O pseudo-patriotismo da Copa

Não tem porque esconder: o coração bate mais rápido em expectativa com mais uma Copa do Mundo. A esperança de mais um título está à espreita; ou pelo menos, se formos menos ambiciosos, amenizar aquele vexame do 7x1. Mas às vésperas da Copa, brasileiros de todo país vivenciaram greves, falta de gasolina, o escambau. Nada parece funcionar nosso Brasil, sil, sil...

 

O país do futebol, o país do futuro, o país de promessas raramente realizadas encontra-se no limbo – e os brasileiros sabem disso. O que mais vemos por aí são reclamações, desencanto, vontade de ir embora. Entretanto, basta a seleção canarinho entrar em cena para a coisa mudar de figura. Vestiremos a camisa – no sentido figurado e literal – e gritaremos a cada gol. Vamos nos esgoelar na torcida e vaiar o adversário. Cantaremos “eu sou brasileiro... com muito orgulho... com muito amor...”.

 

Talvez seja pão e circo, talvez seja apenas como uma injeção de morfina para aliviar aquela dor profunda da situação que o Brasil se encontra. E o Brasil vai parar para comemorar os gols e chorar a cada falta desmerecida e possivelmente, derrotas. Foi assim na última Copa e será assim nesta.

 

Daí vem um patriotismo superficial, passageiro e exagerado. Parece que nós reclamamos durante quatro anos para só durante a Copa demonstrarmos o nosso amor (tudo bem, durante as Olimpíadas também somos mestres em arroubos amorosos com nosso país). Mas isso, queridos torcedores, nada tem de patriotismo. Esse amor todo que convenientemente surge durante a Copa mais parece uma ficada de Carnaval: rápida, prazerosa, sem compromisso e sem consequência. Depois: dane-se.

 

Em contraponto aos brasileiros, aqui na Alemanha a história é bem diferente. Isso porque demonstrar amor à pátria até alguns atrás era considerado tabu. Devido ao nacional-socialismo de Hitler, o holocausto e as guerras causadas pelos germânicos, patriotismo e nacionalismo têm uma fina linha de diferença, ou praticamente nenhuma, como acham alguns. Apenas em 2006, quando a Copa fora na Alemanha, houve uma explosão de amarelo, vermelho e preto pelas ruas. Em 2014, ao vencer a Copa, conquistando o tetra campeonato, os alemães utilizaram-se da Copa para fazer jus ao sentimento de amor à pátria escondido dentro do coração. Nesse caso, a vitória deu-lhes uma justificativa para expressar um amor profundo; diferentemente dos brasileiros, que expressam o seu “amor” por um período determinado.

 

De fato, os alemães têm muito para orgulhar-se de seu país. Mesmo com a crise de refugiados, a Alemanha segue firme e forte. O peso do passado nazista distancia-se das novas gerações, que sentem um tremendo orgulho de uma nação pequena e poderosa. Em contrapartida, os brasileiros mal têm motivos para sentir orgulho. Economia, política, educação, saúde... tudo chegou ao fundo do poço. Não é fácil amar um país que só dá tapa na cara do cidadão; então como ser patriota, pelo amor de Deus?

 

Mas será que sabemos o que é ser patriota? Ou estamos acostumados demais com os sentimentos de amor e ódio que permeiam o relacionamento com nosso país?

 

Patriotismo, na definição do dicionário Aurélio, significa “pessoa que tem amor à pátria e a deseja servir.”

 

E mesmo que a definição de “servir” deixe margem para interpretação, vamos combinar que de acordo com a definição acima está faltando uma boa dose de simples amor à pátria que vá muito além de vestir a camisa verde e amarela durante a Copa ou quaisquer outros eventos esportivos. Podem existir diversas interpretações, mas para mim patriotismo verdadeiro é ajudar o Brasil a se reerguer, a dar vidas mais dignas para os milhões de pobres nos quatro cantos do país. Patriota é indignar-se com a morte de Marielle Franco e de tantas outras pessoas assassinadas, mesmo que você discorde de suas ideias. Patriota é ser honesto com o dinheiro dos outros. Patriota é servir o público em quaisquer funções governamentais sem se aproveitar de uma posição de poder para fazer a vida do cidadão uma burocracia sem fim. Patriota é deixar de lado a malandragem tupiniquim e dar valor à honestidade.

 

Patriotismo... algo que falta ao brasileiro por definição, porque para amar o nosso país precisamos amar o nosso povo. Mas diante de tantas divisões econômicas, sociais, raciais e políticas, como amar os brasileiros – e por consequência, o Brasil?

 

Desde pequenos somos criados com muros ao invés de pontes. As classes altas que têm pavor dos pobres. Os pobres que ressentem os ricos. Os brancos que discordam da política de cotas para negros e que acreditam não haver racismo. Os negros que são discriminados em todas as esferas da sociedade. Nordestinos vs. Sulistas. Coxinhas vs. Petralhas. Muito mais que reles fraturas, hoje temos uma sociedade quebrada, dividida, despedaçada. Não tem como patriotismo florescer desse jeito.

 

Temos o privilégio de podermos amar abertamente o nosso país. Amar o Brasil não é tabu, não é malvisto. Entretanto, para amar de fato o nosso país, precisamos amar além das paisagens exuberantes, das lindas músicas, das festas de Carnaval, São João, etc., da feijoada de domingo e da moqueca, do futebol... amar o país é, mais do que tudo, amar o seu povo!

 

Para sermos patriotas, todos nós, precisamos de união. Precisamos de conversas civilizadas e discussões produtivas. Precisamos olhar para os lados ao invés de ignorar quem precisa. Necessitamos derrubar as barreiras que nos foram ensinadas desde pequenos. Só assim para o amor ao nosso país dar uma goleada ao pessimismo e à crise – e podermos expressar o verdadeiro e puro sentimento não só a cada gol na Copa, mas a cada vitória na sociedade, economia, política e tudo de bom que o nosso país tem o potencial de alcançar.

 

Então vamos assistir os jogos do Brasil e demonstrar o nosso amor (por que não?); apenas não esqueçamos de demonstrar o nosso amor após a Copa e de fato fazermos algo mais para mudar o nosso país.

 

Vai, Brasil, sil, sil...!

 


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