Um passeio pela Itália de Shakespeare

Se existe ainda hoje alguma dúvida de que o grande poeta de Stratford-Upon-Avon foi quem escreveu dezenas de obras-primas, ainda persiste o mistério se Shakespeare algum dia visitou a Itália, onde um terço de suas histórias se desenrolaram. Acreditava-se que os italianos eram particularmente apaixonados e carismáticos, tornando-os personagens perfeitos tanto para tragédias como para comédias. A situação política de uma nação fragmentada tornou a localização perfeita para contos de intrigas cortesanas e de amores trágicos, o que não teria tido o mesmo efeito se estabelecido na terra natal de Shakespeare.

 

Para quem tem uma quedinha por peças shakespearianas independentemente de serem tragédias ou comédias, conhecer os cenários de Romeu & Julieta, Júlio César e O Mercador de Veneza é uma boa pedida.

 

Verona

“In fair Verona, where we lay our scene” - Romeo and Juliet

 

Não se sabe porque Shakespeare escolheu Verona para ambientar Romeu e Julieta, visto que no século XVI essa cidade vivia sob a sombra de Veneza. Muitos jamais haviam ouvido falar de Verona até a famosa peça entrar em cena.

 

Dois lugares na cidade estarão para sempre conectados com a peça imortal: a varanda na qual supostamente Romeu declarou seu amor a Julieta, assim como o suposto túmulo de Julieta, onde muitos homenageiam a protagonista. É claro, ninguém sabe se Romeu e Julieta existiram, apesar da menção do poeta Dante Alighieri de duas famílias rivais, chamadas de Montecchi e Cappelletti, assim como na peça. Talvez tenha sido mera inspiração para Shakespeare, talvez os personagens tenham de fato existido... até hoje não se sabe o que foi ficção e o que foi realidade!

 

Impressões da tumba e da casa de Julieta.

Além desses dois pontos imperdíveis, apesar de que a tal varanda na Casa de Julieta com certeza não existir na época da peça (a varanda foi adicionada a uma casa antiga apenas em 1936), Verona tem muito a oferecer. Além de um Coliseu muito bem preservado onde no verão pode-se assistir a óperas, a cidade ainda tem o castelo (Castelvecchio) que abriga um belo museu, além de piazzas e igrejas belíssimas.

 

Uma pequena curiosidade que merece ser mencionada: não é só na casa de Julieta que existe uma estátua da personagem mais famosa de todos os tempos. Também em Munique existe uma réplica da mesmíssima estátua, ao pé da Marienplatz assim como em Shakespeareplatz em Bogenhausen, visto que Munique e Verona são cidades parceiras.

 

Pádua (Padova)

“I come to wive it wealthily in Padua” - The Taming of the Shrew

 

A universidade de Pádua, uma das mais antigas do mundo, tinha uma grande reputação na época de Shakespeare. A cidade era conhecida em toda a Europa como um centro de conhecimento: ilustres como Galileo Galilei ensinaram na famosa universidade, e até Casanova era ex-aluno da instituição. Por causa dessa reputação, Shakespeare utilizou a universidade como cenário para a peça A Megera Domada (The Taming of the Shrew). Ainda hoje Pádua é uma cidade universitária, com 66 mil estudantes numa cidade de 209 mil habitantes.

 

A Universidade de Padova de fora (não é permitido fotografar a parte mais interessante); a estátua da primeira mulher a se formar na universidade, Eleonora Lucrezia Cornaro Piscopia; praça em Padova.

O Palazzo Bò no centro é a antiga escola de medicina e o mais antigo edifício da universidade. Lá é possível fazer um tour pela antiga escola e admirar a atmosfera onde Galileu viveu tantos anos de sua vida. O mais extraordinário é ver o primeiro teatro anatômico do mundo, onde anatomias eram desempenhadas para o desenvolvimento do conhecimento sobre o corpo humano. Numa das salas da universidade, é possível ver caveiras de professores que doavam seus próprios corpos para serem estudados. Mesmo diante do constante protesto da Igreja Católica para que corpos fossem preservados em respeito aos mortos, era em função da poderosa Veneza que a universidade de Pádua fosse pioneira nessa atividade controversa. Foi lá também onde a primeira mulher se formou numa universidade, Eleonora Lucrezia Cornaro Piscopia.

 

Vivenciar Shakespeare em Pádua significa descobrir os segredos da Universidade com uma história fascinante, além de oferecer diversos palazzos e um centro muito agradável.

