Recomendações literárias dos finalistas do Prêmio Amazon de Literatura 2017

Como autora independente, nada mais justo que abrir a cabeça e ler muito além dos escritores já consagrados na literatura brasileira. Mas não foi fácil começar; afinal, livros independentes não tem uma reputação de boa qualidade, como se criar um ebook na Amazon fosse a última esperança do escritor. Para muitos é assim que funciona, mas existem cada vez mais exemplos de autores que foram descobertos dentre os milhares de livros digitais na Amazon ou outras plataformas.

 

Com o intuito de descobrir esses tesouros escondidos nos confins da maior plataforma de publicação independente do mundo, a Amazon deu início ao seu próprio prêmio de literatura. Acompanhando os finalistas e suas obras, é fato que existem maravilhas ainda a serem descobertas.

 

Eis o que li e descobri dentre os finalistas.

 

Entre Pontos, de J.L. Amaral

Essa obra emocionante é um pouco diferente do que a literatura está acostumada. Nesse livro não existe vilão, grandes conflitos ou reviravoltas. É praticamente uma obra de memórias (mas não sei se é verídica ou imaginada), na qual o protagonista, Pedro, é um menino que cresce numa família humilde e amorosa. Diante da realidade de pai e mãe que trabalham o dia inteiro, após a escola Pedro embarca no ônibus dirigido por seu pai e roda a cidade de São Paulo. Nessas viagens de todos os dias, diversos personagens aparecem, suas vidas e situações moldam o pequeno Pedro. Seu pai, um homem trabalhador e íntegro, mostra a importância da honestidade e de se importar com outras pessoas. É desse exemplo que Pedro se fortifica, para então se tornar um homem da mesma integridade do pai.

 

O autor nos mostra a importância do amor e da família. Nos mostra as possibilidades da generosidade, como atos de bondade podem tornar o mundo melhor.

 

Que o mundo se torna melhor com pequenos passos e em nossas próprias casas. E que tudo, absolutamente tudo, é passageiro. Precisamos nos apegar às coisas boas da vida.

 

"A vida, Luzia, é uma enorme viagem. Como esse ônibus, por exemplo, do qual somos todos passageiros. Entramos por essa porta, no início da nossa jornada, quando nascemos. Tempos depois, descemos ali, por aquela, quando chega o nosso ponto final. Ninguém fica, ninguém permanece. A vida passa. Termina em algum momento. Por isso, importam, muito, nossas atitudes entre o começo e o fim da linha."

 

Para mim, Entre Pontos mostra o lado maravilhoso do Brasil. Imagino que esse é o Brasil real, cheio de pessoas honestas, trabalhadoras e cheias de vida, mesmo diante de dificuldades. Esse é o Brasil que foge das manchetes, que presta mais atenção nos nossos defeitos que nas nossas qualidades. Essa obra mostra o lado bom do brasileiro, cujo coração bate forte e teimoso.

 

Um livro para se emocionar, você não vai conseguir ficar com os olhos secos. Te garanto!

 

Pelos Caminhos do Tempo, de Barbara Nonato

Esse foi um livro que não me apeteceu de imediato. Tudo começa com Victor, um escritor (mais um) solitário que, por algum motivo, ainda está à procura de algo e decide se aventurar pelas estradas do Mato Grosso do Sul. Deparando-se com uma oferta de emprego numa fazenda, ele abriga-se na casa da família Brauner, alemães de descendência. Aos poucos, ele percebe que o patriarca, Domênico, não tem um mínimo de escrúpulos. A filha mais velha, Catarina, é quem rala na roça e  cuida dos dois irmãos pequenos.

 

Entrelaçando-se à essa história, o passado vem à tona com a saga das famílias que dividem a fazenda e vem de lugares distantes. Os alemães Brauner são os vilões, os japoneses os reservados mas prestativos, e os ciganos, que enfrentam o preconceito independentemente de onde estejam. Com a família cigana chega Carmem, uma moça charmosa que logo cai de amores por Venâncio, o filho dos donos da fazenda. É claro, o romance não aceito em ambas as famílias, com consequências desastrosas.

São os Brauner que dão uma mãozinha para a tragédia. Eventualmente, passado e presente se conectam, e a história mostra quando eventualmente a tristeza dá uma segunda chance ao amor e à alegria.

 

Nessas duas histórias paralelas, a autora explora temas como as garras da ganância e preconceito fazem certas pessoas tornarem-se versões monstruosas de si mesmas. Mas também fala da persistência do amor e de segundas chances. É uma obra cheia de segredos, mas que alguns dos mistérios não se deixam revelar ao final. Algumas respostas fizeram pouco sentido, todavia, apesar do esforço da autora.

 

Apesar de ter gostado da obra, senti falta de uma revisão que minimizasse os erros de formatação e ortografia, assim como as constantes repetições, principalmente diante do caráter pobre de Domênico. Mas no geral vale a leitura, principalmente para quem curte personagens de diferentes culturas.     

 

Nova Jaguaruara, de Mauro Lopes

O título não é lá essas coca-colas todas, embola a língua, não tem um apelo grande. Mas o livro? Simplesmente sensacional.

 

Nova Jaguaruara conta a história de uma cidade – a homenageada do título – que detém mistérios inexplicáveis. Há décadas que toda meia-noite um corte de eletricidade acontece que ninguém consegue explicar. Mitos de outros tempos deixam a população em constante estado de alerta e medo; ninguém é autorizado a sair de casa após a meia-noite, pois é na calada da noite quando pessoas desaparecem. Nesse mistério, chega uma equipe da companhia de eletricidade para explorar o local e, inevitavelmente, caem na teia de aranha desses segredos que nenhum forasteiro acredita.

