A arte de recomeçar

Num segundo, tudo parece girar, mudar. Uma demissão, uma gravidez, a mudança para um país diferente. O falecimento de um ente querido, divórcio, a simples epifania de que a vida é curta demais para aguentar certas coisas. Perspectiva, sabedoria de vida... aos poucos – ou de repente – vemos tudo com outros olhos!

 

No ciclo da vida, nada permanece. Quando acha-se que estamos estáveis, que o tempo para em nosso favor, a vida nos presenteia com surpresas.  E são essas situações inesperadas que nos fazem recomeçar, independentemente de idade, cor da pele, gênero, classe social, escolaridade. Isso porque o inesperado acontece com cada um de nós, de formas diferentes talvez, mas sem preconceito.

 

Às vezes, mesmo numa situação indesejada nós relutamos à mudança. Quantas vezes nos vemos presos a empregos ou carreiras que no fundo nos fazem infelizes, mas que ainda assim nos dão a sensação de estabilidade? Daí vem uma demissão súbita e sem explicação, e nos vemos sem chão. Aquele pedaço de seu dia, sua rotina construída a partir desse trabalho que você desprezava, não está mais lá.

 

Vemos hoje tantos brasileiros nessa situação; apegam-se ao emprego porque não tem jeito. Fazem todas as vontades de um chefe super-poderoso por medo. Com uma idade mais avançada, sem perspectiva de arranjar um emprego novo na crise que nosso país passa, se conformam com atividades que um estagiário poderia fazer. Sentem-se humilhados, mas seguem em frente. Até verem que seus esforços foram em vão. Já vi esse filme...

 

O que fazer nessa hora? Nem o livro de autoajuda mais milagroso ou uma reza poderosa a Deus vai colocar comida no seu prato. Desespero bate, você se pergunta se é o fim. Mas não é.

 

Mas não é só quando você se vê desempregado que as coisas mudam de figura. Mesmo uma gravidez planejada te faz redefinir seus caminhos. Quantas de nós desistiram de carreira, de independência financeira? Não digo só mamães – apesar de serem a grande maioria – mas os poucos papais que temporariamente (ou permanentemente) largam tudo para exercer a função mais difícil e invisível da humanidade. E por mais que façamos com alegria, uma parte de nós sabe que precisamos desistir de alguma coisa nesse recomeço, uma nova perspectiva que nos faz questionar o apego à títulos e posições de empregos que não mais nos valorizam (porque afinal nós temos outras prioridades na vida), que no final das contas essas coisas são passageiras e não valem absolutamente nada.

 

Ao invés de ser uma executiva bem-sucedida, você trabalha part-time para levar o menino na aula de futebol. Ao invés de valorizar mais dinheiro ou coisas, você passa a valorizar experiências, porque são essas coisas que levamos para sempre conosco. Ao invés de se contorcer para agradar a um chefe insaciável, você se apega a um talento esquecido, uma arte que ninguém nunca deu importância, nem você.

 

 

Mudar para um país diferente do seu requer constante recomeço. Existe uma natural reticência – afinal, não queremos nos perder nesse processo. Às vezes, você tem que cair do pedestal de classe média, de curso superior, de empregada doméstica e todo um suporte caríssimo que você acha que precisa. Valores que antes pareciam encaixar-se feito uma luva de repente parecem alienígenas. Você cai de pára-quedas num mundo diferente que te faz questionar tudo que antes você precisava. E você tem que flexível, afinal ninguém vai colocar o tapete vermelho para você passar...

 

Ao invés de permanecer na carreira de engenheiro, você se torna dono de loja de produtos brasileiros. Ao invés de exercer a advocacia, você vira professora de português ou cria sua empresa de bolos, docinhos e salgadinhos.

 

Nada te faz mais ciente da importância do recomeço do que um ente querido se despede da vida. Inesperadamente ou não, você se lembra da sua própria mortalidade, de que o amanhã não é garantia. De que palavras e gestos valem muito, positivas ou negativas. Experiências passadas e o apego natural a rancores e ressentimentos podem durar anos, resquícios sempre depositados no coração. Mas você então se pergunta se vale a pena guardar tanta coisa ruim no peito...

 

Ao invés de se apegar a rancores e ressentimentos com familiares ou amigos, você aceita que assim é, que as pessoas são do jeito que são, e se renova em relacionamentos menos exigentes. Ou corta pela raiz os relacionamentos que não mais te fazem bem.

 

A vida é essa constante ciranda de surpresas e escolhas, não é mesmo?

 

Mas recomeço é doloroso. Recomeço nos coloca de cabeça para baixo, nos faz questionar valores, opiniões, coisas tão arraigadas. Coisas que nos foram ensinadas desde a primeira infância, difíceis de se desvencilhar. Sacudir essas verdades é um processo demorado, angustiante. Mas principalmente porque nossa identidade, como nos vemos e como as pessoas nos vêem, é baseada nisso. Você é o engenheiro, a mãe, a executiva, a escritora, a advogada, o bem-sucedido, o rico ou o pobre, o filho bom, a ovelha negra, o formado em ciência da computação, o artista, o pão duro ou o generoso, a gordinha, a top model. Recomeço significa deixar um pedaço de si – ou pedaço de sua experiência – para trás. Significa ver um novo caminho além do que você está a acostumado a fazer ou do que as pessoas esperam de ti.

 

Não é fácil, não é mesmo. Mas até quando podemos esperar para mudar o que não estamos satisfeitos ou dar uma guinada numa vida sem significado? (e quando digo significado, quero dizer significado para você e mais ninguém). Às vezes precisamos de um sinal que algo está para mudar, mas ainda assim nos mantemos reticentes. Entretanto, a única coisa que não muda na vida é o ciclo de mudanças, ele persiste e nos surpreende, e espera que nós façamos algo a respeito. Parece clichê, e talvez seja mesmo, mas não é verdade? Porque nós, seres eternamente insatisfeitos, estamos sempre à procura, mesmo que nem para nós seja admissível.

 

Não existe fórmula secreta, nem um caminho padrão que deve ser seguido por todos. O mais fascinante da humanidade é a diferença de cada indivíduo, a diversidade de culturas, comportamentos, dilemas, histórias de vida. Cada um faz o seu caminho, abraçando o recomeço que inevitavelmente baterá à porta.

 

E assim é com um novo ano, um tempo em que esperanças são renovadas, que fazemos listas do que queremos mudar mas que não levamos muito à sério. Por quê? Não que possamos controlar todas as coisas da vida, mas algumas coisas podemos tomar as rédeas, moldar e mudar, sermos donos dos nossos destinos sempre que possível. Aceitar que podemos nos renovar, por vontade própria ou pela força das circunstâncias, recomeçar nem que seja em passos pequenos...

 

Desejo a vocês um 2018 de coragem, renovação e boas surpresas!

 


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