Uma língua de herança pelo mundo: além do bilinguismo

Nada mais natural para brasileiros morando no exterior que ensinar o português a seus filhos, não é mesmo? Ainda mais hoje com estudos que comprovam como o bilinguismo é benéfico para as crianças, como desenvolve o cérebro e suas capacidades cognitivas. Mas falar português além das fronteiras tupiniquins é muito mais que aprender uma língua que um dia pode fazer diferença num currículo; priorizar o português é dar aos filhos uma herança cultural, facilitar o afeto com a família e, principalmente, presentear a uma criança que cresce entre duas culturas o orgulho de ser diferente, falando uma língua diferente.

 

Como pais e mães vivendo no exterior, no decorrer dos anos vemos como é importante que nossos filhos se sintam conectados com a cultura que carregamos. É verdade, aos poucos nós mudamos aqui e ali com novos hábitos adquiridos, com novas formas de ver a vida.

 

Entretanto, a essência da cultura permanece conosco. Como não dividi-las com nossos filhos? É até uma forma de fazê-los entender quem somos, de onde viemos. O idioma é a forma de transmissão de cultura e, de certa forma, de identidade.

 

Nesse âmbito, vem-se desenvolvendo o Português como Língua de Herança (POLH), um movimento educativo que, para a grande maioria dos brasileiros, é completamente invisível, mas de extrema importância para a diáspora brasileira. Nesse novo campo de estudo, fica claro que não é somente um movimento para promover o aprendizado do português, mas usar o desenvolvimento do idioma como chave para explorar a cultura brasileira. Como consequência, é o acesso a quem nós somos, os valores com os quais crescemos, a afinidade e afeição com familiares, amigos, comidas, paisagens, e tudo o mais que engloba o nosso Brasil.

 

Na Europa, diversas iniciativas dão a oportunidade para famílias enriquecerem com a nossa língua e cultura, como a Mala de Herança, criada por Andréa Menescal Heath, e a Linguarte e.V., uma iniciativa escolar e cultural que conta com profissionais qualificadas na área como a Camila Lira. Essas duas mulheres fascinadas com o tema do POLH veem no aprendizado do português a chave que aproxima pais brasileiros de filhos internacionais - que nem sempre nos entenderão. Se já existe o confronto entre gerações, imagine ainda por cima o confronto cultural entre pais e filhos. O idioma é a forma de diminuir distâncias e trazer nossos filhos para perto de nós.

 

A importância da consistência

Nem sempre será fácil. Para nós, imigrantes, a distância do nosso idioma e a rotina de uso em outra nos faz inconsistentes, a cometer erros crassos na fala e na escrita. Quantas vezes nós mesclamos línguas, seja porque nossos cérebros lembram apenas da expressão estrangeira, seja porque alguns termos caem como uma luva com o que desejamos dizer?

 

Essa inconsistência de idiomas é o primeiro desafio. Ao morarmos no exterior, é de certa forma natural que usemos certos termos no dia a dia, misturando os idiomas. Eu mesma faço muito isso. Pergunto ao meu filho: “você quer um Wurst (salsicha)?”, “hoje temos um Termin (consulta) no médico”, e por aí vai. Como exigir que uma criança fale apropriadamente o idioma se nós falamos uma língua híbrida?

 

Consistência é o primeiro passo, como diz a Andréa Menescal. Se nós somos as únicas fontes de português de nossos filhos, essa fonte precisa ser limpa.

 

Resistência vs. estímulo

Mais que isso, aprender português é viver o POLH. Isso porque o português ensinado como língua de herança não é estruturado como aprendemos no Brasil. É o idioma da família, sem a estrutura de sala de aula ou dever de casa. É a língua aprendida por estímulo, pois em alguns casos pode existir uma resistência a mais da criança.

 

Posso dar o exemplo da família de meu marido. Nascido na Alemanha de uma família tipicamente coreana, ele resistiu às pressões para aprender a língua dos pais. Ao mesmo tempo, seus pais preocupavam-se com a integração do filho na Alemanha, visto que ambos não falavam alemão como língua materna. Assim, eles deixaram o coreano de lado e focaram no aprendizado do alemão. Hoje meu marido se arrepende de não falar a língua dos ancestrais e muitas coisas se perdem na comunicação com os pais; ficam no ar, incompreendidas.

