Necessários e inevitáveis, mas sempre indesejados: os imigrantes

Eu até que tentei me concentrar no meu cotidiano, nas notícias e memes do futebol. Dei risada com os comentários sobre o cabelo apapagaiado de Neymar, conversei sobre o casamento de Harry e Meghan, celebrei o aniversário de meu filho e procurei me concentrar nas minhas tarefas de sempre. Mas algo mais permanecia na longa lista de notícias – e não era bom. Eu sabia que essa notícia tocaria o meu coração da mesma forma quando vi a imagem de pequeno menino sírio chamado Alan Kurdi, morto nas águas do Mediterrâneo.

 

Mas abri o link, já com o coração pesado, porque eu não queria me deixar alienar pelas coisas cotidianas que rodeiam minha vida burguesa em Munique.

 

 

Crianças em gaiolas logo tomaram a tela, algo que a manchete já prometia aparecer. Lá nos Estados Unidos, país que se auto-intitula o líder do mundo livre, que defende os direitos humanos, separa crianças de seus pais porque agora é crime atravessar a fronteira. Até quem busca asilo de forma legal tem os seus filhos separados, que são então enviados para as infames gaiolas, sozinhos e traumatizados. Mais de duas mil crianças foram separadas de seus pais. Depois do escândalo, culpa-se Obama (é claro) e dá-se um jeitinho para reverter a situação. Mas o estrago já está feito.

 

Imigração, tema controverso e emotivo, tomou forma nas últimas semanas não só nos EUA, assim como na Europa. O navio Aquarius, com mais de 600 refugiados do norte da África, não pode atracar na Itália, mas conseguiu abrigo na Espanha. Com certeza mais barcos super lotados virão, esquentando o tema mais uma vez, dividindo os que defendem um corte imediato do socorro e os que apelam para os direitos humanos. Até que, inevitavelmente mais barcos afundarão com dezenas, talvez centenas de vítimas, como o pequeno sírio Alan Kurdi. Quando acontecer, os europeus mais uma vez ficarão escandalizados com a crueldade dos políticos que os representam. Todavia, para os europeus a questão dos refugiados é um pouco de o que os olhos não veem, o coração não sente.

 

Muitos outros países europeus parecem estar numa corrida para cortar a questão da imigração pela raiz, que tornou-se o principal tema político dos últimos anos. Nas últimas eleições na Alemanha no ano passado, a questão dos refugiados foi o tema central de discussões. Na Europa Oriental pseudo-ditadores surgem das cinzas da antiga União Soviética com discursos populistas e anti-imigração. Até a Grã-Bretanha, notoriamente cosmopolita, rendeu-se ao Brexit devido à questão da imigração. Os britânicos não tiveram problema em conquistar metade do mundo séculos atrás, mas as consequências de suas antigas colônias eles não querem aceitar.

 

Até no Brasil, que recebe hoje em dia imigrantes geralmente da África e da América Latina, não tem um histórico limpo quando a questão é uma recepção calorosa. No momento, os números talvez não se comparem aos EUA e Europa, mas me pergunto se certos comportamentos estejam beirando a xenofobia ao estilo tupiniquim.

 

Nos países ocidentais existe esse medo recorrente do que acontecerá com a imigração em massa. Quanto mais pessoas atravessam a fronteira, mais ressentimento acumula-se, pois existe um impacto real na vinda e permanência dessas pessoas. No curto prazo, aumenta-se o custo de vida. Ao longo dos anos, a transformação cultural e de identidade é algo assustador para muitos. Perguntas flutuam e, sem respostas imediatas, causam medo. Políticos, naturalmente, utilizam-se desse sentimento para angariar votos e construir uma agenda mais conservadora, às vezes de âmbito mais nacionalista. Vemos isso acontecendo na Polônia, Hungria, República Checa, Itália, Inglaterra – e também uma discussão muito tensa sobre o tema aqui na Alemanha.

 

Não é que os conservadores não tenham um pouco de razão; precisa-se limitar o número de pessoas que entram em determinado país. Mas isso não quer dizer que deva-se fechar as portas. Afinal, o mundo globalizado de hoje requer não só um comércio mais livre, sem fronteiras, como muitos aspectos da vida atual requerem um mundo mais aberto, pois é através da cooperação e tolerância entre os povos que a ciência, o esporte, as artes, o turismo e até casamentos entre culturas diferentes sejam possíveis. Imigração é inevitável.

 

Entretanto, a multiculturalidade jamais será algo sem problemas, assim como qualquer coisa na vida. Diferenças culturais são concretas, costumes demoram a ser entendidos, imigrantes demoram a compreender um novo idioma e integrar-se. Não é algo que magicamente acontece; mas é só num mundo de diversidade onde a tolerância pode crescer.

 

O que vemos por aí é a polarização das ideias, em que a grande maioria das pessoas se apegam às suas opiniões com tal afinco que não enxergam um caminho do meio. Precisa-se dar oportunidade de pessoas buscarem uma vida melhor em outro país? É claro que sim. Precisa-se estabelecer critérios mais rigorosos e limitar o número de imigrantes? É lógico, afinal um país como a Alemanha ou a Inglaterra não podem abrigar toda a população da África ou da Índia.

 

Mas não é tão simples, infelizmente. Isso porque a grande maioria das pessoas estão tão apavoradas com o que pode acontecer com suas referências de vida que suas reações são as mesmas que nós já vimos na História: racismo e xenofobia, que podem chegar ao cúmulo como a questão das famílias separadas nos EUA. Como sempre, a História se repete, apesar de muitos negarem até dizer chega que não é a mesma coisa, não é a mesma situação. Mas será mesmo? Para mim apenas os personagens são diferentes, modernizados.

 

Existe esperança, entretanto. Pode parecer invisível, mas como imigrante, filha de um imigrante português, esposa de um coreano (cujos pais são imigrantes), mãe de um menino miscigenado, amiga de pessoas de todas as cores e religiões, para mim esse mundo multicultural é tão natural como comer pão com manteiga no café da manhã. E muitos dos nossos filhos, acostumados a essa miscigenação, a pertencerem a culturas diversas, provavelmente vão encarar o mundo com outros olhos, diferentemente das gerações mais antigas. Ao ver o jardim de infância de meu filho orgulhosamente mencionar que tem alunos de mais de quinze países e celebrar essa linda diversidade pode até ser um micro-cosmos, uma bolha de otimismo, mas é uma corrente que aos poucos toma forma e se espalha.

 

Nessa época de Copa do Mundo, onde todos os continentes celebram a força cada vez mais multi-culti do futebol, celebremos a diversidade não com o escândalo da b*** rosa, mas com a oportunidade de conhecermos e celebrarmos novas culturas. Quem sabe assim, achemos um caminho do meio, pragmático e repleto de empatia e gosto pela diversidade?

 

 


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