Um sopro de esperança em Berlim

Existem certos lugares no mundo que te fazem pensar, ponderar sobre a vida. Um desses lugares certamente é Berlim, capital alemã e um dos palcos mais relevantes da História no século XX. É o Portão de Brandemburgo, o Reichstag (parlamento), o Checkpoint Charlie (uma das fronteiras entre da Berlim Ocidental e Oriental) e, é claro, o infame Muro de Berlim. Quilômetros e quilômetros de concreto que separaram ideologias, estilos de vida, famílias, amigos, um povo. Repressão da liberdade.

 

Tudo fora separado, como joio do trigo. Os desesperados que procuravam fugir da repressão eram recebidos com balas. Quem guardava o muro tinha permissão de matar quem quer que fosse; crianças, inclusive.

 

Erguido a partir da madrugada de treze de agosto de 1961, por quase trinta anos o muro expandiu-se e parecia eterno, como se jamais esse enorme pedaço de concreto pudesse ser destruído, demolido. Apesar da relativa normalidade de vidas moldadas pelo comunismo da Alemanha Oriental – o que se pode ver no fantástico DDR Museum (Museu da Deutsche Demokratische Republik ou República Democrática Alemã, que de democrática nada tinha), você é transportado para uma época em que coletar cupons para garantir sua subsistência era normal, esperar dezesseis anos (isso, 16!) para conseguir um carro (forrado de plástico), o Trabi, era normal, que talvez a única forma de expressão de liberdade era a nudez praticada em lagos e praias (e que mesmo assim não agradava nem um pouco os chefões).

 

Era uma sociedade em que a espionagem estava inserida em famílias sob as ordens da Stasi (a agência de inteligência e espionagem da DDR). Tudo, absolutamente tudo, era controlado. Até as crianças quando entravam no Kindergarten (jardim de infância) eram educadas de forma comunitária, a individualidade de cada uma destruída.

 

Mas depois de longos vinte e oito anos, o muro caiu. Der Fall der Mauer.

 

A liberdade, tão aguardada, finalmente veio. O muro, que antes parecia tão poderoso e eterno, não sobreviveu aos martelos, picaretas e escavadeiras. Os restos do Berliner Mauer tornaram-se nada mais que um poderoso símbolo de uma divisão insana, que parecia justificada perante ao mundo, mas que jamais poderia viver para sempre.

 

Indo a museus e lugares que marcaram Berlim, as histórias sobre épocas de repressão, guerras, intolerância, ideologias opostas, tudo parece surreal, algo saído de um filme de James Bond. Isso porque Berlim hoje em dia é tão diferente e livre, a liberdade de ser quem você quer ser (diferentes culturas, diferentes orientações sexuais, diferentes formas de expressão). Da repressão insana para a liberdade; essa é a esperança que Berlim nos dá.

 

Ainda existem muitos lugares divididos no mundo. A ilha de Chipre, ainda dividida entre gregos e turcos, cuja capital, Nicosia, é dividida. Para atravessar a fronteira de Nicosia, no centro da cidade, precisamos passar pelo controle de passaporte. Há apenas alguns metros de distância, são duas Nicosias, completamente diferentes. Assim também com as Coreias, divididas desde a década de 50. Com a queda do muro, a esperança se renovou de que também as Coreias pudessem unir-se novamente. Perto de Potsdamer Platz, existe um templo coreano que mostra como a queda do muro de Berlim soprou esperanças para povos divididos.

 

Na Potsdamer Platz, um símbolo de esperança das Coreias um dia tornarem-se uma só nação.

Mas quando olhamos para o estado do mundo de hoje, para o caos que está o nosso Brasil, o que vem em nossos corações? Desesperança, medo, aquelas perguntas que palpitam de “até quando, meu Deus?”. Vemos a corrupção no Brasil, os níveis alarmantes de pobreza e violência, a guerra na Síria, até os neonazis e xenófobos que, infelizmente, ganham força. Vemos tudo isso e nos questionamos se a humanidade nada aprendeu.

 

Muros nem sempre são feitos de concreto ou arame farpado. Às vezes, sem notarmos, muros são construídos à base de intolerância, de opiniões firmadas e fincadas como raízes sem espaço algum para serem discutidas, de preconceitos, de ignorância. Além das separações físicas de Chipre e das Coreias, vemos muros ainda mais altos e intrasponíveis ao redor do mundo. Ninguém quer dar o braço a torcer, ninguém quer mudar de opinião (como se mudar de opinião fosse fraqueza, veja só!). Todos estão dispostos a julgar nos altos tribunais do Facebook, a espalhar notícias falsas, a dividir-se em turminhas que não querem entender o outro. O novo desafio do século XXI é nada mais que quebrar os muros invisíveis que nos separam.

 

Mas em Berlim você vê que essas loucuras da humanidade podem demorar muito, muito tempo, mas não são para sempre. Eventualmente muros físicos e invisíveis caem por terra.

 

"Você aprendeu / o que significa liberdade / e não se esqueça jamais" (Muro de Berlim, East Side Gallery)

Quando estivemos por lá, vimos pessoas de todos os tipos. Vimos um quarteto de amigos de diferentes raças e culturas – um asiático, um negro, um branco, um com feições mais latinas – conversando, rindo. Vimos dois homens se beijando. Vimos um punk tomando sua cervejinha no metrô, com uma jaqueta que dizia “não às guerras”. Há trinta anos atrás isso seria inimaginável em Berlim... mas hoje é possível. E isso é possível em muitos lugares do mundo.

 

O mundo, apesar de seus revezes e de muros invisíveis, trilha novos caminhos de esperança. Pode demorar, e às vezes vai demorar muito mesmo, uma questão de gerações até, mas existe esperança. É só olhar para Berlim, tocar o muro que separou tantas vidas, presenciar a sua força e sua fragilidade, e vermos que sopros de esperança por um mundo sem muros persistem. Quem sabe assim, possamos construir pontes ao invés de muros?

 

Berlim nos dá esperança.

 


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