 

Roma

“Not that I loved Caesar less, but I loved Rome more” – Brutus, in Julius Caesar

 

Shakespeare desenvolveu quatro peças baseadas na Roma Antiga - Júlio César, Antônio e Cleópatra, Coriolanus e Titus Andronicus - usando Plutarco como sua principal fonte. Nenhum lugar pode te dar mais a sensação de se sentir numa peça de Shakespeare do que a região que engloba o Coliseu, o Circo Massimo, o Palatinado e o Foro Romano. Nesse último ainda hoje se vê uma grande área povoada por ruínas de casas, templos, arcos e estátuas. Descubra nesse maravilhoso lugar, principalmente com a luz de fim de tarde, o local onde Júlio César teve seu corpo cremado, o Tempio di Giulio Cesare.

 

Impressões da Roma Antiga: o Foro Romano e Coliseu.

Se você está procurando a melhor vista livre da Roma antiga, suba as majestosas escadas da Cordonata até a magistral Piazza del Campidoglio de Michelangelo, no topo da Colina do Capitólio. A vista é ainda mais impressionante à noite, quando os templos, as colunatas, os arcos de triunfo e o fórum são brilhantemente iluminados.

 

De fato, todas as estradas chegam a Roma... nessa cidade fascinante, uma das mais antigas da Europa, você se sente parte da história. E também das peças de Shakespeare!

 

Veneza

“What news on the Rialto?” - The Merchant of Venice

 

Duas das maiores peças shakesperianas acontecem em Veneza – O Mercador de Veneza e Otelo - e ambas lidam com o preconceito racial ou religioso. Mesmo nos tempos elizabetanos a cidade era conhecida por seus canais, suas gôndolas, suas igrejas, assim como o gueto judeu.

 

Principalmente em O Mercador de Veneza Shakespeare menciona a área do mercado Rialto assim como a belíssima ponte de mesmo nome – que existem até hoje - assim como fala sobre gôndolas e o "traghetto", que provavelmente se referia à balsa que transportava pessoas de Veneza para o continente (o "traghetto" existe até hoje, que são as gôndolas que atravessam os canais de um lado para o outro, e não as gôndolas turísticas e caríssimas) . Muitos desses pontos ainda existem ao longo do Grande Canal. O Palazzo Ducale na praça de São Marco, com suas magníficas fachadas góticas e o enorme salão do conselho, é provavelmente o que ele tinha em mente como cenário para a cena final do tribunal no Mercador de Veneza.

 

Na época de Shakespeare, o gueto veneziano era um dos poucos lugares da Europa onde os judeus podiam viver. A palavra "gueto" vem de uma palavra italiana, "gheto", que significa "escória". Hoje em dia, os guetos têm conotações negativas, mas naquela época era um lugar de salvação. Veneza foi o palco do primeiro gueto do mundo, e foi a razão pela qual Shakespeare teve seu personagem Shylock num gueto, mesmo que fosse rico o suficiente para ter um palácio. Ainda existe uma pequena comunidade judaica em Veneza; na praça do gueto ainda se encontram sinagogas, o Museo Communita Ebraica assim como esculturas que denunciam a deportação de judeus venezianos para campos de concentração durante a 2ª Guerra.

 

Impressões de Veneza: a Ponte do Rialto, o mercado do Rialto, a Praça de São Marco, um gondoleiro, as duas mãos segurando um edifício, o símbolo da Bienal de Veneza; os maravilhosos canais venezianos.

Um dos destaques é que, como o gueto era de um espaço limitadíssimo, a única forma de expandir ou abrigar mais pessoas era construir para cima, com algumas casas com até sete andares, algo incomum na época.

 

Com relação a Otelo, que também acontece em Veneza, a peça também menciona o Rialto com certa prominência. Além disso, de acordo com lendas venezianas, o verdadeiro Otelo foi um Doge da cidade, uma espécie de chefe da cidade, chamado Cristoforo Moro, que está enterrado com sua esposa na igreja de San Giobbe.

 

Fora a região de Venetto e Roma, Shakespeare utilizou muitas cidades da Itália para a sua vasta obra, praticamente um passeio pela Itália. A cada canto desse lindo país, existe uma referência shakespeariana.

 

Ma Shakespeare era Italiano? Talvez mais um mistério a ser desvendado...

 


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