 

Com o meu filho, eu procuro não forçar o português, estimulando a língua como posso. Mas confesso que não tenho sido tão consistente ao transmitir o idioma, nem persistente ao insistir para meu filho falar ativamente. Sim, porque é importante ir além das competências passivas do idioma (entender e ler) para as ativas (falar e escrever). Como disse a Camila Lira, vivenciar o idioma é ser competente nas quatro faculdades. Mas geralmente muitos de nós contentam-se com o entender, talvez o falar, quem sabe o ler. Escrever é um investimento no qual pouco pensamos e menos ainda fazemos.

 

A criança está estimulada em outra língua e cultura e, querendo o não, o português será secundário academicamente. No campo emocional, como dito acima, é onde o POLH faz a diferença. Portanto, simplicidade é tudo. A aquisição do POLH é uma questão da consistência do falar, de leitura constante, de apresentar manifestações culturais como músicas, poemas, teatro, folclore, capoeira, culinária, geografia, história, arte... existem tantas formas de apresentar a riqueza da nossa língua para nossos filhos!

 

Eventos da Linguarte: muita arte, cultura, encontros ao ar livre. Tudo para estimular o POLH.

 

O papel fundamental dos livros

A literatura principalmente tem um papel fundamental na expansão do vocabulário dos pequenos e no estímulo da imaginação. A Andréa recomenda deixar a criança perguntar e interagir o máximo possível, pois é assim que se aprende novas palavras e expressões. Para enriquecer a contação de histórias, pode-se começar a frase (com gestos e sons) para que a criança a termine, convidar a criança a assumir um personagem, contar e perguntar seguidamente para a maior interação possível. Envolver a criança nos acontecimentos da história também pode ser uma boa ideia para criar motivação e gerar discussões.

 

Mesmo fazendo-se do aprendizado do POLH como prioridade, pode ser que certas crianças tenham mais resistência, principalmente se apenas um dos pais fala o português em casa e não há muita interação com a língua. Nesse processo, o importante é persistência.

 

 

 

A mistura de línguas por parte das crianças e/ou a predominância de uma sobre a outra são variáveis e não devem ser motivo de preocupação, salienta a Andréa. Valer-se de mais interação com familiares, estadias no Brasil e participação em contação de histórias e cursos lúdicos para estímulo do português são recomendáveis.

 

Ainda mais fundamental: família e aprendizado com amor

O interessante é que, no nosso caso, bastou a visita dos avós para o português de meu filho decolar. Sua aquisição de vocabulário foi extraordinária. Se antes eu achava que havia muita resistência, a experiência de ter meus pais estimulando o português com meu filho sem a opção de uma outra língua me mostrou que, pelo menos para o aprendizado ativo da fala, basta o incentivo constante e persistente. O mais importante: foi através de conversas sérias e esdrúxulas que o vínculo emocional de meu filho com os avós desabrochou. Sem o português isso não seria possível.

 

Nesse contexto, o aprendizado da língua foi facilitado com a enorme paciência que empregamos nesse processo. Às vezes a criança precisa de tempo para traduzir uma palavra ou imediatamente tenta se expressar na língua que se sente mais confortável (alemão). É preciso paciência, dar tempo para que a criança ache as respostas ou o espaço para perguntar o que isso ou aquilo significa em português. Reclamar, pressionar ou demonstrar irritação criam ainda mais resistência. Amor e paciência é o caminho.

 

Eventos da Mala de Herança: muitas leituras e atividades lúdicas para entreter a garotada em português.

 

Defendendo a língua de herança

Para cabeças mais conservadoras, estimular uma criança a diversas línguas só traz confusão. E no começo da jornada linguística da criança pode parecer isso mesmo: quantas vezes ouvimos que crianças bi- ou multilíngues demoram um pouco mais para falar, ainda mais para discernir os idiomas a que é exposta?

 

Com medo de que a criança não se desenvolva apropriadamente, muitos pais passam a falar uma língua que não é sua com a criança, expondo uma língua com inevitáveis erros de gramática e pronúncia. E isso é péssimo; não só tira-se a oportunidade da criança desenvolver uma segunda língua, como a capacidade de se conectar profundamente com a cultura, além de “ensinar” uma língua estrangeira erradamente.

