Brasil brasileiro no futebol – e na literatura

Não só de futebol vive o Homem. Mesmo em tempos de Copa,  leitores inveterados como eu não largam um bom livro. E para comemorar cada gol e vitória, por que não explorar a linda literatura brasileira?

 

Muita gente tem uma experiência negativa com livros brasileiros desde cedo, muitas vezes por causa das ditas obras “cultas” que estudamos na escola. Mas a literatura brasileira é bem mais que Machado de Assis ou Lima Barreto; a literatura contemporânea brasileira tem bastante variedade e agrada a todos os gostos. Vamos dar uma goleada no preconceito contra livros de autores brasileiros e começar a explorar por aí? Tenho algumas dicas para você!

 

Policial: O Sorriso da Hiena, de Gustavo Ávila

Eu não sou muito de ler livros policiais, mas esse é de tirar o chapéu e deixa muito best-seller internacional no chinelo! “O Sorriso da Hiena” conta a história de um assassino que, traumatizado com o assassinato dos pais, meticulosamente escolhe famílias para atacar, mata os pais mas sempre deixa a criança viva. Que implicações ocorrerão com essas crianças traumatizadas?

 

Um psicólogo infantil começa a acompanhá-las e se vê envolvido nessa trama macabra. A cada novo assassinato, investigadores chegam mais perto, sem perceber que o psicólogo, supostamente ajudando a investigação, envolve-se no caso, mesmo contra sua vontade. 

 

Um livro sobre demônios escondidos dentro de nós e a forma como nossos interesses podem nos corromper muito além do que imaginamos, essa obra livro vai além de uma investigação policial e nos mostra como o mal existe em cada um de nós.

 

Poético: Hanói, de Adriana Lisboa

Dois jovens de origens distintas, Alex e David, encontram-se num supermercado asiático, desenrolando um breve relacionamento que culmina na morte certa de David, diagnosticado com um câncer terminal aos trinta e dois anos. Sem família, David acha melhor morrer sozinho, minimizando sofrimento de pessoas próximas, até que conhece Alex. Ao notar a jovem caixa de supermercado, suas resoluções altruístas diminuem a cada encontro, a cada conversa trocada com Alex.

 

A história do encontro de Alex, de descendência vietnamita, e David, filho de imigrantes ilegais de pai brasileiro e mãe mexicana, é simples e, pode-se dizer, até comum. Ambos levam vidas ordinárias, com o peso de obrigações, relacionamentos falidos e esperanças pisadas com muitas decepções.

 

E é nisso que há a mais pura beleza desse romance: a história em si não apresenta nada de extravagante, o final é previsível até, mas a forma como é escrita, aos poucos revelando os mistérios de seus personagens mostra como a jornada de ler um livro pode ser prazerosa através de uma escrita elegante e sensível. Hanói é uma obra que faz o seu coração bater mais forte com uma história simples e emocionante, e que vale a pena ser contada.

 

Independente: Nova Jaguaruara, de Mauro Lopes

Nova Jaguaruara conta a história de uma cidade – a homenageada do título – que detém mistérios inexplicáveis. Há décadas que toda meia-noite um corte de eletricidade acontece que ninguém consegue explicar. Mitos de outros tempos deixam a população em constante estado de alerta e medo; ninguém é autorizado a sair de casa após a meia-noite, pois é na calada da noite quando pessoas desaparecem. Nesse mistério, chega uma equipe da companhia de eletricidade para explorar o local e, inevitavelmente, caem na teia de aranha desses segredos que nenhum forasteiro acredita.

 

Na épica batalha entre o bem e o mal, com direito a confrontos diretos com o diabo, o autor mostra como o equilíbrio entre bondade e maldade, morte e vida, são necessários para o ciclo natural das coisas.

Nessa obra fascinante, o autor apresenta a tentação, a importância de fazer o bem, o cinza de nossos sentimentos e princípios, o bem e mal que estão dentro de cada um de nós. Intrigante, impossível de colocar de lado, Nova Jaguaruara é o meu preferido dessa nova safra de livros independentes.

 

Ficção surpreendente: Jantar Secreto, de Raphael Montes

Um grupo de jovens do interior do Paraná tem o sonho de viver no Rio de Janeiro de forma relavtivamente glamourosa. Mas durante uma das maiores crises do nosso país e sem perspectivas, com o dinheiro curto e o aluguel do lindo apartamento vencido, eles começam a organizar jantares secretos que tem um ingrediente inusitado: carne humana.

 

Divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca, que não se importa nem um pouco da proveniência das carnes, os quatro amigos se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles.

 

De questões filosóficas quanto ao consumo de carne a uma história super original e cativante, essa obra mostra como a literatura brasileira é capaz de se reinventar. A obra de Raphael Montes é imperdível!