 

Ao mesmo tempo, o autor conta a história de Bonifácio, um menino com capacidade de curar pessoas e alongar vidas, mas que ao ir de encontro ao ciclo natural de vida e morte, cria as condições para o mal se alastrar. 

 

Na épica batalha entre o bem e o mal, com direito a confrontos diretos com o diabo, o autor mostra como o equilíbrio entre bondade e maldade, morte e vida, são necessários para o ciclo natural das coisas. Eventualmente essas tramas se entrelaçam e fazem todo o sentido.

 

“Deus é como um cozinheiro que faz um jantar estupendo, maravilhoso. Uma mesa farta e longa repleta de tudo que imaginar de uma ponta a outra. Mas aí você prova e vê que falta tempero. Vê que não tem sal. E é justamente aí onde eu entro. Eu dou sabor à vida (...). E depois do jantar, ainda tenho as mais maravilhosas sobremesas para oferecer. Só mesmo muita oração para resistir às minhas tentações.”

 

Nessa obra fascinante e muito bem escrita, o autor apresenta a tentação, a importância de fazer o bem, o cinza de nossos sentimentos e princípios, o bem e mal que estão dentro de cada um de nós. Intrigante, impossível de colocar de lado, Nova Jaguaruara é o meu preferido dessa nova safra de livros independentes.

 

Amarga Neblina, de Fernanda Mellvee

Às vésperas de um casamento por conveniência, Aurora descobre o desejo após a chegada de um místico em sua pequena cidade, o estrangeiro Gregory. Deixando a cidade de cabeça para baixo, ninguém sabe ao certo de onde vem Gregory, mas logo ele deixa resquícios de seu charme pela cidade. Não só Aurora se obceca com o homem; mulheres perdem suas reputações diante dos mistérios que o rodeiam. Aurora, lutando contra suas próprias vontades, vê suas fantasias tornarem-se uma obsessão incontrolável.

 

O livro apresenta algumas passagens interessantes, assim como fica logo claro como o conflito de Aurora é sólido. Entretanto, achei o livro tão confuso quanto os sentimentos da protagonista (talvez tenha sido de propósito). A autora não revela os mistérios de Gregory e certos elementos que inicialmente trariam mistério para a obra, como a travessia do ¨Arvoredo¨ (imagino que seja uma floresta enorme ao redor da cidade, isolando-a do mundo).

 

Mencionada no início, o Arvoredo não tem mais importância no final. Achei a protagonista uma moça insípida, sem profundidade. Talvez seja eu quem não tenha paciência para moçoilas que se deixam levar pelo primeiro rapaz diferente que atravessa seus caminhos, quebrando a monotonia de suas existências. Uma pena que, mesmo com certo potencial, para mim a obra não vingou, a única que não me convenceu dentre os finalistas. 

 

O Memorial do Desterro, de Mauro Maciel

A obra vencedora do Prêmio  relata o percurso de um escritor que retorna à cidade natal para enterrar o inquilino de seu imóvel. Identificado como irlandês  – a única coisa que se sabe sobre o morto – e sem família ou amigos, ele deixa uma carta endereçada ao seu escritor favorito. Sem opções de que conhecidos o enterrem, as autoridades entram em contato com o escritor – que não mais escreve – para que ele providencie o enterro, que depende de um obituário para ser registrado no Livro Tombo dos Mortos. Caso não aceitasse, o destino do irlandês seria o desterro.

 

Com a promessa de herdar o barco à vela do morto (que depois descobre-se é um barquinho sem-vergonha), o escritor que permanece anônimo retorna à cidade natal e confronta seus fantasmas. Com a missão impossível de encontrar pistas de quem era o irlandês, eventualmente ele falha em sua missão. Mas um novo amigo resolve ajudá-lo na nobre tarefa de roubar o corpo do irlandês do necrotério e levá-lo para uma ilha deserta, onde poderia descansar em paz. 

 

Nessa loucura, eles embarcam no barquinho para uma ilha no Atlântico Sul, onde inevitavelmente o escritor retorma a antiga profissão e escreve o memorial do desterro.

 

Uma obra que aborda a fascinação da escrita e suas desilusões, não pude deixar de pensar naquele estudo da Universidade de Brasília que aponta as obras de escritores brasileiros como memórias de si mesmos. Mas uma obra sobre um escritor, pensei eu. Quantas mais?

 

Mas não é só disso que a obra trata, felizmente. A história do policial que torna-se amigo do escritor e embarca numa aventura sem volta se dá uma chance de viver plenamente pela primeira vez na vida. Esquece-se do dever e entrega-se ao desejo de fazer algo, qualquer coisa, que o tire do marasmo de sua rotina. O escritor desiludido com a escrita retoma o prazer das letras, dá uma segunda chance ao seu talento, algo que ele procurava enterrar o mais fundo possível.

 

“O oceano é um caminho por onde só os pacientes conseguem chegar ao destino”

 

Percebi então que, se na superfície a obra mostra as amarguras de um escritor, no fundo mostra a importância de seguirmos nossos talentos independentemente das desilusões assim como de nos entregarmos a cada sopro de vida, de não nos acomodarmos na rotina, de arriscarmos. É claro, quando arriscamos existem consequências, às vezes irreparáveis, como demonstra o final da história. Mas no final das contas, é a jornada, a viagem que conta.

 

Uma história cheia de imaginação com um fim inesperado; vale muito a pena ler essa obra e, mesmo não sendo minha predileta dentre as cinco, merecedora do prêmio!

 

Boa leitura!

 


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