Aprendizados de uma imigrante

Para muitos, sair do Brasil é um sonho. A Europa, os Estados Unidos, enfim, o mundo desenvolvido, parecem a terra prometida que brasileiros frustrados procuram. Os familiares, amigos e conhecidos colocam enxurradas de fotos nas redes sociais de uma vida privilegiada, recheada de sorrisos, lugares fascinantes, diversão. Tudo parece fluir sem dificuldade.

 

Como já dito em vários artigos, viver no exterior não é um mar de rosas, por isso não vou bater na mesma tecla. Mas a experiência de viver fora de seu país de origem traz algumas mudanças em sua vida, na sua forma de ver o mundo, até nas suas crenças mais profundas. De uma certa forma, parece que viver no exterior acelera certos aprendizados de vida. Isso não quer dizer que viver fora do Brasil seja melhor. É apenas a singela questão de que, fora do seu mundinho, você é pressionada a ver coisas novas, a repensar hábitos arraigados, reciclar modos de ver o mundo. 

 

Que mudança é uma constante, praticamente a única coisa que podemos contar, é o primeiro aprendizado que tive. Quando embarcamos na aventura de morarmos em outro país, olhamos para o Brasil e as pessoas que amamos uma última vez e, de uma certa forma, aquela imagem fica congelada na memória. Ela não progride nem regride, não muda, tudo permanece igual. É como se estivéssemos num carro em movimento, ele se move mas nós temos a sensação de estarmos parados no mesmo lugar. Uma ilusão; quando retornamos, esperando encontrar aquela imagem congelada no freezer da memória, ela descongela quase de imediato... e nos pega de surpresa.

 

Eles mudaram, eu também mudei.

 

A vida nos molda como se fôssemos um pedaço de argila à espera de mãos que nos dêem forma. Dessa maneira, nos deparamos com pessoas estupefatas que te dizem como você mudou, te examinam como se tirassem um raio X para saber o que tanto mudou em você. Nem você se reconhece mais. Quem sou eu, quem é você? Amigos de décadas procuram por resquícios de alguém que não existe mais, apenas as feições se parecem. Familiares fazem esforço para reencontrar aquela pessoa que eles viram nascer e acreditam conhecer melhor do que ninguém. Da mesma forma, aquelas pessoas que você achava que conhecia estão irreconhecíveis.

 

Não se pode esperar que as pessoas esperem por você, pela sua chegada ou por uma ligação. A vida muda, a fila anda. Tudo muda.

 

Enquanto na sua vida passada as pessoas seguem com suas vidas, você procura ardentemente por pessoas com quem contar no seu presente. Não é substituir no coração, mas na rotina, no seu dia-a-dia, ter pessoas com quem contar. E isso não é fácil, porque na vida de imigrante o que mais existe são amigos passageiros, aqueles seres inquietos que ficam por um tempo mas logo partem em busca de novos caminhos. Nesse vaivém de amizades inconstantes, ainda assim você se aprofunda em relacionamentos, pois afinal estamos todos no mesmo barco. Todos nós queremos um amigo com quem possamos esculhambar o país que nos acolheu, reclamar da vida, do frio, enfim, de qualquer coisa. Queremos abraço apertado e alguém que te diga que te adora, com quem você se sente à vontade para comer brigadeiro e falar de sexo (ai, ai, ai!).

 

Você quer fazer parte de uma comunidade, seu coração pede isso: sair da solidão inerente a quem deixa tudo para trás. Nessa montanha-russa de amizades, poucas para a vida inteira, muitas apenas temporárias, você aprende que pode mergulhar em novas amizades, mas que precisa se desapegar um pouco para não sofrer tanto quando, inevitavelmente, a sua melhor amiga vai embora. Aprendi a me apegar nos momentos especiais, na sorte te ter encontrado pessoas maravilhosas que, se você ainda estivesse no Brasil, jamais teria conhecido.

 

Assim você se deixa levar por momentos ao invés de exigências, de aceitar que tudo na vida é passageiro, mas sem deixar de mergulhar em cada nova amizade. Afinal, se não houver mergulho, e daqueles bem profundos, como aproveitar o presente de cada amizade? Mas aprender a lidar com a partida de pessoas queridas também é preciso.

 

E é justamente esse novo foco em experiências e momentos especiais, no fato de que tudo passa, que te fazem acordar para uma epifania: para que se apegar a tantas coisas materiais? Para que a necessidade de ter mais, adquirir, ostentar?

 

Tenho a sensação de que no Brasil valorizamos com ardor as lojas de marca, as festas de aniversário caríssimas, o carro do ano, os tratamentos de beleza, a manicure da semana, ovos de Páscoa com preços absurdos, contas de restaurantes no mesmo valor de um salário mínimo. Trata-se esses luxos como necessidade, gasta-se mundos e fundos com coisas que nos trazem uma satisfação temporária. No Brasil, achava tão difícil me libertar disso, pois é um comportamento aceito, passado de geração em geração, de amigo para amigo. Até você ter a oportunidade de ver a vida com outros olhos, e perceber que necessitamos de outras coisas. Necessitamos, como disse acima, de calor humano, de amor. De comida na mesa, de família. Viver fora te faz repensar – e muito.

 

É claro, é fácil generalizar, colocar todos os brasileiros nesse clichê é injusto, assim como não seria real dizer que os alguns alemães não esbanjam por aí. Entretanto, por mais que na minha família não tivéssemos aquele afã de roupas de marca, por exemplo, esperava-se que eu fizesse as unhas, que investisse em festas de arromba, que gastar com algo caro e pagar em prestação a perder de vista é normal. É normalíssimo. Mas esse materialismo insano, que hoje vejo com outros olhos, é algo que não cabe mais em minha vidinha simples de imigrante. Uma faxineira que limpa minha casa uma vez por semana durante meras três horas já é luxo o suficiente.

 

Nesse contexto, aprendi que preciso gastar meu dinheirinho suado com pessoas amadas, viagens, livros, família, passeios, risadas com as amigas permanentes e temporárias, enfim, tudo que me traga momentos de felicidade, memórias e recordações. Então me apego aos momentos e vivo disso, porque às vezes menos é mais.

 

Se um dia voltar ao meu querido Brasil e me despedir dessa vida de imigrante, serei produto de mudanças, de largos horizontes, um novo eu. Isso porque ninguém permanece o mesmo; vivendo no exterior ou não, a vida nos faz mudar. Mas tenho a impressão de que viver fora do país acelera alguns aprendizados, porque temos a oportunidade de reavaliar quem somos, em que acreditamos e o que é importante. Vejo isso comigo, vejo com meus pais, que recentemente emigraram para a Inglaterra. De qualquer forma, o principal aprendizado é que estamos sempre aprendendo, mudando e nos moldando com as experiências de vida, e que isso é essencial para nos tornarmos pessoas melhores.

 

Quem será eu nos próximos dez anos? Alguém um tanto diferente do que hoje, disso tenho certeza.

 


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