A nova identidade alemã

Mudança é geralmente algo desconfortável. É da natureza humana apegar-se ao conhecido e comum, e lutar contra o incômodo de pensar no diferente, no novo. Pois é nessa transição que a identidade alemã se encontra: pessoas que se apegam às tradições como raiz de sua identidade, e outras mais dispostas a conhecer – e adaptar-se – ao diferente.

 

Há anos atrás, antes mesmo da crise dos refugiados, muitas discussões sobre a Alemanha ser um país de imigrantes ou não já povoava o palco da mídia. Em 2012, 20% da população alemã possuía traços de imigração (através de antepassados ou imigrantes nascidos em outros país). Há muitos anos que a Alemanha tem se tornado a nova “terra de oportunidades” (quase como um American Dream ao estilo germânico). 

 

A vinda de tantos refugiados apenas acentuou essa tendência, trazendo à tona o conflito entre a abertura das fronteiras e das mentes contra a preservação de tradições – e da identidade alemã.

 

A publicação recente sobre a Alemanha na revista britânica The Economist, cuja capa anunciava “Cool Germany” (Alemanha legal ou arrojada) ressaltou uma nova visão positiva do país aos olhos do estrangeiro (inclusive nós, brasileiros). Apesar de certas ressalvas quanto a tanto otimismo, um dos pontos tocados nessa série de artigos foi justamente a questão do Heimat (traduzido como “casa” no sentido do lugar onde pertencemos), assim como do país que a Alemanha é – e quer ser.

 

Num país em que ser alemão não é nascer em território germânico, mas ter sangue alemão, para muitos essa é uma questão aterrorizante. Diferentemente de países que foram criados com mãos imigrantes, como os EUA, Canadá, Austrália e Brasil, até algumas décadas atrás a população da Alemanha era basicamente homogênea.

 

A Alemanha não tem uma longa tradição de receber pessoas de outras culturas. Os italianos e turcos importados para a Alemanha Ocidental para aliviar a escassez de mão de obra no boom econômico do pós-guerra foram chamados de Gastarbeiter (trabalhadores convidados), o que implicava estadias limitadas e temporárias. Poucos esforços foram feitos para integrá-los. Em um discurso em 1982, Alfred Dregger, um político do partido conservador, o CDU, disse que “o retorno dos estrangeiros à sua terra deve ser a regra, não a exceção”. Durante décadas, os únicos imigrantes realmente aceitos e integrados eram os alemães étnicos da Europa oriental, como da Romênia e Polônia.

 

Mesmo precisando de imigrantes para crescer, a Alemanha hesitava em integrar essas pessoas e chamá-las de alemãs. Foi somente no ano 2000 que a Alemanha estendeu a cidadania para pessoas com ancestrais estrangeiros.

 

O Döner kebab, é um prato turco inventado por imigrantes turcos em Berlim. Essa versão criada para agradar o gosto dos alemães tornou-se uma das fast-foods mais populares da Alemanha. Muitos expatriados turcos exportam os döners "alemães" de volta para seu país natal. O Döner kebab é, sem dúvida, uma das marcas da imigração turca na Alemanha e como a cultura germânica tem absorvido manifestações culturais de países diversos. 

 

Mas hoje, com uma grande proporção de cidadãos com antepassados estrangeiros e imigrantes de primeira geração no país, é inevitável que haja uma transformação da identidade, e que esta torne-se mais inclusiva, definindo a identidade não em termos étnicos mas em cívicos.

 

Numa sociedade que valoriza a estabilidade, essas divisões culturais entre aqueles que abraçam a nova Alemanha e aqueles que anseiam pelo familiar vão determinar o futuro do país no coração da Europa – em termos muito além da economia e política, perpassando a cultura e a identidade.

 

Porção da população com antepassados estrangeiros. Em certas regiões a proporção chega a 30%. Fonte: The Economist

 

 

Nada de “cool”

Vendo a repercussão do artigo da The Economist, deparei-me com a opinião do editor-chefe da Handelsblatt Global, uma das maiores publicações financeiras da Alemanha. Por natureza, os alemães veem com desconfiança essa onda de otimismo vinda de fora, disse ele. Não só porque o escritor da The Economist tomou Berlim como base para o seu artigo – que é considerada “cool”, apesar de ser mais pobre que outras regiões da Alemanha, como a Baviera – mas porque os alemães não querem ser “cool”. Na verdade, apresenta o contra-argumento, essa coisa de ser legal e arrojado nada tem a ver com a identidade alemã.

 

No geral, argumenta, os alemães ainda são considerados pé no chão, estáveis e sérios. É por isso que eles são invejados, temidos e até certo ponto ridicularizados em todo o mundo. Os alemães não querem parecer legais. Eles querem uma nova marca de política para oferecer-lhes uma vida segura e de conforto.

 

E essa segurança, conforto e modéstia que os alemães tanto almejam (nada do “cool” apresentado pela mídia estrangeira) têm o maior contraponto na sociedade heterogênea que cresce a cada dia. É esperado que os alemães lidem melhor com as contradições resultantes dessa heterogeneidade, mas é um processo lento, que muitos ainda negam por completo. Um exemplo fora o o aplauso que saudou o recente comentário do ministro do Interior, Horst Seehofer, que afirmou que "o Islã não pertence à Alemanha" (contradizendo a Angela Merkel). Ainda recentemente, um partido de extrema-direita, o AfD (Alternative fuer Deutschland), arrebatou 13% das cadeiras no parlamento, algo inédito após a 2ª Guerra Mundial.

