Andar com Fé

Mesmo com os ventos gélidos do inverno, os alemães andam nas ruas fantasmagóricas. Todos nós, que moramos por aqui, andamos, desbravamos o tempo. Andamos com prazer, pois a única ameaça que sofremos é a mudança do tempo, chuvarada ou nevasca. Para quem nasceu na Alemanha, na Europa em geral, andar sem medo, andar com fé, é normal. Para nós, brasileiros, é um privilégio.

 

Em Salvador, apenas lugares designados ou turísticos são abençoados com esse mero prazer. A orla da Barra, reconstruída na época da copa do mundo, o Corredor da Vitória, bairro abastado, Pelourinho, algumas avenidas agitadas. Mas andamos com medo; não colocamos um brinco mais valioso na orelha, não levamos a nossa máquina fotográfica, ou levamos, mas tiramos a foto com pressa. 

 

Olhamos para os lados, para trás, alertas. Sempre alertas. Desde pequenos aprendemos a policiar nossos arredores; é normal. Fechar as janelas do carro no sinal de trânsito, é normal, é preciso.

 

Nos fechamos em shopping centers, onde podemos andar com a bênção do ar condicionado, as lojas brilhantes, a área de alimentação. Podemos andar em paz, comer em paz, sob os ares artificiais do shopping. Às vezes vamos à praia, lá experimentamos a sensação de liberdade, mas sempre alguém tem que ficar guardando os pertences, prestando atenção. Não confiamos em (quase) ninguém.

 

Crescemos assim, com medo. Andando com fé de que nada vai nos acontecer, mas sem fé de que é seguro. Perdemos a simplicidade de andar por aí, de conhecer nossos arredores numa caminhada sem o peso das preocupações. E achamos normal, é assim mesmo.

 

Desenvolvemos paranoia; lugar nenhum é seguro. Para quem tem algo a perder, de fato, o shopping faz mais sentido. Lá se pode caminhar, andar, gozar do ar condicionado, ostentar o último iPhone e o relógio comprado num outlet dos States. Mas na rua, nem pensar! Não só por causa do calorão, do sol inclemente, mas porque não nos é mais natural. Perdemos a simplicidade de andar. A violência tirou a simplicidade de andar por aí. Precisamos evitar lugar A e lugar B; fulano de tal foi esfaqueado ali, outro foi roubado acolá. Assim rolam as notícias, os rumores, os medos.

 

Não conseguimos imaginar um lugar que seja diferente; não seria normal. Caminhar no centro da cidade de Munique ou Barcelona, nem pensar, é perigoso. Todo centro de cidade é perigoso, ponto. Ponto final. Mas não é. Engana-se quem vê o caos de alguns atentados terroristas como rotina nos noticiários. Não é rotina; segurança existe, e tanto existe que você se dá ao luxo de não prestar atenção se sua bolsa está aberta no metrô, de contar dinheiro recebido no caixa eletrônico, de usar os brincos de brilhantes, de deixar a máquina fotográfica Nikon pendurada no pescoço feito um colar, o tempo inteiro. Não precisa esconder.

 

Não é o paraíso, nem todos os países da Europa são iguais. Existe roubo, existe sequestro, existe assassinato, existe máfia. Existe de tudo aqui também, mas não da forma quase onipresente no Brasil. Sabe-se que existem muitos ladrões em Roma, e presta-se mais atenção, não se deixa a bolsa aberta. Mas às vezes, por você morar num lugar onde não se preocupa com essas coisas, você esquece.

 

Muitos estrangeiros que vão ao Brasil também se esquecem. Desavisados, se metem em locais que nós sabemos não serem recomendáveis. Mas eles não sabem. Levam seus filhos, e por um momento deixam-os sozinhos na rua enquanto vão comprar alguma coisa numa loja. Suas câmeras enormes desafiam as paranoias de praxe. Para o espanto de muitos, são roubados. A ilusão da simpatia tupiniquim é manchada para sempre.

 

E assim, a magia de um simples passeio, uma caminhada, vai para o espaço. Cria-se o pavor, algo ainda mais poderoso que a violência em si. Ela corrói nossos passos, limita para onde vamos. Adeus, liberdade! Mas nos acostumamos com essas limitações, pois o ser humano é capaz de se adaptar a (quase) tudo.

 

Por mais que milhões de brasileiros desafiem seus medos todos os dias, simplesmente porque não têm outra alternativa, a vida precisa ser vivida. Mas os que têm possibilidade, vão embora, procuram por uma vida com qualidade de vida. Deixam o sabor da feijoada para trás, o sol, a praia, a música, o calor, a família, deixam tudo para trás em busca do eldorado da Europa ou da América do Norte. Logo aprendem que nem sempre é essas mil maravilhas; vide as dificuldades de ser imigrante. Pela segurança, entretanto, vale a pena. Nunca no Brasil houve tantos emigrantes, tanta desilusão.

 

Para os alemães, andar permanece sagrado. Andar na neve, caminhar pelas montanhas, passear numa tarde de domingo no centro da cidade. Faz parte da rotina, é quase como respirar. Ninguém fica rodando as ruas de um shopping só por andar. Mas porque eles têm opção e, com ela, vem a escolha de passear junto à natureza ou pelas cidades belas. A natureza e belas cidades nós também temos, por sinal.

 

Não é só andar, é claro. Andar é uma consequência, a possibilidade de viver num lugar onde violência é mínima porque pobreza é mínima. Andar é possível quando não mais banalizamos as razões de nossa própria prisão.

 

Disse o grande Gilberto Gil,

Então permanecemos com a fé de que um dia, quem sabe, a grande maioria dos brasileiros redescubra a simplicidade do andar.

 


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