 

Sem conhecimentos de multilinguismo, profissionais de saúde e educação aconselham pais de crianças com desenvolvimento “atrasado” a deixar a língua de herança de lado e focar somente no idioma do país que acolhe. A longo prazo, o tiro pode sair pela culatra: crianças que não se conectam apropriadamente com a família ou sentem vergonha de sua segunda cultura.

 

Para evitar esse efeito colateral, nada melhor que se informar sobre educação bilíngue para discussões produtivas com professores e médicos que indicam o foco em um idioma apenas. Nesse âmbito, o ideal é conhecer iniciativas de bilinguismo e POLH, e procurar aconselhamento com um profissional competente, como a Andréa e a Camila.

 

Iniciativas em Munique – e no mundo

Iniciativas como a Mala de Herança e a Linguarte fazem toda a diferença. Em cidades como Munique, onde aproximadamente 2.500 brasileiros vivem (Ministério das Relações Exteriores, 2015), é um privilégio ter iniciativas que promovam o POLH não só para as crianças, mas para as famílias como um todo. Trago os exemplos da Mala ade Herança e da Linguarte:

 

A Mala de Herança é um projeto que traz o poder da literatura e cultura para brasileirinhos em Munique. A Andréa Menescal Heath, com uma equipe de famílias, organiza os encontros uma vez por mês, aos sábados, para a leitura conjunta de livros em português, além de performances de artistas brasileiros de passagem pela capital bávara, trazendo música e atividades para os pequenos. 

 


Já a Linguarte, da qual a Camila Lira faz parte, é um misto de escola e centro cultural, que oferece aulas de POLH para crianças de todas as idades, inclusive a alfabetização (idealmente para crianças entre seis e oito anos). Com festas de São João, Carnaval, Natal e outras comemorações para que famílias tenham contato com o Brasil mesmo de longe, a Linguarte também foca na família como forma de fortalecer o português e o contato com a cultura brasileira.

 


Por fim, caso você, querido(a) leitor(a), queira conhecer mais sobre iniciativas do POLH onde você mora, eis algumas fontes:

  • ELO Europeu: mais dedicado para profissionais da área, mas a organização está colocando uma lista de iniciativas no site. 
  • BRmais: iniciativa privada de divulgação do POLH e cultura brasileira.
  • Brasileirinhos pelo Mundo: BPM Kids é uma plataforma colaborativa escrita por  brasileiras pelo mundo, mães e profissionais da área de Educação, Pedagogia e Psicologia com especialização em ensinar Português como Língua de Herança.

Muito obrigada para as colaboradoras:

 

Andréa Menescal Heath está na Alemanha desde 2002 e tem se dedicado a projetos sobre bilinguismo (atividades, palestras, orientação de pais, etc.) e ao desenvolvimento do POLH junto a famílias bilíngues tanto em Munique e arredores como na Europa e no mundo. É criadora e coordenadora da Mala de Herança e do Elo Europeu de Educadores de Português como Língua de Herança, sendo uma das atuais coordenadoras. Desde 2014, colabora com o Núcleo Internacional de Pesquisa em Multilinguismo da Universidade de Munique (IFM/LMU), onde é referência para a Língua Portuguesa. A Andréa recentemente lançou a obra Palavras Herdadas, onde ela conta sobre suas experiências com o POLH juntamente com a professora Sonia Almeida da Universidade Federal do Maranhão. A Andréa também se dispõe a conversar com pais e mães, aconselhando como proceder na questão do bilinguismo. Contate a Andréa através do email: maladeheranca@gmail.com

 


Camila Lira (à direita na foto) é mestre em Alemão como Língua Estrangeira com ênfase em bilinguismo pela Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, Alemanha. Atualmente é doutoranda na Universidade Europa Viadrina (Frankfurt Oder, Alemanha), onde pesquisa sobre o Português como Língua de Herança (POLH). É graduada em Letras Português - Alemão pela Universidade de São Paulo (USP) e formou-se no antigo Magistério em 1999 no CEFAM - Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento para o Magistério - Osasco, Brasil. A Camila, juntamente com Ana Souza (à esquerda na foto), publicaram a obra O POLH na Europa, uma compilação de diversos artigos sobre o POLH e experiências de várias iniciativas em diversas partes do mundo – de Londres a Dubai. Contate a Camila através da Linguarte aqui.

 



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