 

Drama: Rebentar, de Rafael Gallo

Rebentar não foi uma leitura fácil. Como mãe, ler um romance que analisa cada palmo da dor de perder um filho foi uma luta muito grande para mim. Mas é um romance original no que conta a história de uma mãe como todas as outras, Ângela, cujo filho de cinco anos desapareceu há três décadas. Durante todo esse tempo, a vida de Ângela tornou-se a eterna procura por seu menino. Parou de trabalhar, não teve mais filhos, afiliou-se a instituições de busca de crianças desaparecidas, checava cada pista, cada possibilidade.

 

Mas após trinta anos sem nenhum resultado, ela finalmente decide desistir completamente da procura. Além da própria dor e culpa, Ângela precisa enfrentar o julgamento de todos aqueles que de alguma forma estavam envolvidos com sua história e que acham que uma mãe jamais deve perder a esperança.

O romance explora essa jornada racional de desapego, mas que sempre há recaídas e desesperança. Apesar de às vezes ser um pouco maçante ao esmiuçar cada sentimento da mãe, Rebentar é um lindo romance sobre coragem e a força de viver de alguém que perdeu todos os motivos para continuar vivendo. Vale a pena ler e se emocionar.

 

Social: Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende

Um romance curtinho e belamente escrito, a freira Maria Valéria Rezende relata a história de Maria, que entrelaça o passado na sua longa estadia no pequeno município sertanejo de Olho d´Água e o presente, onde ela se encontra a caminho do vilarejo, quarenta anos depois. Ela conta a história de como foi parar nesse fim de mundo, exilada (ou melhor, fugida) para ser educadora do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), o programa para educação de adultos do governo militar. Mas na verdade, Maria é uma militante de esquerda enviada para conscientizar o povo das injustiças do mundo. Sem o trabalho imediato de professora, Maria trabalha como tecelã de redes, tornando-se como eles. Mas a longa espera a faz ter momentos melancólicos, e uma caixinha de joias repleta de pequenos tesouros como um bilhete de metrô de Paris a faz sonhar com o passado em outros cantos do Brasil, de Paris, da Argélia, enfim.

 

Nesse romance, a autora utiliza-se bastante de histórias de sertanejos, daqueles que vão embora e voltam, da pobreza e da devoção, de certa resignação com o destino que o Senhor os deu. Se de início ela romantizava a vida simples e dura do sertão, com o passar do tempo logo ela percebeu como era difícil esse trabalho de conscientização de injustiças.

 

O romance, com um caráter mais cult, é lindamente escrito, com muitas influências de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Para quem é fã de livros com uma pegada mais social e auto-biográfica, com fortes elementos de reflexão, essa obra premiada vale a pena conferir.

Romance histórico: a trilogia A Casa das Sete Mulheres, de Leticia Wierzchowski

Quem não amou a série da Globo ¨A Casa das Sete Mulheres¨? Baseada no primeiro livro de uma trilogia que conta a longa espera de mulheres durante a Revolução Farroupilha (1835-1845) — uma luta dos latifundiários rio-grandenses contra o Império brasileiro — a autora não poupa detalhes de longas esperas e esperanças, de amores impossíveis e fantasiosos, assim como do fim da guerra e de suas consequências (explorada no segundo livro da trilogia “Um Farol no Pampa”) assim como a história de amor entre Giuseppe Garibaldi e sua Anita (na obra “Travessia”), enchendo minha xará Manuela com o mais profundo desespero até o fim de seus dias.

Um Farol no Pampa explora o fim da guerra e suas consequências. Bento Gonçalves, doente, perece e deixa dona Caetana só. O romance concentra-se nas sequelas sobre a família Gonçalves e o destino de cada um, além de demonstrar mais um pesadelo: a Guerra do Paraguai, com suas devastadoras consequências.

 

Em Travessia, o desfecho da série, Giuseppe e Anita Garibaldi viveram e lutaram em três países diferentes: no sul do Brasil, à época da Revolução Farroupilha, em Montevidéu, no cerco de Rosas, e na unificação da Itália. Apaixonados um pelo outro, Giuseppe e Anita foram verdadeiros amantes da liberdade. Tudo está aqui neste livro: as grandes batalhas históricas e as pequenas batalhas do dia a dia.

 

Desde o começo da história cativante que a autora traça com diversos personagens é transportar-se para os pampas com uma linguagem poética, em contraste com os horrores da guerra, das perdas, do sofrimento que as mulheres, guardadas em uma estância por anos a fio. Desses contos de amor e horror que não entraram para os lauros da História, Leticia Wierzchowski relata com maestria os conflitos e a eterna espera.

 

 

Fica a dica desse ótimos livros brasileiros para você começar a exploração!


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