerância.

 

A imperfeição pela ótica das crianças

Crianças são como reflexos de nós mesmos. Elas absorvem o que vêem em casa e levam para o mundo. Elas imitam nossos gestos e comportamentos, nossa busca pela perfeição, assim como a nossa forma de pensar e preconceitos (às vezes inconscientes, às vezes não). Se em cada criança existe inocência e sinceridade, também existe uma crueldade crua que muitas vezes reflete as nossas fraquezas. Quando temos um comportamento onde falta empatia isso é transmitido para nossos filhos, que pode se desenvolver em diversas formas: da incapacidade de lidar com emoções (muito comum em meninos, geralmente criados para serem “machos”) até o bullying.

 

Como as crianças veem o mundo e a imperfeição? Exemplos do trabalho de Carlotas em escolas da Baviera.

Promover empatia é primeiramente apresentar o mundo inerentemente imperfeito onde nós vivemos, disse a Carla. A compreensão de que somos todos imperfeitos e diferentes é o primeiro passo, pois muitas crianças (assim como nós) vivem em suas bolhas, convivendo com pessoas da mesma classe social, da mesma cor e cultura, com as mesmas opiniões. Ao sermos inseridos nesse mundo imperfeito, procuramos entender melhor o outro, desenvolvendo a empatia no processo.

 

O trabalho da organização social Carlotas trabalha justamente nesse conceito em escolas no Brasil e na Alemanha. O primeiro passo para crianças é uma viagem para o mundo de Carlotas, um lugar onde diversidade de todos os tipos existe – e onde ninguém é perfeito. Através de atividades lúdicas, diálogos, discussões e leituras, as crianças conseguem perceber a diversidade de pessoas e como é importante desenvolver a empatia e o autoconhecimento.

 

O papel dos pais e educadores

O papel dos pais é fundamental no desenvolvimento da empatia. Primeiramente, procurar trazer à tona a diversidade de pessoas e opiniões e encorajar a empatia na criança, como ajudar um colega que esteja isolado e sem amigos e procurar momentos em que os filhos possam trazer alegria a alguém de formas simples. Por exemplo, encorajar a criança a doar um brinquedo, a chamar um coleguinha para brincar, enfim.

 

Além disso, é importante para os pais procurarem a empatia ao lidar com seus filhos. Num mundo que pressiona pessoas a serem mais rápidas e impacientes, muitos pais e mães transmitem essa pressa acirrada para os seus filhos, que devem se vestir mais rápido, não podem fazer birra, não devem chorar. Mas nós sabemos – no nível consciente – que crianças têm um outro ritmo e que, ao notarem essa tremenda pressão, acabam criando birras, choros que nós consideramos “sem motivo”. Mas será que é “sem motivo” mesmo?

 

Novamente me lembro que empatia é procurar entender. É entender não só o motivo da birra, mas entender como devemos lidar com isso. Então, como pais e mães que desejam transmitir empatia para nossos filhos, devemos primeiramente reconhecer nossas próprias fraquezas e aprender com as crianças no processo.

 

Para educadores, a importância da empatia não deve ser subestimada. Quantas vezes nos deparamos com educadores que não sabem lidar com a diversidade de culturas, raças, comportamentos? Em Munique assim como em outras cidades grandes na Alemanha que estão recebendo muitos imigrantes (não só refugiados), existe uma demanda enorme para o tema da empatia, para entender como lidar com a diversidade de culturas, por exemplo.

 

O mundo de Carlotas

A organização social Carlotas nasceu em 2011 com a ideia de abordar a noção da imperfeição para que crianças e adultos desenvolvam inteligência socioemocional e empatia. Tudo começou com a Carla Douglass, uma artista cujas obras focam na imperfeição, quando foi convidada a falar numa escola sobre arte. Porque sua obra não é considerada “perfeita”, a discussão sobre arte tomou um rumo inesperado. Na discussão do que é perfeito, crianças entenderam que perfeição não existe e passaram a dividir situações familiares e pessoais que refletiam a imperfeição. Um dos alunos, chamado Eric, não mais falava desde que havia sido colocado sob a atenção do Conselho Tutelar da Família. Ao perceber que ninguém é perfeito – nem seus colegas, nem ele, nem sua família – Eric recomeçou a interagir com o mundo nesse momento. Assim nasceu o mundo repleto de diversidade e lindamente imperfeito de Carlotas.

 

Impressões do trabalho de Carlotas no Brasil e na Alemanha para autoconhecimento da imperfeição, aceitação, tolerância e empatia.

 

Devido à necessidade evidente de empatia, Carlotas vem acumulando conquistas. No Brasil, a organização já atingiu quase 4.000 alunos e alunas de escolas públicas, 2.500 educadores e mais de cinco mil funcionários em diversas empresas. Na Alemanha, a Carlotas levou um prêmio da Fundação BMW em 2015 e mais recentemente ficou entre os finalistas da competição social Investment Ready Program, promovida pelo Impact Hub em parceria com a Allianz. Até para o Estadão essas mulheres poderosas já deram entrevista! Para o futuro próximo, a organização se dedicará não somente a levar o seu mundo de Carlotas para adultos e crianças, como também para professores, por meio de um projeto em parceria com a Faber Castell, iniciada recentemente que atigirá 2.000 educadores me todo Brasil.

 

A conversa com a Carla Scheidegger foi uma maravilhosa surpresa. Através desse projeto, a relevância da empatia se tornou muito mais concreta para mim, me fez pensar em comportamentos meus que poderiam ser mudados não só para ter empatia por outras pessoas, como para educar meu filho de uma forma empática. Com certeza esse foi um dos momentos que abriu meus olhos, me fazendo lembrar que o mundo é muito mais bacana nas nossas imperfeições. Afinal, se perfeição existisse, não seria a nossa vida monótona e sem-graça?

 


Da esquerda para a direita: Carla Douglass, Fabiana Gutierrez e Carla Scheidegger
Da esquerda para a direita: Carla Douglass, Fabiana Gutierrez e Carla Scheidegger

Sobre Carlotas

 

Carlotas é uma empresa com propósito social que desafia o entendimento de “normalidade”, promove a diversidade e expande o potencial de conexão das pessoas. Carlotas oferece programas de desenvolvimento humano, baseados numa abordagem original que explora arte, ludicidade e o Ciclo de Aprendizagem Vivencial.

Mais informações em www.carlotas.org

 



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