A felicidade em tempos de inverno

Quando as luzes do Natal e o bang do Ano Novo se despedem, o inverno se fortalece, parece infinito. Apesar da estação gelada começar oficialmente em 21 de dezembro, na prática já em meados do outono ele começa a dar as caras, ainda tímido, abrindo a porta do frio. A primavera, em teoria a estação mais bela, o renascimento da natureza, é sabotada por ventos gélidos, nevascas fora de época. Em prática, o inverno alemão dura uns cinco meses, às vezes um pouco mais...

 

Em tempos de pouca luz, o mau humor de alguns piora, a torcida para a chegada do horário de verão se aquece. Mesmo quem tem adoração pelo inverno – geralmente os esquiadores – não vê a hora de que a neve derreta e deixe o sol brilhar. É, ou não é?

 

 

Mas quando vivemos nos trópicos, as fantasias de paisagens brancas, do friozinho maravilhoso, do requinte de quem desbrava o inverno com roupas elegantérrimas , ah... me lembro de às vésperas de vir para Alemanha pela primeira vez me imaginava com um casacão grosso e elegante, um gorro na cabeça, o ar saindo da boca que nem filme de Sessão da Tarde. De usar luvas, oh!, eu mal podia esperar, seria o clímax da sofisticação! Mal podia esperar a sensação de sentir a neve na pele, de fugir do calorão baiano, da mesmice dos trópicos, doze horas de dia, doze horas de noite. Queria viver o inverno de verdade, com todo o coração!

 

Quando um floco de neve pousou em minha mão pela primeira vez, há quase quinze anos atrás, mal pude conter a emoção, um sentimento único de descoberta de um mundo muito grande. Subir uma montanha para descer de trenó, uma experiência única. Descobrir a paisagem branca num Natal que antes só via na televisão foi fantástico. Então a novidade passou, mas o frio permanecia, inalterável. Logo você vê que a realidade do inverno é menos glamourosa que nos filmes de Hollywood.


Da elegância dos casacões, botas e luvas, logo chega-se a necessidade de usar meiões numa montanha de roupas e do fedor dos que evitam o banho em tempos de frio. Da vontade eterna de não sair de casa, de ficar perto do aquecedor, do isolamento como consequência. Da facilidade de acordar cedo junto com o sol vem a preguiça e procrastinação de noites intermináveis. Das quedas nas ruas escorregadias, suas pernas e outras partes do corpo com manchas roxas. Das ruas sujas de cocô de cachorro entre camadas e camadas de neve. Cadê o glamour? Foi-se embora...

 

Quantas vezes quis hibernar durante todo o inverno e acordar ao pé do verão?

 

Quantas vezes quis pegar o primeiro avião e voltar para “casa”?

 

Quantas vezes chorei simplesmente porque queria um tantinho, um pouquinho só de luz?

 

Quantas vezes mal podia acreditar quando alguém me dizia como o inverno é maravilhoso?

 

Oxe, incontáveis vezes!

 

 E, no entanto, ainda estou aqui. Treze anos depois, treze invernos. Setenta e oito meses de frio. 78! Ainda estou aqui...

 

Pode-se dizer que ainda estou aqui por vários motivos, muito maiores e mais importantes que uma mulher madura reclamando de frio e escuridão. Segurança, qualidade de vida, estabilidade; tudo isso me faz ficar. Mas não só isso, porque mesmo com todas as coisas boas se realmente não tivesse me adaptado, viver aqui durante o inverno seria insuportável.

 

Eu precisava não só sobreviver, mas viver. Viver de verdade, cada floco de neve, cada dia escuro, cada ventania. Hibernar, mesmo que não fosse em sentido literal mas de certa forma, não é opção.

 

Então muda-se a estratégia: o que se pode fazer para viver o inverno e ser feliz?

Abraçar as possibilidades do inverno virou meu lema. Museus e cinemas, chocolate quente e café e chá sob cobertas grossas, bonecos de neve e guerras de bolas de neve, livros, livros, livros, escrever, escrever, escrever. Um banho de banheira (delícia) junto com uma taça de vinho tinto (ave Maria) como recompensa...

 

Uma trégua é preciso, então parto para uma viagem longa ou curta, seja para o Brasil, seja para qualquer outro lugar. Cair na gandaia, por que não? Rir é preciso, dançar é preciso.

 

Coisas inimagináveis tornam-se parte da rotina: colocar esquis nos pés ou rodopiar com patins, fazer jogging no pico do inverno, fazer dieta mesmo que seu corpo peça chocolate. Sair de casa, mesmo quando uma preguiça do tamanho de um caminhão bate, te atropela.

 

Coragem!, sussurra o meu lado sobrevivente a cada lágrima, cada momento preguiçoso, cada saudade do sol. CORAGEM!

 

Não é fácil sair da letargia do inverno, de se acostumar com os dias curtos. Para alguns, o inverno cai bem como uma luva, para a maioria é uma época de melancolia, o winter blues.  Por muito tempo me descuidei, não levei à sério como o inverno impacta a vida, o humor, a felicidade.

 

Ainda me faz ficar deprê? Sim, principalmente quando o cinza cobre o sol e nem um raiozinho de sol consegue atravessar as nuvens grossas. É fácil? Que nada! Mas a gente se alegra com os poucos raios de sol insistentes e que às vezes conseguem quebrar a fortaleza do céu cinza, com as possibilidades de relaxar de uma forma diferente. Quero que o inverno acabe logo? Lógico, mas precisamos viver cada dia, então vamos sair de casa para malhar, assistir um filme. Ou ficar de preguiça em casa, o que é totalmente aceitável de vez em quando.

 

Abraço as possibilidades do inverno e, mesmo à espera do sol, da vida que a primavera traz, vou vivendo cada floco de neve em meu caminho.

 

E assim vivo a ciranda das estações, cada uma com suas pequenas bênçãos.

 


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