Porque ensinar meninos a serem sensíveis é tão importante quanto empoderar meninas

A cada ano que se passa nós nos conscientizamos de como é importante empoderar meninas em benefício da igualdade de gêneros. Meninas jogando futebol não é mais tabu, brincar de carrinhos é quase normal (quando não é até motivo de orgulho). Apesar de ainda serem pressionadas a serem vaidosas (como se vaidade fosse sinônimo de feminilidade) ou a usarem rosa como em piloto automático, aos poucos pais e mães educam suas filhas para um mundo no qual elas podem ser profissionais bem-sucedidas, mães sem culpa e esposas em casamentos mais igualitários.

 

Mas essa é só metade da história. Sim, porque empoderar meninas para um mundo que permanece machista é como jogar um bumerangue no ar, deixar este explorar o vento e um tanto do mundo, até dar meia volta para o mesmo lugar.

 Se a outra metade do mundo – os homens – continuam sendo educados da mesma maneira que décadas atrás, as mesmas barreiras sofridas pelas mulheres continuarão em pé. Se empoderar meninas é preciso, desconstruindo o conceito de feminilidade, da mesma forma precisamos repensar como a masculinidade necessita de um novo conceito.

 

O que é ser masculino ainda hoje? Desde pequenos, aprende-se que ser menino tem toques de agressividade, de competitividade. De poder. Tem que estar pronto para o que der e vier, não pode ter medo. Macho tem que ser destemido, não pode fraquejar. Chorar então...  só pode ser maricas.

 

Nessa concepção de mundo, meninos logo aprendem a distanciar-se de sua sensibilidade e a doçura inerente de toda criança. Meninos são instigados a se desligar de emoções e partir para a ação, o que geralmente envolve um quê de violência. Logo aceitamos que brigas entre meninos são consideradas normais; afinal, meninos são assim mesmo. Alguns até se orgulham quando seu filho dá uns sopapos no coleguinha, mostrando que ele é sim cabra macho, sim senhor.

 

Meninos podem até ser mais agressivos e ativos por natureza devido à testosterona, mas alguns estudos* apontam que a agressividade masculina não está necessariamente ligada à genética ou a hormônios. Sabe-se também que moldar o comportamento de futuros adultos se dá na criação, no ambiente onde crescem. Se meninos crescem com o aval de bater no coleguinha, se é estimulado a “engolir o choro” ou sofre gracinhas porque ele prefere brincar de cozinha ao invés de brincar de carrinho, é claro que os mesmos comportamentos e estereótipos de gênero se perpetuarão. 

 

Como mãe de menino, me pego pensando nisso frequentemente. Outro dia tive uma discussão acalorada com um amigo (bem conservador em certos aspectos) sobre brinquedos apropriados para meninos e meninas. Na opinião do cidadão, menino não pode brincar de boneca. Menino tem que brincar com carrinho, lutas e armas. Menino não foi feito para brincadeiras mais doces nem serenas. Isso é coisa de menina; ponto.

 

Nesse âmbito, me pergunto até que ponto esse direcionamento tira a doçura inerente de nossos meninos ainda tão pequenos. Se um garotinho quer brincar de nana-neném, alguém vai tirar a boneca de seus braços? Que tipo de mensagem estaremos passando para esse rapazinho?

 

Se é malvisto que um menino chore, que se emocione, como esperar que um dia essa criança se transforme num homem que saiba lidar com sentimentos? Como esse homem demonstrará empatia, se a profunda conexão com sentimentos e sensibilidade lhe foi tirada na tenra idade?

 

Quando paramos para pensar, não é à toa que meninos tornam-se profissionais que não suportam mulheres grávidas e mães profissionais, que se tornam maridos e pais ausentes. Que deixam de promover uma mulher porque a acha inferior. Que são incapazes de se emocionar com os múltiplos casos de abuso sexual, mesmo com filhas dentro de casa. Que acham as denúncias de mulheres abusadas um tremendo mimimi. Ai, a lista é longa...

 

Criar meninos que sabem expressar sentimentos e emoções, que não têm medo de serem sensíveis e que não precisam definir sua masculinidade através da agressividade é essencial para alcançarmos a almejada igualdade. Meninos que sabem se conectar com o coração e não sentem vergonha disso se tornarão adultos mais respeitosos, pais mais presentes, maridos mais amorosos, profissionais que não se sentem ameaçados pela competência de uma mulher.

 

Para viver num mundo igualitário, meninos e meninas precisam ser educados de acordo com sua individualidade. Se meninas querem jogar futebol, meninos querem dançar balé, é de cada um. Cada criança é única, muito além dos estereótipos de gêneros. Precisamos reconhecer isso.

 

Ao mesmo tempo, isso não quer dizer que vamos ignorar as óbvias diferenças biológicas entre meninos e meninas. Ignorar o gênero e deixar a criança “decidir depois”, como foi um caso de um casal que decidiu dar ao seu bebê tanta liberdade de gênero que a criança poderia decidir o seu gênero sozinha, pode criar uma confusão irreversível (não sejamos radicais, pelo amor de Deus).

 

Não sei até que ponto termina o estereótipo e começa a neutralidade de gênero. Tudo isso é muito difícil de definir completamente. Mas para isso existe uma coisa que muito ajuda: bom-senso. Com certeza como mãe vou errar muitíssimas vezes, mas pisarei na bola com o intuito de acertar. E nessa dança de acertos e erros, procuro deixar claro para meu filho que ele pode plenamente sentir suas emoções, que não é feio chorar ou nem que ele deva se sentir inferior por brincar de cozinha ou vestir rosa.

 

Talvez fosse mais fácil criar meninos de acordo com o estereótipo que nós conhecemos. Seria mais fácil aceitar que as brigas que às vezes acontecem no jardim de infância são fruto de um comportamento inerente, de algo intrinsicamente biológico. Isso porque é uma forma que já está arraigada em nós, que conhecemos desde sempre, nossa referência (até mesmo inconsciente). Mas assim como precisamos quebrar com essas barreiras para meninas, para deixar de lado a moça submissa como se a mulher fosse um ser inferior, o mesmo precisa ser feito para os meninos.

 

Para que a próxima geração esteja pronta para mais um passo em direção à igualdade de direitos e oportunidades, nós precisamos de mulheres fortes assim como de homens emotivos.  A hora de repensarmos a criação de nossos filhos é agora.

 

* Referência: Are boys more aggressive than girls?


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