A Pequena Ásia de Düsseldorf

Muitas atrações da capital da Renânia do Norte-Vestefália se destacam para turistas e locais, do MedienHafen (porto da mídia) com edifícios modernos beirando o kitsch até o centro antigo aos pés do Reno. Mas nada mais diferente do comum do que o toque asiático das comunidades japonesa e coreana que permeia a cidade.

 

Entre a estação de trem e o centro, nos arredores da Immermannstrasse, espalham-se restaurantes servindo sushi, kimchi (uma especialidade coreana de repolho com chilli) e udon (sopa de macarrão oriental), além de estabelecimentos de karaokê, bares de sakê, supermercados, lavanderias, padarias e decoração japonesas, principalmente.

Um toque de Japão autêntico com vestígios coreanos e chineses tem a sua história, é claro. Ainda no século 19, esse caso de amor começa com o alemão Louis Kniffler, criado em Düsseldorf, que fundou a primeira casa comercial prussiano-japonesa em Nagasaki, dando início ao que primeiramente fora somente relações comerciais. Cem anos depois, no pós-guerra, empresas japonesas começaram a abrir filiais em Düsseldorf , atraídas pelo comércio de aço da região.

 

Em 1961, havia exatamente 279 japoneses em Düsseldorf. Hoje, cerca de 8.500 japoneses vivem em Düsseldorf e região. Mais de 400 empresas japonesas estão baseadas na cidade. Estatisticamente, cerca de um por cento da população de Düsseldorf é japonesa. Parece pouco, mas a influência da cultura japonesa aparece não só nos restaurantes de sushi, como no Japan-Tag (Dia do Japão), comemorado anualmente em junho com um show de fogos de artifício, saudando a influência japonesa, além de outras manifestações culturais.

 

Impressões da avenida Immermannstrasse e arredores, com lavanderias, supermercados, restaurantes e lojas japonesas e coreanas.

Casa de cultura japonesa EKO-Haus.

Mas não só as influências japonesas destacam-se na cidade: um pouco mais discreta, sem tanto auê, os coreanos também chegaram. Na década de 1960, a Alemanha começou a recrutar enfermeiros e mineiros da Coreia do Sul como trabalhadores convidados. O recrutamento de trabalhadores foi causada não só pela necessidade econômica, mas também foi uma demonstração de apoio para um país que era dividido por uma guerra ideológica, o capitalismo vs o o comunismo, assim como a Alemanha. Países completamente diferentes, mas semelhantes na divisão artificial de suas fronteiras como espólios de guerras.

 

Nesse contexto, veio a família de meu marido para Düsseldorf, simplesmente em busca de uma vida melhor. Como enfermeira, minha sogra logo encontrou emprego, trabalhou com afinco, melhorou de vida. Seu marido, professor formado, teve menos sorte. Sem equivalência de diplomas e com um forte sotaque na boca, perambulava de um emprego para outro. Mesmo com dificuldades, a comunidade coreana aumentava e, como os japoneses, ficavam geralmente entre eles mesmos. Mas a geração seguinte se preparava para abraçar a cultura alemã para, em contraste com a geração de seus pais, aprender a apreciar um boa salsicha acompanhada de kimchi. Mantinham o idioma e algumas tradições, mas a miscigenação começa. Quando se vê, a terceira geração é uma mistura de diferentes culturas.

 

Salsicha com kimchi: misturas culinárias e culturais.

Hoje em dia, os jovens Düsseldorfers agregam influências de ambas as culturas. É só caminhar pela Immermannstrasse e ver grupos de adolescentes ou jovens adultos vestidos como personagens dos quadrinhos japoneses – os manga. Cabelos coloridíssimos, peças de roupa exóticas, perucas, armas de mentira, maquiagem à lá Halloween – assim se vê que o Japão permanece fascinante não só para a comunidade japonesa. O Dia do Japão começa a mostrar manisfestações culturais coreanas – o K-Pop (pop coreano) – adorado por jovens mundialmente. Aos poucos, as duas culturas são consumidas como uma só, para o espanto dos asiáticos mais tradicionais.

 

As influências japonesas e coreanas na cultura de Düsseldorf são marcantes: uma convenção de quadrinhos e manga, uma festa de K-Pop durante a Festa do Japão e moças vestidas ao estilo manga.

Digo isso porque, historicamente, os coreanos e japoneses se evitam. Meu sogro, por exemplo, nasceu em Osaka, Japão, pois sua família servia a uma família japonesa rica. Eram tratados como animais. A marca do imperialismo e da tal superioridade que os japoneses pregavam é muito difícil de apagar para quem tanto sofreu. Mas para as novas gerações sem a experiência direta dos maus-tratos, ou para os alemães, que praticamente não vêem diferença entre o que é japonês e o que é coreano, mistura-se tudo. É cultura asiática, mescla-se sushi com kimchi, manga com K-Pop. Ah, os novos tempos...

 

Quando uma brasileira adentra uma família cujas origens datam do século XII...

 

E é dessa nova, misturada cultura, que a cidade às margens do Reno se orgulha. Talvez seja nesse mistureba inusitado que algumas feridas comecem a fechar, pelo menos nas fronteiras de Düsseldorf. Se meus sogros têm suas reservas quanto aos japoneses, a nova geração dá de ombros e alegremente consome sakê, sushi e mangas.

 

Visitar Düsseldorf é deixar se levar por esse pequeno e quieto mundo, nem sempre óbvio num passeio pelo Reno, mas de uma influência forte. As relações alemães com japoneses e coreanos tomaram forma na culinária, em centros culturais como a Casa EKO da Cultura Japonesa, o único templo budista japonês construído na Europa (vale a pena visitar), no interesse de aprender idiomas difíceis, em casamentos mistos, em crianças que crescem em ambas as culturas. Nesse triângulo amoroso entre alemães, coreanos e japoneses, tem-se apenas a ganhar – e sentir muito orgulho disso.


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