 

Mesmo assim, é inevitável: a Alemanha está se tornando mais heterogênea. Em 1990, a equipe de futebol da Alemanha continha apenas nomes alemães (e um polonês-alemão); no campeonato da copa europeia em 2016 continha um Boateng, um Özil, um Podolski, um Sané e um Gómez, entre outros. Na política, a parcela de parlamentares com antecedentes migrantes triplicou desde 2009. Dunja Hayali e Cherno Jobatey, personalidades mais conhecidas da TV de café da manhã na Alemanha, têm raízes no Iraque e na Gâmbia, respectivamente. Muitos dos imigrantes que foram integrados são de países da UE no leste e sul da Europa. A Alemanha está se tornando cada vez mais um Einwanderungsland (país de imigração).

 

O conflito de quão abertos os alemães devem ser e da identidade germânica como consequência ainda está no começo; nos próximos anos, descobriremos se os alemães se tornaram mais tolerantes. A classe média parece aberta à integração, um tema quente desde que a Alemanha recebeu multidões de refugiados. Mas há conservadores e eleitores de mentalidade nacionalista preocupados com a exclusão social dos nativos, para os quais a política de fronteiras abertas – o Willkommenspolitik – pode ir longe demais. Tudo isso realmente não é tão legal nem arrojado, afinal.

 

Cultura é movimento; mudar é inevitável

Se é inevitável que a sociedade alemã torne-se mais heterogênea, também é inevitável que a ansiedade diante de tantas mudanças cresça, que certas pessoas apeguem-se ao conhecido, às suas referências de vida. Entretanto, muitos tendem a perceber cultura e identidade como algo estático através de tradições seculares que teimam em permanecer. Claro, tradições nos remetem a referências de comportamento, valores compartilhados; muito mais, é claro, que vestimentas, músicas, comida, festivais, literatura ou outras manifestações culturais óbvias.

 

E daí vem grande parte das discussões – e do medo. Porque muitos que hoje veem a Alemanha como a nova terra de oportunidades (que faz sentido, visto que o país é economicamente forte e precisa de gente jovem), têm valores completamente diferentes quanto a diversas coisas, como a questão da mulher, os aspectos religiosos que incomodam muita gente.

 

Entretanto, cultura é algo dinâmico. Uma troca. Algo que muda com o passar do tempo e das novas gerações, geralmente mais rebeldes. Há décadas atrás, mulheres (principalmente mães) eram olhadas com desconfiança ao trabalharem; apesar de até hoje existir um certo preconceito, é algo mais normalizado. Até a Copa de 2016, que aconteceu aqui na Alemanha, os alemães relutavam em dizer que tinham orgulho de seu país. De repente, tudo mudou, e vimos um festival de amarelo, vermelho e preto pelas ruas em forma de bandeiras, maquiagem e outros acessórios relacionados ao evento. Um comportamento arraigado mudou num piscar de olhos.

 

 

Da mesma forma no Brasil, como não admitir que corrupção era algo aceito em nossa sociedade até como “algo cultural”? No cotidiano e na política, era algo que a grande maioria aceitava como uma das “coisas da vida”. Lembro daquela frase que dizíamos de políticos ladrões mas que mesmo assim ainda dávamos nossos votos nas eleições: “rouba mas faz”. Hoje, como não admitir que esse aspecto da nossa cultura está sendo revisto, condenado?

 

Outras coisas são mais fincadas, como certos valores (pontualidade, organização, etc.) são aspectos mais profundos que, talvez, sejam influenciados pela flexibilidade de outros povos. Mas acredito também que, como forma de se integrar na Alemanha, essas pessoas (como nós brasileiros que aqui vivemos) também saberão incorporar esses novos valores. Uma troca, portanto.

 

Uma troca: imigrantes não só influenciam a cultura do país que os recebe, mas também são influenciados pela cultura local. Na foto, meu filho Eduardo, uma mistura brasileira e coreana, na Oktoberfest em Munique.

 

Então, “preservação” de cultura vale-se para os aspectos óbvios: arquitetura, música, vestimentas, comidas. Mas para o subjetivo das coisas, os valores e comportamentos, isso são aspectos que estão sempre mudando. Cultura é muito mais que as coisas tangíveis que vemos num passeio turístico; e algo que muda, constantemente. Cultura é movimento, porque sem movimento não há progresso nem futuro. E quem quer só olhar para trás?

 

A ser preservado: tradições, manifestações culturais, arquitetura e história, para jamais ser esquecida. 

 

Para finalizar, qualquer povo é feito de misturas. Pode ser que esteja escondidas de muitos séculos dando a impressão de homogeneidade, mas os alemães – assim como qualquer outro povo – são o produto de séculos de miscigenação, mudança e movimento. Portanto, quando pergunta-se qual será a identidade alemã e o Heimat, a casa onde pertencemos, podemos usar as referências que conhecemos e concordamos, mas sem esquecer que cada dia nos apresenta com novos desafios e aprendizados. Com cultura e casa é a mesmíssima coisa; muda sempre.

 

Podemos manter tradições e referências sem nos isolarmos numa redoma de vidro. Movimento é inevitável. Andemos para frente, portanto, e não para trás.

 


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